Quando vou trabalhar até pareço uma pessoa normal. Visto-me um bocadinho (mas só mesmo um bocadinho) melhor e ando de pastinha na mão, o que me confere alguma credibilidade (ou pelo menos, é o que gosto eu de pensar). Presumo que isso possa ter potenciado a reacção que passarei a relatar.
Ultimamente, tenho ido dar formação em Sintra, num local onde a concentração de turistas costuma ser um bocadinho superior à média nacional. Quem é que eu vi na sexta-feira a caminhar na minha direcção (simplesmente porque não havia outra saída) quando vou a chegar, com a minha habitual pose altiva? O Joaquim de Almeida.
Acontece que atrás dele estava uma formanda minha à espera. Eu saco do meu sorriso simpático (cara normalmente séria e antipática exige toda uma preparação de segundos para que isso aconteça), e com voz de António Sala (mas em versão mais viril, sem bigode) lanço o cumprimento "Boa taaaarde, Carlota!".
Admito que deixei escapar uma pausa exagerada entre o "tarde" e o "Carlota". Foi o suficiente para que o Joaquim de Almeida me dissesse boa tarde, com aquela voz característica de vilão rouco, abreviando o tarde e baixando a cabeça quando percebeu que, para variar, ninguém lhe estava a ligar nenhuma. Notou-se ali algo de constrangedor na reacção dele. Portanto, quando quiserem trocar as voltas a alguém mais conhecido ou intimidante, já sabem: juntem a palavra "Carlota" no final de qualquer frase.
PS: O que é que se aprende com isto? Pouquito. Aprende-se que eu, com mês e meio de Lisboa e arredores em cima, continuo o mesmo campónio de sempre, que quando passa por alguém mais conhecido, vai logo a correr contar aos amigos, com o mesmo entusiasmo de quem acabou de ter um filho.