segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ando com mau karma

Eu já devia ter a noção de que isto de ter tanto amor para dar só me ia trazer problemas. Avioneta, quem te deu autorização para me tornares numa pessoa melhor? Agora é só azar aqui para os meus lados. Ao menos vê lá se depois me consolas um bocadinho. É que estou a ser castigado numa das poucas dimensões da vida que ainda me vai dando algum prazer, a comida.

"Deixa-te estar quietinho e continua a fazer mal aos senhores, que é aí que reside a tua alegria", dizia-me a consciência. "Não deixes passar esse carrinho de bebé; ninguém mandou essa mulher já estar de novo grávida e vir carregada de sacos do Lidl" - continuava ela. E eu não ligava. Já só insultava as pessoas de vez em quando, nem sequer chamei pêga à mulher que me bateu no carro, e agora até já cumprimento toda a gente, independentemente de raça ou condição social (menos as pessoas que eu topo que não lavaram as mãos depois de ir à casa de banho; que eu saiba discriminar gente com má higiene pessoal não é racismo).

Quando comi aquele bife à Marisol, já devia ter desconfiado. Mas depois comi um belo bife na "Mimosa" e achei que não tinha passado de um falso alarme. Hoje, depois de ter comido aquele cachorro no 7ª Vaga, fez-se luz. Eu nunca devia ter passado para o lado fofinho da Força, e agora ando a pagar por isso.

Que ali a única coisa que se aproveita é a tosta de atum, eu já sabia. Frustrante é chegar lá e dizerem "não há atum", ou pior ainda, não há pão para tostas. Não há pão? É o mesmo do que chegar a uma casa de strip e me avisarem de que as lap dances acabaram, e que já só há topless a 20 metros de distância. Há outro pormenor importante. Quando há pão caseiro, as tostas são grandes e custam x. Quando não há pão caseiro, fazem as tostas com uns papo-secos muito pequeninhos, custando na mesma x. A culpa é do J., que me desencaminha para estes caldinhos.

Quando não há pão ou atum, há sempre duas alternativas. Ou se pede hamburguer, ou cachorro. Hoje decidi pedir cachorro, visto que das últimas vezes que pedi o hamburguer, os simpáticos empregados se esqueceram de que eu, apesar de grande amante da cultura japonesa, não aprecio lá muito a carninha crua. Ao menos pedindo o cachorro, mesmo que eles não tivessem gás, já vinha mesmo como eu gosto. Cozinhado. Grande erro...

Cachorro quente do 7ª Vaga, se me estás a ouvir, deixa-me dizer-te uma coisa: és a pior merda que já comi na vida (e olha que na praia, devido a brincadeiras estúpidas, já me fizeram comer areia). O teu pão já tem 5 dias (quase se pode dizer que é um pão vintage), as batatas são rançosas, a esperteza que te fez, como já não tinha ketchup, pôs duas saquetas de mostarda em vez de uma de cada, e dispensava a folha de alface a transbordar para os lados, como se fosse um par de abas para transportar o gigantesco cachorro para casa, na eventualidade de não o conseguir comer em três dentadas.

Estou a ser injusto. É que afinal aquilo até é um sítio com classe, como se pode comprovar pelo quadro na parede, ao estilo de diploma de consultório médico, em que se pode ler "Este estabelecimento encontra-se em processo de certificação de qualidade". Ai que orgulho. Resumindo, já lá foram feitas uma data de auditorias e até agora as coisas continuam a não estar em conformidade. Um dia destes em que precise de tratar de uma qualquer maleita física, aparece-me uma miúda de 18 anos à frente a dizer "não se preocupe que eu vou cuidar de si muito bem, entrei este ano em medicina e estou em processo de aprendizagem, mas não há-de ser nada".

No meio disto tudo, houve um pequeno pormenor que me tocou. Os hippies da mesa do lado (ai perdão, alunos de artes) tinham com eles um cão. Apesar da raça dele ser "Cão Preto Enorme", era super meigo (ou será que era apenas interesseiro?). Parecia triste e tive um bocado de pena daqueles olhinhos (e agora juro que não estou a brincar). Eu gosto muito de animais, e aquele até estava magoado numa pata e tinha uma ferida no focinho. Ele cheirou a comida e estava a tentar que nós lhe dessemos um bocadinho (nós, porque não fui sozinho, e havia mais comida má na mesa), mas sempre com muita educação. Mesmo podendo alcançar facilmente a comida, com aquele tamanho todo, ficava ali quietinho e triste, pedindo apenas com o olhar.

Cão preto grande, podes não ter percebido hoje, mas no futuro vais-me agradecer. Eu simpatizei imenso contigo, e foi por isso mesmo que não deixei que comesses porcarias provenientes daquele estabelecimento. Ainda por cima era insensível da minha parte dar-te uma coisa chamada cachorro quente, ainda que seja feito (maioritariamente) de porco. Pareceste-me triste; mereces donos mais carinhosos e bem vestidos do que aqueles. Desculpa, sim?

3 comentários:

O pensador disse...

Pedro,quem te diz a ti que o cão preto,quando olhou para o teu saboroso cachorro,não estava precisamente a procura de saber onde esyava o filho dele?
(Que desapareceu misteriosamente da cozinha!!)

Jasmim disse...

Conquistado por um olhar de "caõzinho abandonado"? Às vezes identificamo-nos com os animais e o seu olhar terno...principalmente quando queremos miminho! ehehe (brincadeirinha...)

O pensador disse...

Quando queremos miminho,ou quando queremos comida....hehehe...