Admiro bastante as pessoas disciplinadas. Fala-se demasiado em talento mas, no final do dia, quem atinge os seus objectivos é quase sempre aquele que se consegue manter focado durante mais tempo. Nada substitui o esforço e a dedicação.
Lembro-me de estar na primária e fazer os trabalhos de casa assim que chegava da escola. Nem sequer almoçava primeiro. Não tinha grande método. Ajoelhava-me no chão com os cadernos e a caligrafia acabava por sofrer. No entanto, a repetição do ritual levava sempre a zero erros, contas certas e caminhos de ferro todos decorados. Tinha poucos amigos, portanto.
A minha mãe, lá para a terceira ou quarta classe, lembrou-se de me perguntar porque é que eu não almoçava e brincava um bocadinho antes de fazer os deveres. Eu não ligava, mas como a pergunta persistia, lá comecei a fazer os trabalhos de casa cada vez mais tarde, ao ponto de ser hora de ir para a ginástica e ainda ter as folhas todas em branco.
O problema foi abrir um precedente. Eu nem me incomodava em despachar logo aquela porcaria, ainda que os deveres em si tivessem maior utilidade para a porção de alunos de raciocínio limitado da escola do que para mim e para os meus dois amigos inteligentes (numa turma de quase trinta, procedam à medição da popularidade). Seja como for, não devia ter parado para jogar meia hora de Space Invaders antes de escrever a composição sobre os mamíferos. Serei sempre daquelas pessoas que ou faz tudo de forma nazi, ou então, ao dar um bocadinho de espaço para outras coisas, deixa ir tudo por água abaixo.
Isto remete-nos para a noite de ontem. Estava a jogar um jogo qualquer no portátil e deu-me uma súbita mas não incontrolável vontade de cagar. Apesar da sensação causada ser tolerável, adjectivação motivada pelo prazer proporcionado pelo jogo, aquele cagalhão castanho estava mesmo a avisar que ia ser complicado de ser expulso pelo serviço de estrangeiros e fronteiras. Assim que me sentasse na retrete, iria passar lá umas férias agradáveis.
A bateria estava cheia. O rato nem sequer era preciso. Olhei para o portátil. Olhei para a casa de banho.
- Mas que mal é que faz? Logo agora que o jogo estava tão agradável... Levo o computador só um bocadinho e até o posso pousar em cima do cesto da roupa. Faço cocó, jogo mais um bocadinho e vou-me embora. É só desta vez! Tu até vais trocar de pc em breve! Fazes e puxas logo o autoclismo!
De repente aparece um clarão e começo a ouvir uma voz. Era tal e qual a aparição de Nossa Senhora de Fátima aos pastorinhos, com a única diferença de que a minha era real. Não era uma gaja vestida de branco, era eu só que com ar jeitoso e uma auréola na cabeça.
- Não podes! É errado! Não tens um pressentimento de que estás a arruinar a tua vida? Lembras-te de quando começaste a levar revistas para o cagatório? Andaste meses para conseguir perder esse vício! Mais tarde, de cada vez que pegavas na Visão, começavas logo a sentir os movimentos peristálticos, mesmo que tivesses acabado de cagar há dez minutos. Ah, e já agora tenho três segredos para ti. Dois deles revelo-te agora; o terceiro digo-te da próxima vez que conseguires comer uma gaja à canzana estando ela sóbria. Pronto... Se estiver quase a entrar em coma alcóolico também conta. Força, miúdo!
Nunca fui um gajo muito religioso, mas aqueles ensinamentos, para variar, faziam perfeito sentido. Por mais que eu dissesse que era só daquela vez, no fundo sabia que dali até começar a tratar da burocracia do trabalho sentado na sanita, ia um passo assustadoramente pequeno. Se a primeira fantasia de qualquer homem é fazer amor com duas mulheres ao mesmo tempo (e por fazer amor, entenda-se partir-lhes a bilha em cacos mil), a segunda é tratar a casa de banho como se fosse um escritório em miniatura.
Lembro-me agora que, já há uns anos, numa altura em que me decidi tirar o telemóvel do bolso para brincar um bocadinho enquanto o cocó se decidia a meter a cabeça de fora, a repercussão não foi das melhores. Passei a sair de lá quase sempre com menos dois traços. Agora aprendi a lição. Disse sim a evacuar e não à computação.