quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dupla falta

Hoje, de manhã, fui jogar ténis com o meu amigo A. Como só tinha bolas velhas no saco e já não tínhamos muito tempo, decidi entrar numa loja do chinês e comprar uma lata de bolas para desenrascar.

A minha reacção ao entrar na loja foi a mesma de sempre. Foi a quarta vez que entrei num estabelecimento destes na vida e ainda não é desta que consigo fazer outra cara que não a de vergonha. Acho até que deveria constar da Declaração dos Direitos da Criança que todos os pais estão proibidos de trazer os seus filhos para este tipo de superfície comercial, em função de possíveis traumas causados. As pessoas gostam de começar as casas pelo telhado. Insurgem-se contra a antiga prática de levar os filhos homens às putas para perder a virgindade, mas depois quando se trata deste exemplo, já ninguém se lembra de que está a privar as criancinhas de uma educação sã.

Lá encontrámos a secção desportiva com as bolas de ténis, no meio das secções de flores artificiais decorativas e da dos clísteres. Um dia ainda vou perceber o sentido de organização dos chineses. Uma lata de 3 bolas custou dois euros e meio. Uma coisa de luxo, portanto, tendo em conta os preços médios dos restantes artigos.

Quando chegámos ao campo, reparámos que as bolas não saltavam. Ora uma bola de ténis que não salta é como uma picha que não fode. Eu largava as bolas, elas ressaltavam uma vez (atingiam uns 20 centímetros no máximo), e voltavam a cair no chão, inanimadas. Eu tenho aqui acumuladas bolas com anos que saltam o triplo ou quádruplo daqueles novas. Felizmente tínhamos outras, senão não tínhamos jogado.

Fiz o filme todo durante o jogo. Chegava à loja para devolver as bolas, a empregada atendia-me com a simpatia de há bocado (ou seja, nenhuma; acho até que, sem contar com crianças, nunca vi chineses rir), arranjava desculpas para não me dar o dinheiro, e eu pedia logo o livro de reclamações. Ainda por cima havia lá mais uma data de embalagens com bolas, não seladas, e sem gás nenhum. Queria impedir que voltassem a fazer dos tenistas uns pacóvios.

Depois de acabarmos de jogar voltámos a loja. Pus as bolas e o recibo em cima do balcão e disse com voz séria que as bolas não estavam em condições para jogar, já preparado para a porrada verbal, se fosse preciso. Ela olha para mim, pergunta retoricamente (e monocordicamente) se não estavam boas e põe-me as moedas à frente (mais sujas do que aquelas que eu entreguei, se calhar nem são verdadeiras) de forma indiferente (um dos requisitos para se ser empregada de balcão chinesa é estar preparada para uma taxa de reclamações na ordem do 70%) e murmura uma frase qualquer para a colega.

Pensava ela que eu não percebia chinês! Percebo e percebo bem, minha vaca do caralho. O que tu disseste para a outra rapariga foi "olha-me para este atrasado mental todo suado, não tinha bolas para jogar, e agora que já acabou vem cá entregar", seguido de um "xin choy" que quer dizer "filho da puta" (se não é, passa a ser).

E pronto, como é hábito, fui eu que fiquei mal visto. A comunidade chinesa acha que sou caloteiro, e a comunidade portuguesa que me viu entrar DUAS vezes dentro da loja no espaço de UMA hora acha que eu não tenho dinheiro nem para pagar uma embalagem de Sugus.

E depois admira-se uma amiga minha que eu, durante a discussão de um episódio de Flash Forward, tenha ficado incomodado quando ela chamou chinesa à Keiko em três ocasiões diferentes. A Keiko é japonesa, caralho. Não tem nada a ver, tirando os olhos em bico. Quem não sabe distinguir um chinês de um japonês é etnicamente daltónico.

5 comentários:

Teresa disse...

Fantástico!! Nunca me passaria pela cabeça ir devolver um produto aos chineses! lol! ADOREI!

Cláudia disse...

Eu não entro sozinha nas lojas dos chineses...
Olha se os gajos me apanham um rim?

Corajoso...
Se fosse a ti nunca mais lá entrava!

luciana teixeira disse...

me mata de tanto rir!

e eu sou esta daltônica. para mim, chineses, coreanos, japoneses e o caralho são todos iguais. a dieferença é que os chineses são mais pobres, mas não lhes peço para ver a carteira, então...

Dora disse...

OS clisteres dão sempre jeito. Nunca se sabe se não há uma Gathering Party ao virar da esquina.

Anónimo disse...

Devolver um produto de 2,5 euros e ainda por cima aos chineses é de coragem!!