domingo, 21 de março de 2010

Nunca digas "nunca digas nunca".

Ao contrário do que se passou com a bíblia, para um acontecimento ser relatado com exactidão, convém que o processo seja levado a cabo por testemunhas fidedignas (ou seja, eu, por exemplo) e, de preferência, tendo todos os pormenores referentes ao desenrolar da coisa ainda bem frescos na memória. Caso contrário, trata-se apenas de historietas e não de História.

Antes de contar a minha versão dos factos, ou seja, a verdade absoluta, é importante deixar um reparo, que poderá ser útil para demasiadas pessoas, infelizmente. Se vão estar vestidos à filhos de uma relação entre um beto e um intelectual, enquanto bebem um copo de vinho tinto, ao menos aprendam a agarrar o copo pelo pé. Já agora, peçam um copo que seja mesmo para esse tipo de vinho. Eu nem gosto de vinho, mas acho que se as pessoas querem mostrar que gostam de esconder coisas no rabo, ao menos que o façam como deve ser. De resto, não percebo de onde vem esta nova moda de beber vinho tinto enquanto se usam óculos de massa e barba mal aparada. Digam-me só é se isso ajuda realmente a sacar gajas, e aí pode ser que eu vos mostre como é que se faz para se parecer ridículo.

Em relação à noite de sábado (ou madrugada de domingo, se quiser ser um pouco mais preciso), tenho demasiadas palavras para a descrever, e todas elas más. Para já, a expressão "nunca digas nunca" é daquelas, a par de "carpe diem", que só é dita por pessoas que começaram a desenvolver o seu pensamento filosófico depois dos 26. Digam nunca, foda-se. Se sabem que se vão meter numa coisa merdosa, não vale a pena dar o benefício da dúvida a quem vos tenta convencer. Pressão social is a bitch.

Mas pronto. Depois das jolas lá fui empurrado, a contragosto, para uma discoteca reputada na região (sendo que a reputação ainda agrava mais a minha apreciação da juventude portuguesa), sob o pretexto de que hoje ia ser divertido, ia ser noite de rock, íamos estar todos juntos, e que seria épico. Ora, se eu não punha lá os pés desde os tempos da faculdade, por alguma razão era. Note to self: aprender a dizer não e nunca. Sempre disse que nunca mais lá voltaria e violei o meu princípio.

O aspecto positivo de se ir a uma discoteca é o seguinte: pode-se arrotar alarvemente e nunca ninguém saberá quem foi o autor de tamanha obra de arte. O aspecto negativo é pedir martini e darem-me apenas um copo alto, embora devesse estar subentendido que qualquer pessoa, eu incluído, precisa de uma garrafa inteira para ter condições de sentir empatia por qualquer ser vivo que entre de livre e espontânea vontade num espaço daqueles. Seja como for, por aquele preço preço, deveria ser obrigatório, no mínimo, que as gajas a quem pagam para verter as garrafas (rocket science) esfregassem as mamas no copo antes de eu o levar à boca.

Quanto à noite de rock propriamente dita, deixem-me só rebolar no chão a rir e já tento acabar o post. Os DJs estão para os músicos como os ciganos estão para as etnias. Na eventualidade de ser necessário eliminar alguém dentro de uma das categorias, seria sempre por eles que se começaria a fazer o trabalho de recuperação da classe. Só não tenho medo de sofrer represálias ao pintalgar a minha veia humorística com este tipo de frases porque sei que tanto uns como outros são indivíduos que não são muito dados à leitura. Mas também, como é que se pode gostar de ler, se nunca se aprendeu?

Um DJ não tem legitimidade para passar rock, quanto mais uma meia dúzia deles. Se querem fazer uma noite rock, arranjem uma banda de jeito, com instrumentos a sério, e que saibam o que estão a fazer. Não percebo como é que uma multidão de gente pode fazer aquele sinalzinho de reverência aos DJs, similar à continência entre oficiais das SS, quando não está ninguém a tocar coisíssima nenhuma. Minto, a voz é um instrumento, e gritar ao microfone "Como é que é, pessoal?!" é, de certa forma, um exercício vocal.

