sábado, 1 de dezembro de 2007

Primeiro desabafo e escrevo o texto. Depois fico cinco minutos à procura de um título. Que se lixe. Vai este, que não envergonha ninguém.

A primeira coisa que fiz quando acordei foi mandar uma mensagem para um grande amigo meu.
Dizia assim na mensagem:

"Ó deficiente do caralho! Por tua causa, no domingo, vou ter de me levantar às 6 da manhã e levar o meu carro para o meio de Lisboa só para fazer a merda de um exame de inglês e às 10:30 estar pronto para voltar para cá. Vai apanhar no cu!"

Mas porque é que eu me fui meter no inglês? Eu não preciso de aprender a falar melhor inglês! Quanto muito preciso de aprender a falar pior inglês! Os ingleses nunca elogiam as capacidades linguísticas de alguém que fala espectacularmente bem. Eles só elogiam quem fala assim-assim e lá se vai safando, por uma questão de condescendência! É a história do "your english is definitely better than my portuguese". Ai que bem que fala inglês, o coitadinho do portuguesinho... Se eu fosse ao Reino Unido, com o meu vocabulário e pronuncia, tratar-me-iam como uma pessoa igual a eles, nem mais nem menos. Ora isso é mau, porque os ingleses são todos uma cambada de chatos, feios e gordos. Se fizermos uma estimativa média da gaja boa inglesa (não das espectaculares), aparece-nos à frente uma gaja loura de cabelo oleoso, com problemas de peso (ou a mais ou a menos), burra e bruta que nem um autocarro. Eu conheço as séries mais antigas do EastEnders, meus amigos, não vale a pena andar a disfarçar com as mais recentes.

Este meu amigo convenceu-me a ir para o inglês no ano passado, com o argumento de que não adiantava de nada termos boas competências linguísticas, se depois não constasse do nosso currículo um diploma que atestasse essas mesmas competências. Além disso, iamo-nos rir como o caraças no meio daquelas aulas, a gozar com toda a gente e a imitar sotaques de indianos, franceses e italianos a falar inglês (mas especialmente de indianos). A propósito: será que os indianos ainda não se aperceberam de que ficam ridículos a falar inglês, ridículos ao ponto de estereotipar um povo inteiro como uma cambada de atrasados mentais? Se ainda o fizessem apenas pelo conteúdo humorístico, ainda percebia. Mas não, esta gente acha que se safa a falar inglês, e que o devem continuar a fazer. Por acaso nas aulas de português para estrangeiros alguma vez se ensinou que o sotaque correcto era o madeirense ou o açoreano? Não! Porquê? Porque é demasiado ridículo! Só há uma forma correcta de falar! Não se escondam por trás do argumento da diversidade cultural! Acabem também com o mirandês! Nós andámos na Índia durante imenso tempo. Será que não aprenderam nada connosco?

Lá comecei a ir ao inglês, por pressão insistente do meu amigo, volto a frisar. Acham que ele alguma vez lá meteu os pés? Não! Nunca! O palhaço convence-me a fazer os testes de aferição, pago aquela porcaria, que não é assim tão barata, e nunca mais mete os pés naquela merda. Aliás, meter até meteu. Porquê? Inscreveu-se na iniciação ao Espanhol aos fins de semana! WHAT THE FUCK WAS THAT? "Ai não tenho tempo durante a semana, e o espanhol começa a ser bastante importante no currículo de um profissional". Ai sim? Profissional de quê? Da foda? Ele ainda hoje, passado um ano, só sabe dizer "Oh si cariño, se a ti te gusta a mi me encanta"! E também sabe dizer pila, foder, cú e passareca em espanhol. Mais nada! Porra!

Ao princípio até nem desgostei. Direi mesmo mais: houve dias em que o ponto alto foram as aulas de inglês. No entanto, este ano não, já estou a ficar farto. Tou mortinho por fazer os exames finais e sair dali. Adorava aprender a falar japonês (eu sei algumas coisinhas, e é bem mais fácil do que eu pensava, mas sem um bocadinho de disciplina, acabo sempre por me desleixar); abriu um curso de japonês aqui perto há pouco tempo e acho que o dinheiro ali seria mais bem empregue.

Supostamente, irei fazer o exame do CAE agora em Dezembro e depois o final, o CPE, em Julho. Depois de receber a folhinha com o local do exame, morada, e horários, percebi uma coisa. Gostava, muito sinceramente, que a pessoa que fez estes horários fosse empalada no poste de iluminação mesmo à frente do meu prédio. Acho que era capaz de tirar uma meia horinha para ir beber chá de lúcia-lima e comer scones à janela, enquanto via o porco (ou a porca, não podemos ser sexistas, como diz a minha actual professora de inglês) a estrebuchar, "sentadinho" no poste. É, no fundo, uma bela diversão para entretenimento familiar.

