... que não cagava. Uma pessoa vai passar o Natal fora e parece que os intestinos fazem cerimónia. Admito que tenho fobia de casas de banho públicas e prefiro ganhar úlceras nos intestinos a ceder à tentação de usar uma, mas em casa do meu irmão o cenário é bem diferente e o meu rabo não devia ter tanta vergonha de fazer cocó.
4 dias sem expelir fezes, ainda por cima na quadra natalícia, repleta de excessos gastronómicos, é obra. No primeiro dia, já sabia que era normal isso acontecer. Sempre que vou para uma casa estranha (leia-se, que não a minha), tenho tendência a reter o que de pior o ser humano produz cá dentro durante uns tempos. No segundo dia, continuei a não estranhar nada. Aliás, eu continuava a comer do modo alarve que me caracteriza e a barriga não mostrava sinais de mau estar, pelo que continuei a apreciar o Natal na companhia da família como se nada fosse. Pensava sempre que "isto à próxima azevia vai lá concerteza". No entanto, é chegado o terceiro dia de permanência fora do berço e nada de cocó. Peidos, sim, o costume (sim, nã0 me venham cá dizer que vocês não mandam puns). Seja como for, flatular não é cagar. São graus de alívio totalmente diferentes.
Não pensem que este foi o meu caso mais grave. O meu record de prisão de ventre é de 6 dias, numa vez em que fui acampar, quando tinha uns 12 anos. Fala-se tanto em ir cagar à mata, e eu com tanta dela ali, e nem cagalhinho nem cagalhão. Nessa altura a história era outra; as condições eram muito precárias e eu, com tanta gente à volta a toda a hora, só me queria era poupar a uma situação constrangedora. Sabem como é, são sempre aquelas perguntas que todos os putos atados de 12 anos colocam quando se encontram numa situação complexa pela primeira vez: "onde está o papel?"; "alguém já limpou o rabo a ervas e sobreviveu?"; "no caso de haver papel, o que é que eu faço com ele depois de estar despachadinho?". Olhando para trás, tenho orgulho em afirmar que aguentei estoicamente.
Continuemos a história deste natal. Chegado ao quarto dia, e sabendo que tinha 380 quilómetros para fazer desde Faro até casa, surge aquele dilema. Será que deverei fazer um esforço sobre-humano agora, ou continuo como se nada fosse, já que, incrivelmente, continuo a sentir-me tão bem como se tivesse acabado de cagar há 10 minutos? Decidi fazer como se nada fosse. Se não há aqui nada a dizer que quer sair, então devo ter evoluído e consigo eliminar todas as impurezas através da transpiração e do xixi, ao contrário do ser humano comum.
Agora, digam-me é uma coisa: MAS COMO É QUE O MEU CU SABE QUE ESTÁ A CHEGAR A CASA? É que tanto na época do acampamento, como neste Natal, assim que ficava um troço de autoestrada mais perto de casa, lá começava ele a dar sinal de crescente desconforto. Após os primeiros 100 quilómetros, fiquei aliviado por saber que "ahh, afinal hoje vou conseguir esvaziar a tripa e voltar ao normal", após aquele primeiro tocar de campainha. Aos 190 pensei "desta vez não tenho medo de adormecer e estou fresquinho para fazer a viagem toda de seguida sem parar a meio, já que esta sensação suportável não me deixa desconcentrar da condução". Aos 360 dava graças por ter grande facilidade de controlar a mente com o poder da respiração. Isto foi escalando até um "ai que me borro todo" quando cheguei à porta do meu prédio.
Eu tenho a sensação que, tendo em conta esta ligação emocional tão bonita e forte entre o meu cu e a minha sanita, se nessa altura me metesse de novo no carro e me afastasse dali acima do limite de velocidade, que a vontade desapareceria gradualmente tal como apareceu. Mas pronto, a vida vive-se é andando para a frente e lá caguei tudo o que me ia na alma. A curiosidade era grande; com quatro dias de intestinos presos isto não pode ser merda, devo mas é ter dado à luz a qualquer coisa viva e pulsante. Ainda assim, a mão no autoclismo foi mais forte do que a mórbida vontade de olhar.
Caguei e andei.