Eventualmente, se a intenção for fazer uma noite com música um bocadito mais pesada, ao contrário do habitual numa discoteca, não vamos querer passar The Cure e o "Boys Don't Cry". Seria um tema incontornável se tivéssemos entre 20 e 30 anos, óculos de massa e um copo de vinho tinto na mão, isso sim. Ainda por cima parece que são preciso quatro gajos em cima do palco para carregar no botão de play e baixar os faders durante os refrões para ver se a multidão os canta entusiasticamente. Ainda assim, se querem reacção do público, o melhor é mesmo deixarmo-nos por uma setlist similar, já que o pessoal que vai a estas festas apenas conhece as músicas que continuam a passar na rádio e a vencer por repetição já desde há vários anos. Se passarem a "Here comes your man", o povinho todo irá achar que a noite estará a ser óptima, ainda que não conheçam nem os Pixies nem mais nenhuma das outras músicas deles. Ah, e continua a não ter lugar numa noite dita de rock a sério.

Há pouco utilizei a palavra povinho com o significado de percentagem iletrada da população de um país. Portanto, e como a noite também tinha prometido ser eclética, se abanar a cabeça ao som de "Nookie" dos Limp Bizkit não é um dos possíveis sinónimos de povinho, então não sei o que será. Para além disso, volume exagerado e música pesada não são necessariamente a mesma coisa. Mas lá está, aquilo é gente que o único instrumento que tocou na vida foi a gaita que mora entre os seus membros inferiores, portanto não se espera que saibam fazer a distinção. Quem está mal muda-se, e então lá fui pôr os ouvidos de molho para a outra pista, que ao menos com aquelas batidas repetitivas e gajas com bons cus e mamas a dançar em cima do balcão a minha indignação será totalmente diferente. Ao menos havia sofás. Pelo caminho encontrei uma amiga minha. Cumprimentámo-nos, ela disse qualquer coisa, eu não percebi e disse-lhe apenas ao ouvido "não percebi nada do que disseste, mas tá-se bem que eu vou lá fora". Tenho muito jeito para fingir que estou a perceber o que as pessoas me estão a dizer, ao mesmo tempo que digo o tipo de perguntas retóricas que se conseguem encaixar em qualquer tipo de conversação sem parecerem deslocadas. Durante a semana de trabalho lido com pessoas de outras nacionalidades que não a portuguesa, mas no fim de semana não me apetece muito ser actor, que dá trabalho, e isto era um momento de lazer.

Nos sofás estavam pessoas com semblantes tão interessados como o meu, o que contribuiu para que me sentisse como peixe dentro de um aquário minúsculo. Porém, apesar de eu gostar tanto de batidas repetitivas como o meu cão (já agora perguntem-me se tenho cão), a partir do momento em que começam a passar Ivete Sangalo (ou seria Daniela Mercury? é que há tanta cantora brasileira bimba que um gajo perde-se) os meus sentimentos começam a ficar um pouco confusos. Fico ali ou vou assistir a gajos que não fazem puta de ideia do que é rock fingirem que são sujeitos fixes só porque têm uma orelha enfiada nos phones?

Enfim, lá fui mudar de poiso. Para todos os efeitos, a gaja gira que eu estava a galar tinha semelhanças com o meu pai, no que diz respeito à altura em que a cintura das calças assenta no corpo. Sim, davam-lhe quase vergonhosamente pelas axilas. Deal breaker.

Que fique notado que passar Rage Against The Machine, e ainda para mais aquela música, é desonestidade intelectual. É claro que ao passar apenas músicas que toda a gente, mesmo que não queira, conhece, alguma há-de ser melhorzita e coadunar-se com os parâmetros de peso e ecletismo anunciados. Engraçado é, também, ver uma multidão a cantar a frase "Fuck you, I won't do what you tell me", como se sentissem que representam a juventude inconformista deste país. A música até pode ter sido feita nesse sentido, mas umas centenas de ovelhas enfiadas num sítio daquele género não passam a ter sentido crítico só porque sabem uma parte estratégica da música (e como se o resto fosse complicado de decorar).

Choraminguices à parte, acho que, para sermos pessoas mais completas, temos também de saber apreciar o lado positivo das coisas. Esta noite também o teve. Foi aquela parte em que finalmente conseguimos pagar, sair cá para fora, respirar ar puro e ver a transição que antecede os primeiros clarões da manhã. A julgar pela cara das pessoas, não era eu o único aflito para sair dali. Simplesmente, grande parte deles voltará para a semana e eu não, pelo menos enquanto me lembrar do verdadeiro sentido da palavra nunca.

