segunda-feira, 18 de maio de 2009

Demasiado novo para morrer, demasiado velho para aprender

Domingo, 19 horas

Foi preciso sair com um amigo de bicicleta para começar a chover. A parte irónica foi o facto de ter parado de chover no preciso momento em que guardei a bicicleta na garagem.

Já que estávamos todos encharcados, decidimos continuar. Chuva de civil não molha engenheiros, certo? Felizmente, (e já vão perceber porquê), a população da minha cidade é constituída por uma grande cambada de caracóis, que só saem à rua quando faz solinho. Agora imaginem um domingo com uns aguaceiros. Fica tudo a ver televisão. O que vale é que é uma cidade de gente corajosa, e é um ver televisão sem dó nem piedade. O polegar desliza que é uma maravilha pelos botões do comando. É domingo mas não há cá apatia perante a vida.

Quando íamos numa das principais ruas pedonais, a minha roda de trás decide rabiar um bocadito. Homem de instintos que sou, toca a puxar o travão de trás com aquela força viril que me caracteriza. Ora a calçada portuguesa é muito bonita, mas ensopada de chuva é coisa para lubrificar mais que vaselina. Parecia uma cena de um acidente de uma prova de Superbikes. Eu não ia armado em campeão mas também não ia assim tão devagar. A roda começa a derrapar de lado, e eu cada vez a ver o chão mais de perto. Ao ver o tralho iminente, começa a vida a passar-me toda em flashback pelos olhos: as minhas refeições preferidas, os testes de matemática da primária, os primeiros beijos, os primeiros transformers que recebi (sim, a ordem até foi esta, em relação aos dois últimos items), algumas aulas mais chatas do curso, dar formação, as quecas que mandei (esta foi a parte mais rápida do flashback), e tudo aquilo que queria fazer da vida e não tinha conseguido até àquela altura (como prolongar a parte das quecas num futuro flashback).

Feito o primeiro contacto com o chão, ainda deslizei uns bons metros. Houvesse gente na rua, e pareceria um jogo de bowling. Quem sabe, com sorte, caisse uma gaja boa por cima de mim, que eu preciso é de peso. Depois, e mais uma vez mantenham em mente a tal imagem do acidente de mota, a bicicleta separa-se de mim e continua a deslizar. Mais um bocado e ia parar à passadeira. Primeiro deslizei de lado com os calções (ainda bem que eram calções como deve ser e não essas maricadas de licra que os ciclistas ditos "a sério" teimam em chamar de equipamento de ciclismo), senão tinha-me esfolado mais. O pior foi o braço, que bateu com mais força; ainda me doi um bocadinho o pulso. Felizmente foi o esquerdo e não o direito (sou destro). Pensando que não, em dias de maior stress, é coisa para dar jeito.

O meu amigo veio logo a seguir (mas as rodas da btt dele eram as únicas coisas a tocar no chão, como era suposto) e perguntou:


- Tás bem?

- Acho que sim.

- Espalhaste-te mas ao menos foi um espalho de Homem.


Só mesmo a condição masculina é que permite este tipo de camaradagem. Fosse uma mulher a partir um salto antes de sair da escada rolante e tropeçar com o imprevisto, e a amiga nunca diria "epá, mas foi de Mulher". Ria-se para dentro e pensava "oxalá não partas o outro, que assim das duas uma, ou te descalças ou andas desnivelada; qualquer uma delas é divertida". O vosso sindicato, às vezes, tem coisas muito caprinas.

Pelos vistos tinha dado jeito que a cabeça também tivesse batido no chão, porque mais à frente decido descer outra parte de calçada, não pela parte de rampa, mas pelas escadas, com nova travagem (esta intencional, apesar de quase mal calculada) no final da descida. Lá faz a Kona Fire um peão jeitoso, deixando o cavaleiro de pé, desta vez (eu bem avisei que ia partir a Kona toda quando a paguei, mas também não queria que fosse já assim). Mais uma vez ninguém viu, e o ego não saiu ferido.

Acho que tentei aquilo porque em breve era segunda-feira, lá vinha mais uma semana de trabalho, e não há muito de bom a esperar dela, tirando um jarro de sangria regado a tremoços e amendoins à sexta-feira à noite (que eu pretendo tentar instituir à quarta-feira, para ganhar aquele fôlego necessário para a quinta e a sexta; haja quorum).


PS: De repente, lembrei-me que no fim de semana passado descemos o castelo de Óbidos todo a uma velocidade bem mais considerável. Aquela porcaria é de calçada e seca já metia respeito. Se estivesse molhada, será que ia ter muita gente no meu funeral? Agora fiquei curioso. Ainda hei-de fingir uma cirrose para ver quem aparece.

7 comentários:

Eu Mesma! disse...

Ficas muito chateado se eu te disser que parti o coco a rir??????

:)

VCosta disse...

"Espalhaste-te mas ao menos foi um espalho de Homem." - a melhor expressão que podemos ouvir de um amigo!!! hehehe

Tenho que tirar a minha bicla da garagem também...

Suzy disse...

Ninguém pensa nas refeições preferidas qd está prestes a esbadalhocar-se, ainda q de uma maneira tão viril! Mas o pior, foi mesmo teres quilhado a kona toda, q deves ter pago bem por ela! Mas pronto, tens o pulso essencial bom e konas há aí aos pontapés!
As melhoras!
LOL desculpa, mas ainda n parei de rir

busycat disse...

Diz só para qual dos cemitérios e data provável para a cirrose que mesmo não sabendo quem és, eu prometo que apareço:)

Grande texto.
beijo
busycat

ManUel disse...

olha que as konas nao sao baratas!!!

Ja vi konas de 2000 euros :S partir uma kona pode sair caro. A não ser que sejas um bom mecânico :D

Anónimo disse...

«Deslizar de lado com calções...», não me parece espalho de homem...lamento!
Gostei do post :)
Andreia

m_I_a disse...

que moca!
Fingir uma cirrose? boa sorte, tira uma foto às tuas esclerótidas ictéricas fingidas e mostra por favor :D
fartei-me de rir!