Tendo em conta que, se não estivermos no local do exame (e por estar no local, entenda-se sala, e não à volta do edifício à procura de lugar para estacionar) quinze minutos antes do seu início, já me tinha decidido a ir de transportes públicos. É raro ter de conduzir em Lisboa, sendo que por isso, se tiver de ir para sítios que de carro ainda não conheço bem ou têm demasiado trânsito, prefiro ir de expresso. É até mais barato. Neste caso, nem sequer a rápida sai a uma hora que me garanta que estou lá a tempo. Ainda se depois disso não tivesse de apanhar mais transportes... É que se chegar um bocadinho atrasado a uma parte do exame, já não me deixam fazer mais nenhuma e lá fico a arder em tempo e dinheiro. Isto não é um princípio da pontualidade britânica, é a total confirmação dos desafios psicossociais que pairam naquelas cabecinhas chatas. Sim, porque, tendo em conta que o exame tem 5 componentes, foram inteligentíssimos em marcar a parte oral para domingo de manhãzinha, e as outras quatro partes para outro dia, durante o dia todo.

"Aproveita o domingo e vai passear, vai às compras". Oh si cariño, é que é logo a seguir ao exame, saio e vou disparadinho. Não gosto de andar a ver coisas de que gosto e não ter dinheiro para as comprar. Prefiro fazer de conta que elas não existem. É assim que lá vou fazendo o orçamento render. Por outro lado, se não tivesse gasto dinheiro com o inglês, com o exame, em gasolina e portagens, talvez o pudesse fazer.

Sai cara, esta coisa de "adquirir conhecimentos e competências". Se eu fosse rico, no entanto, não precisava de diplomas para nada e, muito menos, de aprender. Que eu saiba não há nenhum curso de formação para pessoas que desejem saber como proceder numa praia paradisíaca, deitadinhos ao sol e com um cocktail de fruta na mão, ou num spa a receber uma massagem de uma eslava bem torneada, ou no concessionário da Porsche a escolher uma cor para o meu Carrera GT de fim de semana.

A maior parte das pessoas tira cursos porque é a única forma de lhes permitir exercer funções que lhes darão mais dinheiro, reconhecimento, ou poder, e não porque adora aprender. Em suma, aprender (coisas lixadas e académicas) é um acto de hipocrisia.


6 comentários:

Ana disse...

Esqueces-te daquelas que encaram as tais competências enfadonhas como algo que lhes permita realizar um trabalho que as preencha quase por completo. Também são um escalão, ora!

Se te serve de consolo... no meio da minha vida atribulada (sim, entre pós-graduação/especialização e trabalho, é evidente que eu *tinha* que voltar a ter aulas de alemão... Enfim, há mais gente tola como tu, mas no fim do dia o podermos olhar para nós e sabermos que não somos inúteis de todo faz valer tudo a pena.

solo disse...

eu cá gostei do teu amigo :)

porque não aprendes também espanhol, às tantas era-te mais útil do que pensas :P

bruno disse...

"A maior parte das pessoas tira cursos porque é a única forma de lhes permitir exercer funções que lhes darão mais dinheiro,..."

acho que era desnecessário transcrever esta frase do último parágrafo do texto, mas, gostaria de acrescentar ao seu texto, se me permite, que essa maioria também o faz por estupidez.
Hoje em dia, qualquer mecânico, ou electricista, ganha mais do que qualquer individuo licenciado, mestre ou doutorado.

venham de lá os cursos, que na hora de pagar ao mecânico, existe sempr eum problema com a cambota do alternador e do raio-que-o-parta-e-renhéu-nhéu-pardais-ao-ninho. POr mais créditos universitários que tenhamos somos todos umas belas bestas, ignorantes que não triscam um cisco das coisas mais simples, que interessantemente ninguém quer aprender.
em terra de cego...

Jasmim disse...

Oh si, cariño, isso é tudo muito bonito, mas quando há tempo para fazer esses cursos, que remédio senão metermo-nos em tudo o que é formação importantezinha para o CV... Pra semana jogo no Euromilhões, ai jogo jogo!

NI disse...

Oh Pedro mas afinal sabes falar inglês ou não sabes?

Quanto aos cursos, o Bruno tem toda a razão.

Pedro M. disse...

Bruno, eu faço parte, claramente, dessa maioria estúpida.

Há que concluir que, por mais falta que o dinheiro faça, o português é ainda mais viciado em títulos académicos; ninguém tem orgulho em dizer que é servente de pedreiro, ainda que, nalguns casos, ganhe o mesmo que um engenheiro civil, trabalhe menos horas e tenha menos responsabilidades.

Sei sim, Ni ;) Seja como for nunca consegui engatar nenhuma estrangeira, e presumo nunca o vir a fazer, tornando inúteis as minhas competências enquanto utilizador fluente da língua.