terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Isto só prova que nem sempre conhecemos bem as pessoas.

Hoje estava a falar com uma pessoa amiga, estando essa mesma pessoa a queixar-se de que ultimamente as coisas lhe poderiam estar a correr melhor. "Podia ser pior, pessoa amiga" - disse eu - "a vida até nem te está a correr nada mal, se olharmos por um prisma mais racional". A importância de certos problemas, que às vezes nos parecem avassaladores, é frequentemente posta à prova quando as outras prioridades da vida se avizinham.

Quando uma pessoa está aflitinha para fazer xixi ou cocó (ou ambas, no caso do cocó, já que é impossível fazer-se cocó sem antes se fazer xixi; perguntem a quem percebe de anatomia e fisiologia do corpo humano), essa passa a ser a nossa prioridade, tornando os nossos problemas sociais mais prementes (o que acidentalmente acabou por se revelar uma piada engraçada, tendo em conta que uma bexiga cheinha de xixi é um problema bem mais premente do que aqueles existenciais a que me refiro; ide ver "premente" aos vossos dicionários da Língua Portuguesa) facilmente olvidáveis. Eu até posso estar preocupado por ter a renda em atraso e a vizinha da frente não me ligar nenhuma, mas se a vontade apertar o suficiente, não é nem a senhoria nem a vizinha que vêm cá ajudar a prevenir que eu me torne incontinente quando chegar a uma bonita idade sénior. Na hora de alcançar alívio, rapidamente nos esquecemos de que estes assuntos nos ocupam a cabeça. Direi mesmo mais: um operário fabril (poderia dar os mais variados exemplos) que tenha sido despedido, após 30 anos de casa, sem perspectivas de futura estabilidade financeira, quando precisa mesmo de ir à casa de banho, não pensa nos meses de salários em atraso nem por um segundo. Antes, sempre. Depois, certamente. Durante, não senhor.

Este assunto rapidamente nos levou para outros voos, não menos interessantes do que a premissa que iniciou a amena (ao princípio) discussão do dia de hoje.

Para já, façamos um resumo da situação:

1 - Estabeleceu-se que há certas prioridades impostas pela roleta da vida que se sobrepõem a qualquer necessidade extrínseca ao homem.

2 - Dada a importância destas prioridades, subvalorizadas na pirâmide que contém tudo o que há de mais importante na nossa existência, concluiu-se que, mesmo no caso das nossas vidas estarem pejadas de contrariedades derivadas das vicissitudes da nossa necessidade de integração na sociedade, outras prioridades implícitas e aparentemente adormecidas no organograma do dia-a-dia, tomam para si com firmeza os lugares cimeiros da nossa utilização do tempo disponível. Xixi ainda é como o outro, faz-se em qualquer lado (as meninas inclusivé, através de técnicas que eu não sonhava serem possíveis; amigas minhas já fizeram xixi em sítios onde eu, nem com a possibilidade de apontar a alguma distância, teria coragem de o fazer). Já o fazer o cocó, é dos actos mais depreciados pela sociedade, mas que mais precisa de planeamento e das condições adequadas para a sua realização, sendo os resultados bastante recompensadores, através de um exacerbado sentido de conquista e a certeza de uma tarefa bem executada. Já que é para cagar, que seja em "poltrona de ouro", se possível.

Prosseguindo, é compreensível que, tendo em conta que esta necessidade não escolhe estratos sociais, raça, sexo, ou altura do dia, nem sempre seja possível jogar este jogo no nosso estádio de eleição, a nossa casa (ou, para quem tem casas de banho muito fraquinhas ou muito porquitas, qualquer retrete de um hotel de luxo). Por vezes, a calendarização da expulsão de resíduos nos obriga a fazê-lo fora da nossa zona de conforto, sendo que, por vezes, a claque adversária nos dificulta enormemente a tarefa.

Eu conheço a minha sanita e as minhas competências físicas, bem como os meus hábitos alimentares. Os três factores combinados geram uma percentagem de 97,8% de ausência de salpicos na altura da entrada do objecto da acção aqui discutida na atmosfera da louça sanitária. Mas outras sanitas há que não garantem resultados tão animadores. Aprendi, portanto, e de forma autodidacta, a usar o método da caminha de papel higiénico, sendo que, por preocupações ambientais e até por uma questão de brio, desenvolvi uma técnica que me permite manter o dispêndio de papel a um mínimo histórico.

E não é que esta pessoa minha amiga, após o meu relato, começa a tecer comentários jocosos acerca da minha pessoa e da minha orientação sexual? Lá por eu por papel higiénico no fundo sou cromo ou homossexual? Ser-se metódico e asseado são requisitos directos para se gostar de indivíduos do mesmo sexo? No meu entender, não me parece o juízo mais acertado. Sou metódico, sim; os horrores passados no campo de batalha que é a casa de banho assim o exigem, mas aprecio bastante mulheres. O facto de não pensar nelas quando estou aflito não abre nenhum precedente para a homossexualidade, reforçando unicamente a importância que esta actividade apresenta, e tornando-a merecedora das mais altas honras.

Nunca pensei que esta pessoa amiga fosse tão descuidada nesta matéria. Ignorar a possibilidade do salpico é quase como que abdicar de todas as características que nos tornam diferentes dos animais irracionais. Se eu soubesse, nunca tinha feito amizade com uma pessoa que não se importa de estabelecer sinergias com a sua sanita. Eu não sou preconceituoso, mas isto é demais. Mesmo assim, e pondo em prática todo o meu altruísmo, em vez de renegar esta amizade, decidi tentar mostrar-lhe o caminho da redenção anal (isto soa extremamente mal, mas indivíduos inteligentes compreenderão o seu sentido sem esboçar qualquer tipo de segunda intenção mesquinha).

Espero ter consciencializado as pessoas para esta problemática. Não deixem, em altura alguma, que uma qualquer loiça sanitária vos domine. Digam NÃO ao contacto de água de sanita com os vossos rabos.

7 comentários:

sahara disse...

"Pensas que és um caso isolado/
Não és o único a pôr papel no fundo da sanita" (ler como se estivesses a cantar a música dos Resistência, ok?!)
Eu sei, eu sei, isto é demência... :P

NI disse...

Ok, Ok ....

Convenceste-me.

Bolas, não sabia que era necessário um tratado para explicar o processo de evacuar resíduos sólidos ...
:-))

Jasmim disse...

Bem, por esta história acho abusiva a interpretação feita pelas tuas amigas sobre a tua orientação sexual, não há nada como um rapazito asseado e cuidadoso (e um bocadito obsessivo, vá lá...). Mas se me disseres que dobras o pijaminha direitinho antes de "praticar o amori", o caso já muda de figura... :p

Poisoned Apple disse...

As meninas também fazem cócó e escrevem sobre o assunto! O melhor é ir ver em

http://amacadeeva.blogspot.com/2007/12/stress-no-wc.html

Ahahahahha! :)

Anónimo disse...

E assim se escreve em bom português...

Maria disse...

Está aqui o que se pode chamar uma conversa de merda lol, mas com muita piada. Muito me ri eu a ler o teu blog. Parabéns e beijocas

leitora[de leitoa] disse...

e digo: só porque era sua amiga, se fosse inimiga, então...