Os meus pais fazem hoje anos de casados. Não me perguntem em que período do Mesozóico é que casaram; só sei que foi há colhões de anos. Não sei se existe a boda de colhões, e até é capaz de nem ser a melhor designação para eles. É que ela vai desde o segundo ano de casamento até às bodas de prata (altura a partir da qual basicamente toda a gente se tá a cagar, aceitando o facto de não conseguirem arranjar ninguém 15 anos mais novo), sendo que eles já devem ir caminhando para as de ouro. Imaginem que eu era casado e ia a passear na rua com a minha adorada esposa. Se encontrássemos um amigo que eu não via há anos e ele me perguntasse há quanto tempo estavamos casados, eu não quereria responder "há demasiados, meu caro amigo" ou "deixei de contar quando deixámos de pinar". Ia ofender os sentimentos da gaja, e a vida conjugal na próxima semana tornar-se-ia um inferno maior do que o normal, pelo menos até a levar a um restaurante de 50 euros por pessoa (no mínimo) e um filme panilas qualquer a seguir. Portanto, colhões é uma expressão bem menos fracturante, aumentando as probabilidades de manutenção do bem estar no lar, no caso de sermos submetidos a questões dessa índole.
Voltando ao que interessa, esta coisa dos meus pais só comprova a lentidão da justiça portuguesa. Gago Coutinho e Sacadura Cabral ainda não tinham acabado de encher os depósitos naquele dia em que lhes apeteceu ir ao Brasil comer picanha (finórios), e aqueles dois já estavam casados. No entanto, não houve nenhum juiz capaz de lhes atribuir a condicional, nem mesmo após tantos anos de bom comportamento. Os gays é que tinham tudo e quiseram voar demasiado perto do sol. Agora que a sociedade começa a ser menos preconceituosa com eles, decidem que também querem casar, acabando por dar um tiro no pé. A impossibilidade de casar era a última desculpa para fugirem a uma castrante e prolongada relação monogâmica (aparentemente, pelo menos). Há uns tempos, a Raquel diria à Josefina que a amava, conseguindo levá-la para a cama repetidas vezes até se fartar. Nada mais era preciso. "Que pena termos dois pipis". Agora, se quiser manter a frequência semanal de roçanso, vai-se ver obrigada pela púdica da Josefina a dar o nó (que é claramente um nó, mas no pescoço). Quando se fartar dela e quiser ir afagar o jardim a outras moças, o sociedade será duplamente dura com ela. "Raisparta as sapatonas. Queriam tanto casar e agora é esta pouca vergonha. O meu único consolo é que Deus é infinitamente justo e castiga."
Os meus pais, para comemorar a data, foram a Fátima, como sempre fazem. Não sei se é por serem pessoas religiosas ou se os moteís de lá figuram entre os melhores do país. Eu, no caso deles, nunca conseguiria comemorar. Seria mais desanuviar, sendo que, para esse efeito, também iria à Fátima, desde que o nome da minha mulher fosse outro qualquer.
De resto, como não posso fazer mais do que isso neste dia, comprei um presente. Não é para eles, é para mim. A única diferença face à da imagem (sou demasiado preguiçoso para ir tirar uma foto à t-shirt a sério e passar para o computador) é que escolhi bonecos pretos sobre fundo branco, para dar um ar mais casto.