PS: 4 mamas (pelo menos que conseguisse identificar como deve ser, já que dentro de uma lata, eventualmente, acabaremos por nos roçar em muita coisa).

14 comentários:

A. disse...

Já agora, tens cão? :P
Olha, melhores noites virão!

S.A., LDA disse...

Uma boa alternativa à palavra "nunca" é desafiares os teus compinchas a dançarem Moonwalk... Vais ver como te safas à fatídica discoteca na perfeição! ;)

Eu Mesma! disse...

bem...
ver o nascer do sol depois de uma noite dessas... e sempre algo a assinalar :)

busycat disse...

Ah também estavas lá? E também andaste de sala em sala só para não lixares totalmente os ouvidos! Ainda assim conseguiste sair, menos mal, que eu já estava a ver a vidinha a andar para trás... E o tempo até que estava fixe, não te queixes. Espero que o pequeno almoço tenha sido bom. O meu foi.

beijo

Rita disse...

Bem, é igualmente deprimente seres arrastado para uma discoteca em que ficas rodeado de miúdas de 15 anos mega maquilhadas e com as mamas a aparecerem logo abaixo do queixo a abanarem-se freneticamente...

Como eu adoro discotecas -.-...

Miss quero-paz-no-mundo-e-tal disse...

Gosto, gosto muito deste post! Mas como nao vou a uma discoteca ha colhones (ha falta delas por estes lados): achas que todas as discotecas sao assim? ou era so essa? Entao e nao gostas daquela parte em que quando a musica da Shakia comeca a soar as raparigas todas se levantam excitadas puxam o cai-cai e dizem em unissono: ai adoro esta musica, bora miudas?

Eu pensava que discotecas eram o sitio para onde iamos quando nao queriamos estar com pseudo-intelectuais e nos queriamos dedicar exclusivamente a mamas, rabos e coisas afins (incluindo dancar)!! E tambem pensava que fazias parte dos ultimos e nao dos primeiros!! Esclarece-me

Vera disse...

Quase que poderia escrever um comentário de jeito, mas o post é tão grande que não me apeteceu ler tudo.

Anónimo disse...

Até estava a gostar do blog.... até ver a parte "o que eu estou a ouvir". David Fonseca? Mas que coisa mais panasca!
E essas discotecas a que vais são onde? Na bobadela? No cacém?

C.

S.A., LDA disse...

Não querendo abusar, mas já abusando, gostaria apenas de fazer uma observação em relação ao comentário anterior do C.... Não que eu conheça este "ser humano relativamente alto, relativamente magro e relativamente inteligente com pensamentos totalmente idiotas" (porque não conheço), mas desde que visualizei no youtube duas personagens do sexo masculino a delirarem histericamente ao som dos Idolomania, a minha definição de panasca mudou totalmente de figura! E eu que só andava à procura da queda da Diana e da Catarina tive que levar com aquele atentado à humanidade...

Posto isto, parece que David Fonseca até é coisa de macho!!! Heheh

Anónimo disse...

S.A., LDA, a tua definição de panasca não devia ter mudado de figura... apenas devias ter acrescentado ao grupo esses espécimes que vibram ao som da idolomania.
Pedro M., vê lá se começas a ouvir música de jeito. Se quiseres até te ajudo.

C., de Catarina

Sam Martins Pinheiro disse...

Isto está ao rubro, Pedro M. Só não te convido a ver os grupos (com instrumentos a sério) porque depois acusavas-me aqui de piroseira :P

S* disse...

Noite memorável...

Pedro M. disse...

E eu que pensava que um paneleiro era um gajo que gostava de apanhar no cu. Não sabia que gostar de David Fonseca se enquadrava no perfil rabilú.

Catarina: pareces fascinante. Era capaz de jurar que nunca na vida ia ver uma mulher conseguir ajudar-me com os meus gostos musicais. Pensava mesmo que só serviam para nos comprar packs de meias e boxers no Continente.

Anónimo disse...

Gostar de David Fonseca faz-te logo virar de costas e baixar as calcinhas.
E Pedro, parece-me que o teu conhecimento de mulheres se cinge à tua empregada doméstica, não?

Catarina