terça-feira, 2 de outubro de 2007

A razão pela qual ando sempre com um maço de lenços no bolso.

Tudo se passou no 12º ano. Eu tinha acabado de mudar de turma, só porque na altura ainda tinha a ilusão de que queria ir para Engenharia Informática, tendo escolhido fazer Física em vez de Química. Uma pessoa é bombardeada desde pequenina (bem pequenina) com a clássica pergunta "o que é que queres ser quando fores grande" e, no meu caso, é olhada de lado por toda a gente como se fosse uma criança profundamente retardada, ao não ter uma resposta adulta na ponta da língua. Como adorava jogar "Space Invaders", sabia mexer nuns programas mais nerds, e odiava ser olhado de forma "já morrias, ó puto estúpido atrasado mental", acabei por repetir tanto a resposta da Engenharia Informática que fui até ao 12º ano com essa parvoíce na cabeça.

Percebi então que não era bem ali que queria estar numa bela manhã de Inverno, numa dessas maravilhosas aulas de Física. A conjugação explosiva de matéria difícil (bem para lá da minha capacidade de compreensão na altura), uma turma de gente desconhecida, e graves fobias sociais, levou-me a uma situação extremamente complicada. Eu tenho rinite e sinusite alérgica; como nessa manhã estava um bocado constipado, decidi levar um lencito (mesmo só um), mas só por acaso.

O problema é que, a certa altura, o caudal de ranho que escorria do meu nariz, muito bem filtradinho (muuuuuuuuuuuuuito bem), dava para regar os campos de uma pequena aldeia de África em época de seca. Aquele último lenço foi aproveitado até a um ponto em que não se sabia se aquilo ainda era papel ou apenas água um bocadinho mais espessita. Não havia nem uma pontinha de papel que não estivesse literalmente ensopada em muco.

Era impensável para mim, naquele tempo, abordar uma rapariga desconhecida (rapaz viril não anda com lencitos de papel no bolso para assoar a narigueta) para pedir um lenço (que atado que eu era), pelo que acabei por recorrer à embalagem de plástico do maço de lenços de papel. Triste, muito triste. Tenho plena consciência disso. Naquela altura tinha mais receio de falar com estranhos do que de correr o risco de me afogar no meu próprio ranho, por isso peço que compreendam a minha situação... Além disso, é com orgulho que afirmo que, hoje em dia, sou uma pessoa extremamente sociável (sem o extremamente), capaz de manter uma conversa interessante (sem o interessante) com qualquer pessoa, ainda que estejamos a falar pela primeira vez.

Mas enfim, lá me assoei mais umas vezes. Para além disso, sempre que se ouvia mais barulho na escola (ainda bem que a turma da sala ao lado era indisciplinada), eu aproveitava para dar mais uma fungadela à criançola, para impedir que se formasse uma estalactite de muco à entrada das minhas narinas. Parecia um jogo de futebol americano, em que o ranho era a equipa querendo avançar no terreno e fazer o seu touchdown, mais precisamente na área da boca. Em vez de respirar como um ser humano normal, inspirava muito devagarinho, de modo a prolongar o momento em que conseguia contrariar a acção da gravidade. Olhava constantemente para o relógio, na expectativa de que tocasse e o meu período de sofrimento acabasse.

Funguei mais naqueles 50 minutos do que em toda a minha vida junta. Felizmente agora tenho uma ligeira fobia a germes... e nunca deixo o maço de lenços do meu bolso chegar a quantidades inferiores a 3 unidades limpas.

Às vezes saio à rua sem lenços no bolso, tendo plena noção de que a qualquer momento posso voltar a ter uma crise destas (fora de casa nunca mais tive nenhuma, salvo erro). É uma sensação de liberdade que vocês nem imaginam. É uma mistura de andar de mota a 190 km/h na autoestrada (sem capacete e a apanhar com o vento na cara), com uma tarde passada numa praia de nudistas, respeitando à letra todos os seus costumes.

Vou dizer mesmo mais: está uma brisasinha fria na rua, estou de manga curta, e vou sair de casa para espairecer, sem lenços no bolso. Toma.

Atchim.

2 comentários:

moi disse...

Pedro
passe a publicidade mas há lenços de papel Renova, Pingo Doce, etc, até há uns com uns cheiros que uma pessoa cai pró lado, talvez sejam mais eficazes que os do LIDL

em relação ao fatal "que queres ser quando fores grande?"
compreendo-te perfeitamente, realmente não há pachorra...

Miuda Stressada disse...

por acaso hoje sáí sem lenços nos bolsos!!! medo... só agora percebi o que me poderia ter acontecido.

Pedro, obrigada por este aviso tão pertinente. A partir de hoje vou sair sempre de casa com pelo menos 10 pacotes de lenços...é que agora que sei o perigo que corro não consigo ser corajosa como tu para sair sem lenços ;-))