sexta-feira, 27 de junho de 2008

Faço o que for preciso para ser feliz.

Há bocado senti muito medo. É que à medida que vou lendo mais, convivendo com pessoas cujo grau cultural é superior ao meu (parece impossível, não é?), e assimilando cada vez mais conhecimento sobre o mundo que me rodeia, tenho cada vez mais a sensação de que sou um inútil que não sabe nada, não tem importância alguma neste planeta, e cuja ausência não só não traria infelicidade para o mundo, como até poderia trazer alguma alegriazita residual a uns e outros.

Engraçado é o facto de que dantes, apenas por sentir aquele poder que advém da capacidade de articular mais do que 5 palavras de forma coerente de seguida, em frases que podem ter uma utilidade comprovada no decorrer da rotina diária, eu achava que era uma pessoa bastante acima da média. Eu olhava para a média lá bem do alto, e às vezes até cuspia cá para baixo, na esperança de acertar no toutiço de alguma dessa gentinha que compõe o grosso da população, e que em nada se destacam. Mas não, afinal aquele humidozinho que sinto na cabeça, não é aquele borriço, fruto do ameaçar da precipitação. Há mas é uma carrada de crominhos a cuspir cá para baixo, e eu sirvo de alvo como todos os outros.

Quando era criança, gostava de muitas coisas ao mesmo tempo, e preocupava-me apenas em saber ao ritmo do meu desejo. Era feliz assim. Agora, não só me vejo obrigado a restringir-me a um número reduzido de áreas (e das quais a maior parte apenas surgem por necessidade), como tenho uma melhor noção geral sobre as coisas. Percebo agora que é impossível dominarmos qualquer coisa na vida; a aprendizagem é um processo constante. E, se nós aprendemos constantemente (ou devíamos), outros ao nosso lado também o fazem, o que torna extremamente difícil sermos dos melhores naquilo que fazemos, já para não falar em tudo. Dou por mim a evoluir não por prazer, mas por despeito, porque o vizinho do lado agora até já sabe fazer certa coisa. E garanto-vos, o gebo do vizinho só sairá vitorioso no dia em que uma mulher portuguesa se atrever a ser presidente de algum partido (mas tem de ser um dos principais, senão torna-se fácil demais para o vizinho).

Não sei se sou só eu, mas sinto que, se não for dos melhores, então mais vale estar a borrifar-me para tudo, e assim ter justificação para ser dos piores. Ser competente, bonzinho, ou com alguma qualidade é que não chega. Pelo menos para mim não chega, e de repente (só mesmo agora) percebo que é mais fácil sermos roskovs do que os melhores, para além de sobrar imenso tempo para disfrutar da nossa mediocridadezinha.

Terei de tomar medidas; uma pessoa precisa de ter amor próprio para poder viver de cabeça erguida. Como já tinha dito, tinha voltado a ler bastante mais do que o normal, como fazia em miúdo, e ainda por cima livros a sério, com coisos e teorias, mas vou já parar de ler. Vou limitar-me ao jornal da região, porque há uma gaja muita estúpida (e não é só por ser preta, que eu conheço uns pretos muita porreiros a quem ela não sai de certezinha) que eu conheço de vista, e que de vez em quando envia para lá uns artigos de opinião do mais imbecil que pode existir, e a Pública ao Domingo, para saber o meu horóscopo e porque gosto da bonecada da Maitena, apesar de não ser uma gaja (mas este último ponto, já é prática comum).

Música? É um bem artístico essencial. Como tal, nunca mais na vida vou falhar um Rock In Rio, porque é lá que se encontra a fina nata de tudo o que se faz no mundo. A RFM, a Comercial e a Antena 3 passarão a ser as únicas sacerdotisas do meu terço de hora de ponta, a caminho do emprego deprimente que nunca quis mas que terei de ter, que até me paga a horas, e no qual terei oportunidade de me desleixar a maior parte do tempo, lendo mails super divertido ou lendo blogs como este.

Haute cuisine, jamais. Nada supera um bom bitoque, e o McDonald's não fica tão longe quanto isso. Por pouco ainda dava para ver da minha janela o logotipo gigantesco no topo do edifício onde se encontra, qual bat-sinal da alimentação moderna.

Filmes, só pornográficos, e dos anos 70, que a badalhoquice é intemporal. O que tem qualidade, não só não o perde com o tempo, como apura com o passar dos anos. Aquele quejinho de Serpa que mora no fundo da gaveta dos legumes que o diga. Pronto, e alguns desenhos animados também. Ver o He-Man a aviar nos cornos do Skeletor é sempre bué de baril.

Os amigos também vão ser reformulados. Vou ver se consigo arranjar o número de telefone daqueles meus colegas do 9º ano, que diziam que a partir do momento em que uma rapariga começava a ovular, tava mais que pronta para a acção e que, por isso, apesar de serem repetentes com 17 anos, não tinham problemas em galar as miúdas de 12 anos mais desenvolvidas da escola. Havia também outro que, ao fim da tarde, nunca podia fazer nada connosco porque, segundo ele, tinha de ir "cavar batatas com o mê avô". Depois ria-se ruidosamente.

No fundo, este medo pode resumir-se a uma simples frase que acabei de inventar e que acho genial, não pela frase em si, mas porque foi algo que eu inventei. - "Só sei que nada sei". Em latim ficaria "Cogito, ergo sum".

Em suma, prefiro pensar que sei de tudo e ser um labrego do caraças, do que tentar aceitar que nem que viva 7 vidas, conseguirei chegar ao patamar que ambiciono. Ao menos assim, ignorante, serei feliz.

4 comentários:

NickyBlue disse...

Ora assim é que é pensar... Estou para ver é se irá cumprir com isso tudo... Como disse um amigo, a carneirada é que é feliz...

O pensador disse...

Pedro, não te quero fazer sentir ainda mais inútil do que já te sentes mas o "Só sei que nada sei" já foi inventado à 2 milénios atrás por um filosofo/pensador grego chamado Sócrates...

Sorry...hehehe

:-)

An Ambush of Ghosts disse...

Olha, estava aqui a ver se me lembrava de uma frase qualquer de um filosofo a virar-se na tumba, para te alegrar na percepção fantástica do "Epah já aprendi uma coisa nova hoje, viste !"...mas não! Vou-te dizer mesmo é de minha justiça:
Pah, caga nessa merda! A mente é selectiva e ainda bem, selecciona que aprendemos todos os dias, exlusivamente o que nos dá prazer saber.
Ok, saber onde fica Aushwitz não dá prazer nenhum, mas... sabemos intimamente que é um assunto que nos interessa (exemplo meramente ilustrativo), e o que nos interessa, seja lá porque designios for, para nós indivuduos tem TODO o valor.
Homem Culto não é o que sabe muitas coisas.
Homem Culto é o que sabe o que fazer com as coisas que sabe.

Pedro M. disse...

Detesto admitir que aprendi com os outros (lolinho), ainda para mais uma merda tão básica como esta e que devia estar à frente dos olhos de todos. Mas pronto, tenho de dizer que fixei "Homem Culto não é o que sabe muitas coisas.
Homem Culto é o que sabe o que fazer com as coisas que sabe." Nunca tinha pensado nisso. Sou mesmo burro. Obrigado ;)