domingo, 20 de abril de 2008

Jantar do Ano

Há jantares que foram feitos para não correr bem, mesmo quando são de aniversário, nós não somos os aniversariantes, e há mais 30 pessoas na mesa a quem algo de mal pode correr... menos bem. Apesar de ter sido bastante divertido, só o foi porque eu perdi toda a noção da forma que uma correcta conduta social deve assumir. Está provado que uma educação reprimida, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser suplantada pela verdadeira natureza daquilo que um homem ainda é: um caçador/recolector.

O jantar de ontem teve lugar num restaurante lisboeta chamado Adega das Gravatas, lá para os lados de Carnide. Ora o restaurante tem esse nome precisamente pelo facto de ter um sem fim de gravatas penduradas por tudo quanto é sítio, incluíndo nas vigas do tecto. O conceito e tão revelador da existência de centelhas de genialidade, que não percebo como não inventaram ainda a "Taberna do Cuecão XL" ou a "Tasca do Soutien". Basicamente podia abrir-se um franchinsing por cada peça menor do vestuário, e teríamos um restaurante similar, sendo que eu passaria a desaconselhá-lo. Isto não pode ser só chegar a um bairro típico de Lisboa, abrir um restaurante com merdas penduradas na parede, e toca a encher o bolso de dinheiro. Quando o serviço é deprimente, não é um cinto de ligas pendurado num candeeiro que me vai fazer sentir melhor pela escolha. Vamos, portanto, levar as gravatas à falência, se faz favor.

Como já tinha dito, tratou-se de um jantar de aniversário, mais precisamente o jantar da minha amiga Salete (nome fictício propositadamente ridículo que passarei a utilizar, visto que a pessoa em questão nem a inicial do seu nome verdadeiro me deixou mencionar). Tirando o J, com quem fui e que ficou ao meu lado, o resto dos convidados nada tinha a ver comigo. Era malta um bocadinho mais velha, que vê telejornais, lê o Expresso e não diz asneiras.

É muito bom ter imensos amigos; a Salete tem-nos. Ainda assim, quando se tem demasiados amigos, corre-se o risco de que um ou outro acabe por ter ou fazer uma figura de inadaptado maior do que a minha, mesmo depois de toda a quantidade de disparates que fui dizendo ao longo do jantar para o J se rir. Pelo menos, já podia estar mais descansado relativamente à minha aparência e conduta. Para além disso, havia pessoas noutras mesas do restaurante que, devido ao seu aspecto de parvos, me faziam acreditar que eu, no fundo, até estou no caminho certo. Devo destacar o senhor de perna cruzada, refastelado na cadeira como se fosse um divã, envergando calças cor-de-salmão, com o aspecto típico de quem vai ser sodomizado por 10 pequeninos homens asiáticos, e o rapaz que deixou crescer as patilhas de forma anti-social. Aquilo eram setinhas de cabelo que apontavam para as bochechas. No entanto, estava acompanhado por uma gaja, que de costas até nem parecia ter mau aspecto. Fiquei com uma enorme vontade de me dirigir à mesa deles, olhar para a cara dela, ficando apenas satisfeito se ela tivesse cara de quem foi atropelada por uma retro-escavadora, unica razão pela qual se tinha de contentar com aquele indivíduo de aspecto labrego.

Tendo em conta que raramente bebo, e que não sou grande apreciador de sangria, pedi uma 7up. Isto já de si não é uma coisa muito viril, e agradeci a preocupação do empregado quando me perguntou baixinho "pode ser snappy?", ao que eu respondi que sim. Não sei porquê, mas nunca tive a garra suficiente para recusar a marca, quando no fundo até acaba por ser parecida à original. No entanto, passado uns minutos, já com toda a gente a beber sangria e afins, ouve-se uma voz alta a perguntar "QUEM É QUE PEDIU A SNAPPY?". Snappy é ainda mais maricas que 7 up. Vergonha.

Enquanto todas as pessoas estavam preocupadas em pedir comida de gente, eu pedi naco de novilho na pedra. Detesto ementas com dezenas de pratos, e em que cada um ocupa a linha inteira da folha de papel. Quando chega a minha vez de fazer o pedido, é raro conseguir-me ainda lembrar do que quero. Erro crasso, portanto. Não só o meu prato foi o último a chegar à mesa (e isto acontece-me SEMPRE em jantares com maior número de pessoas), como ainda tive de ser eu a cozinhá-lo. De repente ali tinha eu um bocado de boi bebé, tendo algumas dúvidas acerca do seu estado de saúde. Se me tivessem dito que aquilo ainda estava vivo, eu ainda lhe tinha feito umas festinhas.


