Podia sempre convidar um amigo para ir à praia, mas não me parece bem. Três gajos na praia ainda disfarça, sendo o ideal quatro, mas dois remete sempre para a gayzolice. As pessoas olham e comentam. A população portuguesa é mesmo preconceituosa! Se estivesse noutro país, já não teria problemas em ir com um amigo à praia. Quer dizer, se calhar até tinha. É que somos um povo de imigrantes, há portugueses em todo o lado e os boatos correm depressa.
Sendo assim, metade das vezes, resta-me ir sozinho. Este ano lá aprendi que o facto de estarmos sozinhos não é impedimento para fazermos as coisas de que gostamos. Se não levamos um amigo, levamos um livro para preencher a sua companhia. E um livro é um amigo, no fundo. Duas sandes, uma com fiambre e outra com marmelada, também ajudam à festa.
Apesar de não ter problema de ir sozinho para a praia, há certas coisas que acabo por não fazer. O banhinho não pode ser tão prolongado. É entrar e sair. Entrar ainda é bom porque há muita gente a olhar. Como não posso dar parte fraca, mergulho logo, por mais fria que a água esteja. Sair é que é pior, porque uma pessoa depois ambienta-se e gosta de chapinhar, mas não o vai fazer sozinha. A minha vontade era de atirar água para os filhos dos outros, principalmente aqueles com ar de xoninhas, mas arrisco-me a levar porrada. No entanto, o que me faz mais pena é a prática do croquete.
Uma pessoa que vá sozinha à praia, a menos que esteja deserta, não pode sair molhada da água e ir fazer croquetes para a beira-mar. Eu até podia disfarçar, e ir deitar-me um bocadinho de costas, fingindo que sou um daqueles cromos que está em pleno contacto com a natureza, mas cedo dá aquela vontadica de começar a rebolar pela areia fora até termos a pele mais áspera que um rissol de camarão. Já com mais pessoas, por mais barraca que se dê, a vergonha é sempre partilhada. Rimo-nos uns com os outros e não estamos minimamente preocupados com o que os outros pensam de nós. Esses preconceituosos.
PS: Sou oficialmente a única pessoa com menos de 65 anos a utilizar a expressão "época balnear". Qualquer dia apelido-me de veraneante.
