quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Totó mais totó não há

Embora eu tenha começado nas lides do beijo na boca muito cedo, fui sempre, até bem tarde, um tremendo palhaço no que diz respeito a começar um namoro com convicção, qual Gengis Khan ao contrário na arte da sedução. O meu primeiro beijo aconteceu aos seis anos, dado no primeiro dia de escola (na 1ª classe), pela primeira rapariga com quem me cruzei à entrada. Ela aparece do nada, a correr, chega ao pé de mim, espeta-me um chocho, e eu fico ali parado. Eunice, muito obrigado pela experiência traumática a que me submeteste. O meu irmão, por tua causa, gozou sempre comigo até há bem pouco tempo. Nunca mais te vi na vida; se te visse na rua não te reconhecia, mas deixa-me dizer-te que me senti tão usado que me apeteceu ir a correr para a casa de banho dos rapazes rapar o cabelo e riscar os pulsos com tinta de esferográfica.

Entretanto, e muitos beijos depois, tudo parecia estar a evoluir. Prova disso era o facto de eu andar a desencaminhar a pobre da R., tendo nós ambos 10 anos, nos sofás da sala de televisão da Messe de Oficiais de Santa Clara. Aquilo é que era luxúria... Lembro-me apenas de um beijo terno, dado numa altura em que fomos parar a uma parte que tinha sido pintada de fresco, e sujamos as mãos de branco. O que os vapores da tinta fazem às pessoas...

"Aos 12 já ele era um gigolo de sucesso", devem estar a pensar vocês. Nada disso. Preparem-se para um momento de pura cromice.

Aos 14 anos mudei de escola. Quando se está no 9º ano, numa turma indisciplinada, e se é o melhor aluno da turma, a vida é um inferno. Mas quando um grupo de raparigas do 7º ano começa a andar atrás de nós, toda uma noção de falhanço social, devido aos chutos e empurrões que sofria na cadeira, no meio das aulas (a uma média de 3 por minuto), ficou alterada. "Elas estão-me a querer. Finalmente, sou um ser humano como todos os outros."

As tais raparigas queriam impingir-me a mais chata do grupo (girinha e tal, mas com umas carências emocionais tremendas). Chegaram-me a encostar a um armário; daí até a girinha se atirar para cima de mim foi um passo. Mas eu não queria a girinha. Também não queria a girona. Queria a outra, que ficava a meio caminho, mas tinha uma personalidade bem menos assustadora e bem mais divertida.

Entretanto comecei a gostar dela, apesar de me andarem constantemente a impingir a girinha. Chegou a um ponto em que tive de dizer basta; gostava de outra rapariga e a girinha escusava de continuar o assédio, que daqui não ia levar nada. Mas aquele comportamento não parou; em vez das perguntas girarem em torno de "ainda não gostas da girinha? porque é que não gostas da girinha? anda lá com a girinha", passaram a focar-se em "quem é essa rapariga mistério de quem tu gostas afinal?".

"Eu nunca vou gostar da girinha porque eu gosto é de ti" - confessei eu à intermédia. Não é que eu não tivesse medo da rejeição (tinha e não era pouco), simplesmente já andava com a cabeça feita em água de tanta pergunta. Para meu espanto, ela iluminou-se que nem uma árvore de Natal, e foi logo contar à irmã que eu gostava dela (a irmã por sua vez, na altura, não era nem girinha, nem girona nem intermédia).

No dia seguinte (sexta-feira), ganhei coragem e fui falar com ela (ao lado da parede da papelaria, lembras-te?). A tarde estava quase no fim e toda a gente estava a sair. De repente saiu-me, pela primeira vez na vida, a frase "queres namorar comigo?".

C., queres namorar comigo? - perguntei eu, timidamente. O coração batia de forma tão forte e descompassada que juro que, por momentos, se tinha deslocado e tinha ido parar ao pé do fígado.

Ela ficou felicíssima. Juro que sim. Mesmo tratando-se de mim, ela ficou mesmo muito feliz, e dificilmente me esquecerei do sorriso dela. O passo seguinte seria, dado que ela estava, como já tinha dito, encostada à parede da papelaria, com um letreiro na testa a dizer "só não me tornas numa mulher já aqui porque ainda sou muito novinha e há muita gente a passar", espetar-lhe um tremendo dum beijaço.

Foi precisamente isso que eu fiz! Ah grande campeão! Não foi nada. Nem beijo, nem agarrar-lhe a mão, nem nada. Fiquei tão feliz por ela ter dito que queria namorar comigo, mas tão feliz, tão feliz, que o máximo que consegui fazer foi esboçar um "fixe! então tchau, até segunda!". Depois desatei a correr pelo corredor, assustadoramente excitado (excitado como uma criança, não como um adulto), e assim que encontrei o meu amigo Peixe, espetei-lhe a ele um tremendo de um hi5.

Fónix, a chavala diz-me que sim, e eu vou a correr dar uma estalada na mão do meu amigo. Que deficiente mental! Que processo de interrupção voluntária da gravidez falhado que eu sou! Que anormal!

Escusado será dizer que a nossa relação não foi longe, porque andava sempre muito fria, por culpa da minha timidez.

No fundo, não aprendi nada naquelas tardes deitado com a R. nos sofás da messe, enquanto os velhotes viam os concursos do canal 1...


PS: Mais tarde, passados uns 9 anos sem ver a C., voltei a encontrá-la por acaso, através do seu profile no Hi5. Ironia?

10 comentários:

Sahara disse...

Pedro,
não sei se já te disseram, mas começaste tarde LOL
O meu 1º beijo foi aos 2 anos ;)

Rui Caetano disse...

Essa história terá com certeza muitas metáforas por explicar, ou não?

NI disse...

Pedro, a leitura deste post apenas me merece um comentário:

ABSOLUTAMENTE DELICIOSO...

Pedro M. disse...

Sara: e ainda te lembras dele? Só valem beijos conscientes ;)

Rui: nenhuma metáfora por explicar, até mesmo o pormenor de nos sujarmos de tinta foi literal, juro. De resto, todos os paralelismos são autoexplicativos.

Ni, absolutamente delicioso é a minha totozice causar deleite a alguém, sem que parte dessa satisfação seja gozar comigo em público ;)

NI disse...

Pedro, uma coisa é certa, se fosse produtora dos gatos fedorentos contratava-te como autor residente dos textos.

angelodias disse...

Bom post...para quando a primeira "totozice" sexual?
Cumprimentos

O pensador disse...

Sim,concordo com o Angelo..
Isto de Beijos sem sexo faz-me quase parecer conversa Gay...
Quando é que vemos estalar as pipocas?

:-)

Pedro M. disse...

Ni, espero então que esse cargo te seja atribuído em breve, não tanto por uma questão de vassalagem aos senhores (talentosos), mas porque preciso de dinheiro para poder comprar o meu Range Rover :/

Quanto a uma possível totozice sexual... é chato ser-se tão bom na cama como eu, ao ponto de não haver conteúdo estritamente humorístico digno de menção :/

2 gajas super mega ri idiotas disse...

Adorei o post, até a minha colega ficou a olhar espantada pra mim porque já há três quinze dias que não dava uma gargalhada!

Bjs
Borboleta Azul

PrimaNocte disse...

Muito me ri! Fantastico!