domingo, 1 de julho de 2007

A Fome

Sinceramente não estou a ver onde é que está o problema. Tanto alarido por causa de uma coisa que, no fundo, até pode ser boa?

Decidi fazer a experiência. Olha, hoje vou passar fome - pensei eu. Para chegar a conclusões sobre a fome no Mundo, nada melhor que testar a fome no Pedro. Até nem tinha lanchado mal nem nada, por isso calhava bem. Por volta das oito, hora de jantar, em vez de comer, decidi ir jogar ténis de mesa durante uma hora e um quarto. Ainda por cima ia estrear a minha nova raquete; estava garantida a coragem suficiente para levar esta loucura avante.

Não foi dos treinos mais longos e intensos, mas mesmo assim deu para transpirar um bocado. Quando cheguei a casa, acham que comi? É óbvio que não! Foi só ligar o computador para ler os últimos mails das admiradoras e banhoca. Tava cá com uma fominha... Mesmo assim lá arranjei forças para lavar atrás das orelhas.

Entretanto eram onze da noite. Eu sabia que tinha sobrado uma costoleta do almoço, alimento que aguardava estoicamente no frigorífico, anseando pelas minhas alarves dentadas. Ainda por cima era uma costoleta do cachaço, a minha parte preferida do porco. Por ventura, mesmo perante este cenário tentador, eu cedi? Claro que não! Toca a ir ao messenger ver se havia alguém a precisar de conselhos sentimentais.

Ouviram-se as doze badaladas. Um novo dia tinha chegado. Era o príncipe a correr atrás da Cinderela e eu a correr atrás do Tupperware que continha a costoleta. Já estava a ficar com um nevoeiro lixado. Não comia desde as 17h35m. Há limites para tudo, porra. E pronto, neste momento cá estou eu a escrever este post, com um tabuleiro em cima das pernas. Para além da chicha, vejo aqui arroz e batata frita. Não é nenhum manjar de rei, mas também não é nada mau.

Se eu tivesse jantado às oito, como é habitual, provavelmente não teria dado tanto valor à refeição e, consequentemente, a morte daquele porquito teria sido desprovida de tanto significado. É certo que já andava a trepar um bocado pelas paredes; seis horas e meia sem comer é dose (meia-dose era se fossem três horas e quarto, não deixando justificação para eu ter enchido tanto o prato). Neste momento, nem imaginam o prazer que me está a dar comer. E porquê? Porque estava cheio de fomeca. Ainda são capazes de dizer que a fome é uma coisa má?

Provada que está a minha teoria (julgo que não terão dúvidas, mas caso necessitem, estarei cá para as esclarecer), deixo-vos uma questão. Tendo em conta que o dia apenas tem 24 horas, e não havendo hipótese de abordar ao mesmo tempo todas as actuais fontes de polémica, não acham que devíamos definir prioridades? É que a fome é importante, há que ser coerente. Experimentem almoçar pouco e não lanchar, e vão ver o quão bem sabe aquele pão com fiambre de prazo de validade expirado. Simplesmente há outros assuntos cuja discussão está ausente de qualquer telejornal.

Exemplo: eu nunca vi em nenhum telejornal alguém falar sobre chulé. Envia-se apoio humanitário, voam sacas de arroz pelo ar atiradas de aviões, promovem-se campanhas para troca de seringas, etc., mas a luta contra o excesso de mau odor no pé já não se vê em lado nenhum. Será que é por a palavra ser divertida?

Experimentem repetir vezes e vezes sem conta, até perder o seu significado:

- Chulé.

- Chulé.

- Chulé.

- Chulé.

- Chulé.

Vá, agora todos:

- CHULÉ! CHULÉ! CHULÉ! (ouvem-se risos histéricos em todos os lares do país com acesso à internet)


Agora até já nem parece que se está a falar de uma coisa que cheira para lá de mal. Se experimentarem o mesmo processo com infecção urinária já não é assim tão divertido, pois não?

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