O "prato" consistia numa pedra pequena a escaldar, com um bocado de carne de 3 metros de altura. A pequenina quantidade de calor que emanava daquela pedra nem uma orelha de porco conseguia grelhar, quanto mais um bocadão de novilho daqueles. A estratégia a empregar seria ir cortando pequenos filetes de carne, à medida que a mesma ia cozinhando. No entanto, é um bocado complicado tentar cortar carne que ainda mexe e faz "muuuu", com a consistência de uma bola gigante de borracha. Além disso, para todos os efeitos, passado pouco tempo já a pedra tinha arrefecido, restando-me apenas um naco de carne gigante com sangue coagulado ao lado. Isso e as caras de nojo das pessoas que estavam directamente à minha frente, sendo que esse mesmo nojo não só era dirigido ao cabrão do novilho como também a mim.

A certa altura lá tive de pedir ao empregado para fazer qualquer coisa em relação ao assunto. Eu estava cego de fome e já quase toda a gente tinha acabado de comer, olhando para mim com um olhar triunfante, como se fossem especiais e eu não. Ok, eu posso não ser especial, mas vocês também não são. Quanto ao empregado, estava mais preocupado em falar com as raparigas da mesa e a fazer caretas ao bebé de um casal do que em tratar do raio da minha carne. Após alguma insistência EDUCADA, lá me disse que ia trazer outra pedra.

OUTRA PEDRA? Se fosse igual à anterior íamos ter sarilho na mesma. É que podia ter pegado no naco, levado para a cozinha e bastava passar um bocado aquilo, mas não. O géniozinho delicado ia trazer-me outra pedra. Seja como for, ainda gostava que me explicassem quanto tempo é que demora a por outra pedra a ferver. Entretanto já se tinham passado 15 minutos e eu continuava com a carne ensanguentada em cima da mesa. O sacana do empregado, quando olhei para ele, tem a lata de me dar uma palmadinha nas costas e dizer que a pedra estava a aquecer. Devia estar, devia.

Passou-se mais um tempo e eu não só já não gozava com o sucedido e não ligava aos olhares de gozo que me eram dirigidos, como já tinha perdido qualquer tipo de compostura social que devesse ter permanecido, mesmo em situações como esta. Já estava bastante irritado, e ao ver o imbecil do empregado de novo a fazer caretas para o bebé e a rir-se com os convidados, sem arredar pé para trabalhar, passei-me completamente. O Pedro educado (quer dizer, com as piadas em voz alta que mandei para o J. durante o jantar todo, nem sei se o cheguei a ser nalgum momento) transfigurou-se.

- "ENTAO MAS AQUELE FILHA DA PUTA CONTINUA ALI A FAZER CARETAS? MAS AFINAL O QUE É QUE AQUELE FILHA DA PUTA TÁ CÁ A FAZER?"

Eu acho que se ouviu. Eu nem "merda" à frente de estranhos digo, quanto mais chamar nomes às mães dos senhores. Não podia ter descido mais baixo. Quando o empregado volta a passar por mim, a educação já se tinha ido toda e só me saiu um "então isso vem ou não?", seguido de um ar de esquecimento por parte dele e de um "ai peço imensa desculpa".

Se não fosse a fome que eu tinha, aquele cheiro enjoativo a carne teria dado conta de mim. Escusado será dizer que a única forma de conseguirem que eu volte àquela merda de restaurante será se eu for a pedra e a Soraia Chaves o naco de carne.


PS: Parabéns e obrigado, Salete, há muito tempo que não me ria tanto e de forma tão alarve. Aposto que outras pessoas ali da minha zona da mesa dirão o mesmo.

6 comentários:

O pensador disse...

A tua vida dava um filme...hehehe

:-)

solo disse...

tirando a parte do fdp, eu tinha feito um protesto mais veemente, talvez sem gritar, mas isso é porque a idade me reprimiu muito mais do que aparentemente a ti.

de resto, já comi uma vez uma coisa parecida com essa e adorei, 1º porque gosto da carne mal passada, e depois porque a minha pedra tinha um fogãozinho por baixo =)

Mónica Lice disse...

Pelo menos, foi divertido...;-)

Eu - a própria disse...

Hehe... ainda bem que aconteceu e que ficou registado. Brilhante o enredo e a interpretação do personagem principal. hehe... trágico-comédia brilhante. Por mim candidato-a já a um qualquer Oscar ou outro que tal... por favor continue a frequentar restaurantes e a nos surpreender com os convivíos entre amigos... Thanks

misskitsch disse...

Foi uma má experiência, com certeza. Sinto a tua dor e o fdp foi totalmente justificado!

Agora... não posso é permitir que manches o nome do bife na pedra. Foi pouca sorte tua, pois claro. mas o bifinho bébé de 3 kg, ligeiramente tostado na pedra e ainda com o coração a bater no meio... pff, é que não há melhor! Exige-se uma nova tentativa e um post a dignificar esse belo prato.

Tenho dito.

*sei que vou ser linchada pelos activistas dos direitos dos animais, mas bolas, gosto de comer coisas que tiveram mãe. que posso fazer?!*

Filipa disse...

O teu blog, é.......simplesmente EXCEPCIONAL!!!!!!!!!!!!!!!

Essa do boi bébé, matou-me!!!!
AMEI!
Kiss