domingo, 4 de outubro de 2009

George, the ocean called. They're running out of shrimp.

Estar acordado às oito da manhã de um domingo parece uma loucura, a menos que tenha havido uma conquista sexual no sábado à noite e eu não me consiga abster de a relatar. Já me deviam era conhecer melhor. Sou um cavalheiro, e não gosto de andar por aí a falar sobre as gajas que não como.

O que se passa é que o jantar de sábado ficará para sempre conhecido como o Grande Crash de Marisco de 2009. Se vos apetecer comer uma gambinha que seja, e depararem com preços de mercado demasiado inflaccionados, a culpa foi de 11,5 intrépidos amigos (um era uma criança).

Mariscada no restaurante dos pais de um amigo só pode significar duas coisas: paragem de digestão e flatulência, ambas esperadas, desejadas e provocadas. A primeira mariscada feita em nossa honra tinha sido tão boa que, para esta, metade de nós, se não decidiu jejuar para ter mais fome à noite, pouco faltou. Eu almocei cedo e pouco, sendo que quase conseguia não lanchar, ficando o plano estragado com o iogurte que tive de comer às seis da tarde, já com o avizinhar de uma quebra de tensão.

Quando apareceram as primeiras vieiras e gemi com a primeira colherada, sabia que estava prestes a viver um momento grandioso, tão grandioso que me dilatou o estômago ao ponto de tocar no diafragma, tornando o acto de respirar extremamente doloroso. Missão cumprida.

Desde camarão assim e assado, a sapateira, a ameijoa, os diferentes pratos iam desfilando à nossa frente, em tamanho e número, como se de diferentes fileiras de um pelotão de guerra se tratasse. Todos nós tentávamos guardar espaço para o melhor, o arroz de gambas no final, mas o cérebro há muito que estava apagado e os esforços eram direccionados no sentido de tentar aproveitar ao máximo cada um dos níveis. Saborear ao máximo, neste caso, era encher a boca ao máximo, até estalar o maxilar de tanto a abrir.

No campo dos refrescantes líquidos a coisa também estava bem encaminhada. As primeiras boémias não impediram que se provasse um vinhinho branco que entretanto apareceu na mesa (seguindo-se o despejar do vasilhame), e de copos cheios de sangria, a qual não nos lembrávamos de ser tão boa naquele estabelecimento, desde que fizemos uma das empregada entrar em depressão por ser obrigada a preparar dezenas de jarros numa só noite. "O Cáaaaatia, tenho seeeeede!"

O arroz de gambas chegou, e com ele chegaram-nos as lágrimas aos olhos. Eram lágrimas de felicidade a sair de um olho e de tristeza do outro. É que apesar do arroz ser tão bom que podia ser usado como atenuante num caso de homicídio, caso alegássemos que matámos para o comer, sabíamos que mais uma mariscada estava prestes a chegar ao fim. Tão cedo não voltarei a comer dois pratos de arroz de gambas melhores que aqueles, venha quem vier, seja em que parte do mundo for.

Pudim de ovos. Pudim de ovos. Pudim de ovos. Pudim de ovos. Pudim de ovos. Pudim de ovos. Caseirinho. Por momentos pensei que tinha entrado em coma de qualquer coisa, o meu coração tinha parado e eu estava a ter uma experiência de quase morte. Mas não, era "só" o pudim de ovos. E é aqui que a coisa nunca poderá ser descrita fielmente. Um dia disse aqui publicamente que já mandei fodas piores do que certas coisas que comi. Pois bem, neste caso, entre ser-me dada hipótese de comer daquele pudim e comer uma gaja, é melhor que a gaja seja incrivelmente boa e sabida. Vai ter de suar descomunalmente para conseguir chegar ao mesmo nível. O ideal seria intercalar uma fodinha e uma fatiazinha. Se calhar era melhor primeiro a fatia, para eu não me sentir tentado a apressar a parte da fodinha. Sinceramente, minha gente amiga deste blog que sempre trago no coração, aquele pudim é um dos mais fortes argumentos para legitimizar o facto da raça humana ainda estar viva e a destruir desta forma os recursos do planeta Terra. E olhem que sou uma pequena autoridade no que toca a pudins.

É impossível uma pessoa comer uma refeição destas e:

a) parar, tendo alcançado a satisfação.
b) abrandar o ritmo, pensando na fome no mundo.
c) ambas as alíneas anteriores.

Sim, a resposta certa é a C. Quanto à B, ao comer aquelas ameijoas grandinhas e tão bem temperadas, ensopando pãozinho no resto do molho, temos tendência para pensar "baaaaah, who gives a damn, munch munch munch munch". Já em relação a A, tal coisa é impossível. Enquanto sabe bem, queremos sempre comer mais e é impossível chegar a um climax e por ali ficar. Aquela sensação de "ainda comia mais uma garfada" passa sempre directamente para "não devia ter comido mais uma garfada". Aprendi que esta é uma das leis da física, e daí ser positivo que tenhamos ficado todos mal-dispostos a seguir. Abraçámos a possibilidade de que seria um crime não comer até rebentar, mesmo que isso significasse não voltar a querer ver comida durante umas três horas e marisco durante uns dois dias. Quem tenta apenas comer um bocadinho de cada coisa é um mariconço da pior espécie e não merece afincar as favolas em tal repasto.

Depois de 3 horas à mesa ainda fomos sair, mas o pessoal (gajas, gajos e criança) já estava demasiado fodido dos cornos para se aguentar em pé por muito mais tempo. A última coisa de que se falou, ainda assim, enquanto nos despedíamos, foi se combinávamos ou não um ajantarado em casa de outro dos amigos de ontem. Umas febras e chouriço e tal, nada de especial. Eu sei o que estão a pensar, mas mesmo que pareça incrível, nenhum de nós faz hidroginástica. Ou seja, em média, o grupo é magro.

Resta-me pedir desculpa, em nome de todos, pelo facto de mais algumas espécies estarem em vias de extinção. Aliás, desculpa o tanas.


PS: Como me esqueci de tirar uma foto, estava à procura de qualquer coisa parecida na net, apenas no intuito de tornar o post mais redondinho. Não consegui, porque está complicado olhar para comida. A menos que se trate de um iogurtinho.

3 comentários:

Miss Complicações disse...

Tens a noção que acabei de me "masturbar gastricamente", se bem que acabei por "morrer na praia"...Fiquei-me pela imaginação e pela frustração de estômago vazio.
Obrigadinha heim!!

PS. Julgar-me iam depravada se dissesse que adorei a frase “já mandei fodas piores do que certas coisas que comi”? humm Julguem à vontade… “a mim que me importa!”

de Marte disse...

Olha, e convidar a malta para o pudim? Hein??



(tinha de deixar aqui a menção à verificação de palavras. Pois, meu caro Pedro, para o meu comment seguir tenho de escrever "QUECO".
Até vou fazer print screen e por isto no meu blog!!)

Eu Mesma! disse...

até eu fiquei com água na boca com esse manjar...

:)