quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Passar o testemunho

Ser alvo do tsunami provocado por um carro a passar numa poça é um dos rituais de passagem do ser humano. É como ter sarampo, papeira e varicela. Se nunca vos aconteceu, mais tarde ou mais cedo vai acontecer. Quanto mais tarde for, mais sérios serão os efeitos.

Comigo deu-se quando tinha uns 16 anos. Ia para a escola, num passeio estreito, e fiquei com as calças encharcadas quase ao nível do abono de família. Era como se tivesse duas pilas, uma para cada perna das calças, uma bexiga com capacidade para vinte litros, e incontinência urinária permanente. Claro que, quando cheguei, toda a gente apontou para a minha zona genital, o que seria agradável se a ocasião fosse outra. Já eu, fiz como se tivesse levado com um grande pingo de chuva de uma goteira de um prédio na testa, em público. Continuei a andar, como se não conhecesse ninguém e não se tivesse passado nada, rezando para que, das duas uma: ou o aquecedor da sala de química estivesse ligado, ou então que as luzes dos corredores estivessem quase todas fundidas.

Anos mais tarde, passei o testemunho. Um puto ia a passar na rua, e eu acelerei mesmo antes de uma poça morbidamente obesa. Infelizmente, acelerei porque ia com pressa, e não por ter visto o raio do miúdo. Soube a pouco. Sinto que podia ter feito algo mais.

No fim de semana, redimi-me indirectamente. Ia com um amigo no carro (com ele a conduzir), precisamente num dia em que as ruas estavam inundadas. Se o carro fosse um bocadinho mais depressa e perto das bermas, a água era projectada, literalmente, à altura do tejadilho. Aliás, precisamente por ser tão fixe andar depressa e ver água dos dois lados à altura das nossas cabeças, o meu amigo acelerou. Infelizmente, vinha uma mulher na rua, mesmo do meu lado. Ela mal teve tempo para por o chapéu de chuva à frente do corpo. Mas é que nem teve hipótese. Foi uma luta desigual, qual David versus Golias, em que o Golias é um Opel Astra preto que parte a boca toda ao David enquanto o Fernando Mendes come uma dúzia de pastéis de Belém. Uma coisa é certa; nunca esquecerei aquele esgar polivalente, num misto de terror e de indignação. Fiquem descansados que a coisa também não foi assim tão grave, já que ela não era lá muito bonita. Olhámo-nos nos olhos durante uma fracção de segundo. Senti-me vingado, embora com a certeza de que aquela mulher, um dia, também irá passar o testemunho. E, meus amigos, não será nada bonito. Só espero não estar por perto nessa altura.

5 comentários:

Anónimo disse...

Quando morreres, já não vais para o céu.

Bailarina disse...

Bem, eu o testemunho ainda não passei mas, já tive uma boa meia duzia de pessoas a passar-mo... Quando for aminha vez de o fazer, vai ser à grande e à francesa... 8)

Sadeek disse...

AHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAAHAHA

v.s disse...

Eu considero-me uma pessoa bastante esquiva, em 19 anos nunca me aconteceu isso =p assim também não passo testemunho.

Rafa disse...

Eu, não tendo carta, nunca consegui experienciar este prazer na primeira pessoa. Mas quando vou no carro com um amigo ou amiga e há uma daquelas poças enormes na berma da estrada, a criança que existe em mim dá pulos de contentamento e implora para que se acelere de forma a esguichar para todo o lado.

Ontem, a minha amiga disse-me muito séria que não o iria fazer porque "isso prejudicava o funcionamento do carro, pois poderia entrar água para não-sei-bem-onde".

Há pessoas que são péssimas a viver a vida.