
Embora eu tenha começado nas lides do beijo na boca muito cedo, fui sempre, até bem tarde, um tremendo palhaço no que diz respeito a começar um namoro com convicção, qual Gengis Khan ao contrário na arte da sedução. O meu primeiro beijo aconteceu aos seis anos, dado no primeiro dia de escola (na 1ª classe), pela primeira rapariga com quem me cruzei à entrada. Ela aparece do nada, a correr, chega ao pé de mim, espeta-me um chocho, e eu fico ali parado. Eunice, muito obrigado pela experiência traumática a que me submeteste. O meu irmão, por tua causa, gozou sempre comigo até há bem pouco tempo. Nunca mais te vi na vida; se te visse na rua não te reconhecia, mas deixa-me dizer-te que me senti tão usado que me apeteceu ir a correr para a casa de banho dos rapazes rapar o cabelo e riscar os pulsos com tinta de esferográfica.
Entretanto, e muitos beijos depois, tudo parecia estar a evoluir. Prova disso era o facto de eu andar a desencaminhar a pobre da R., tendo nós ambos 10 anos, nos sofás da sala de televisão da Messe de Oficiais de Santa Clara. Aquilo é que era luxúria... Lembro-me apenas de um beijo terno, dado numa altura em que fomos parar a uma parte que tinha sido pintada de fresco, e sujamos as mãos de branco. O que os vapores da tinta fazem às pessoas...
"Aos 12 já ele era um gigolo de sucesso", devem estar a pensar vocês. Nada disso. Preparem-se para um momento de pura cromice.
Aos 14 anos mudei de escola. Quando se está no 9º ano, numa turma indisciplinada, e se é o melhor aluno da turma, a vida é um inferno. Mas quando um grupo de raparigas do 7º ano começa a andar atrás de nós, toda uma noção de falhanço social, devido aos chutos e empurrões que sofria na cadeira, no meio das aulas (a uma média de 3 por minuto), ficou alterada. "Elas estão-me a querer. Finalmente, sou um ser humano como todos os outros."
As tais raparigas queriam impingir-me a mais chata do grupo (girinha e tal, mas com umas carências emocionais tremendas). Chegaram-me a encostar a um armário; daí até a girinha se atirar para cima de mim foi um passo. Mas eu não queria a girinha. Também não queria a girona. Queria a outra, que ficava a meio caminho, mas tinha uma personalidade bem menos assustadora e bem mais divertida.
Entretanto comecei a gostar dela, apesar de me andarem constantemente a impingir a girinha. Chegou a um ponto em que tive de dizer basta; gostava de outra rapariga e a girinha escusava de continuar o assédio, que daqui não ia levar nada. Mas aquele comportamento não parou; em vez das perguntas girarem em torno de "ainda não gostas da girinha? porque é que não gostas da girinha? anda lá com a girinha", passaram a focar-se em "quem é essa rapariga mistério de quem tu gostas afinal?".
"Eu nunca vou gostar da girinha porque eu gosto é de ti" - confessei eu à intermédia. Não é que eu não tivesse medo da rejeição (tinha e não era pouco), simplesmente já andava com a cabeça feita em água de tanta pergunta. Para meu espanto, ela iluminou-se que nem uma árvore de Natal, e foi logo contar à irmã que eu gostava dela (a irmã por sua vez, na altura, não era nem girinha, nem girona nem intermédia).
No dia seguinte (sexta-feira), ganhei coragem e fui falar com ela (ao lado da parede da papelaria, lembras-te?). A tarde estava quase no fim e toda a gente estava a sair. De repente saiu-me, pela primeira vez na vida, a frase "queres namorar comigo?".
C., queres namorar comigo? - perguntei eu, timidamente. O coração batia de forma tão forte e descompassada que juro que, por momentos, se tinha deslocado e tinha ido parar ao pé do fígado.
Ela ficou felicíssima. Juro que sim. Mesmo tratando-se de mim, ela ficou mesmo muito feliz, e dificilmente me esquecerei do sorriso dela. O passo seguinte seria, dado que ela estava, como já tinha dito, encostada à parede da papelaria, com um letreiro na testa a dizer "só não me tornas numa mulher já aqui porque ainda sou muito novinha e há muita gente a passar", espetar-lhe um tremendo dum beijaço.
Foi precisamente isso que eu fiz! Ah grande campeão! Não foi nada. Nem beijo, nem agarrar-lhe a mão, nem nada. Fiquei tão feliz por ela ter dito que queria namorar comigo, mas tão feliz, tão feliz, que o máximo que consegui fazer foi esboçar um "fixe! então tchau, até segunda!". Depois desatei a correr pelo corredor, assustadoramente excitado (excitado como uma criança, não como um adulto), e assim que encontrei o meu amigo Peixe, espetei-lhe a ele um tremendo de um hi5.
Fónix, a chavala diz-me que sim, e eu vou a correr dar uma estalada na mão do meu amigo. Que deficiente mental! Que processo de interrupção voluntária da gravidez falhado que eu sou! Que anormal!
Escusado será dizer que a nossa relação não foi longe, porque andava sempre muito fria, por culpa da minha timidez.
No fundo, não aprendi nada naquelas tardes deitado com a R. nos sofás da messe, enquanto os velhotes viam os concursos do canal 1...
PS: Mais tarde, passados uns 9 anos sem ver a C., voltei a encontrá-la por acaso, através do seu profile no Hi5. Ironia?