quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lembro-me de um rapaz lá da escola

... que andava numa daqueles turmas para gente que já sabe que nunca vai tirar um curso superior na vida. Tinham um pavilhão à parte para eles e tudo. Nós só íamos lá quando não havia mais salas, ou quando era para fazer trabalhos manuais. Sempre quis ter um mordomo para vir comigo às aulas de EVT. Achava aquilo muito desnecessário. Sabia que nunca ia ter de voltar a fazer coisas daquela na vida e, caso tivesse, que seria um falhado, e portanto não haveria incentivo para tentar aprender a fazê-las bem.

Voltando ao rapaz, houve uma altura em que ele arranjou uma namorada, apesar de ter aulas a tempo inteiro naquele pavilhão dos taditos. Havia um pequeno pormenor: a namorada dele tinha quarenta anos. Ele devia ter na altura uns dezasseis, no máximo. Este pormenor não seria um problema se fosse uma cota toda para lá de jeitosa, com peitos firmes (e falsos). Era gorda, feia e tinha o cabelo muito oleoso (sendo que apenas uma destas coisas vai tendo solução).

Que ele estivesse desesperado para perder a virgindade e o assumisse, eu ainda percebia. Não batia palmas, mas percebia. O mal era geral, e naquele tempo de guerra, todo o buraco era trincheira. Quase todo o buraco.

Mas não, aquilo não era só badalhoquice, era mesmo amor. Quer dizer, era também alguma badalhoquice, tendo em conta o nível de higiene pessoal que aparentavam. Andavam de mãos dadas pelas ruas e tudo. Suspeito até que, em época natalícia, se houvesse azevinho por onde passassem, que se beijariam despreconceituosamente. O que não ia acontecer era um daqueles sapos se transformar em príncipe.

Sei que tiveram (pelo menos) um filho. Andavam na rua a empurrar o carrinho de bebé (ela empurrava o carrinho e ele empurrava-a a ela), como se fosse um jovem casal normal, apesar de só metade ser jovem, e mais do que a conta. Toda a gente olhava, mas eles não se importavam.

Lembro-me deles e penso que ainda não se devem ter separado. Provavelmente devem ser mais felizes que eu. Mas como, se eu sei controlar os meus gases melhor do que eles? Como, se apesar da minha miopia, mesmo sem óculos eu consigo sempre descobrir num grupo de cinco qual delas é a gaja mais boa? Não sei. Só sei que devem ser mais felizes do que eu. Pelo menos nunca pensei chegar às portas dos trinta com este grau de insatifação. E, agora que um ano novo começa, espero que me dê razões para ser tão feliz como eles (mais!), e não ter de gozar com os mais desfavorecidos só para ter margem de manobra para me rir. A mim e a vocês, ó pseudo-esquadrão da moral e dos bons costumes (ai credo mas também se riem).

5 comentários:

Margot disse...

Cá não se usa isso do azevinho. É pena.

:\

E de resto, os ignorantes são sempre os mais felizes. Que não hajam dúvidas quanto a isso.

Francisco o Pensador disse...

Concordo coma Margot. Os ignorantes são sempre os mais felizes na medida em que conseguem levar uma vida mais despreocupada do que a nossa (tomando em consideração que possa pertencer ao grupo dos inteligentes, obviamente).
O que acaba por criar um verdadeiro paradoxo, uma vez que, ser-se inteligente é toda aquela pessoa que consegue criar condições para ser mais feliz do que os demais à sua volta.
Logo, chega-se à brilhante conclusão que afinal...os ignorantes é que são inteligentes...

Só mesmo eu para conseguir chegar à uma conclusão tão brilhante...

Pinipóne disse...

:o)

Joel de Sousa Carvalho disse...

Olá a todos os que vão ler este comentário neste blogue ou noutro muito bom como este. Pois é, estou encantado com todos estes pratos tão bem confeccionados. Pois, eu gostava de fazer igual, mas não consigo. A vida é dura e obrigou-me a morar sozinho, e a cozinha não é de todo o meu local favorito. Mas estou a tentar conhecê-la, mas as aventuras têm sido imensas. Fiz um blog humilde para colocá-las em forma de crónica pouco extensas. Gostava muito que todos vocês o visitassem e se possível o seguissem. É que tentar cozinhar e depois não ser ajudado, é algo muita mau.
Cumprimentos a todos!

http://tenhosalfaltamecolher.blogspot.com/

Maria disse...

Eu acho sempre estranho como é que estas diferenças de idade resultam, comigo não funcionava mas se eles são felizes muito bem.
E como nunca é demasiado tarde.. Bom ano. :)