quarta-feira, 9 de março de 2011

Já não é Carnaval, ninguém leva a mal.

O Carnaval para mim é como o tuning. O conceito base é bom, é interessante, mas 90% dos portugueses dispostos a colocá-lo em prática já passou a fronteira do labrego há mais de trinta quilómetros. É claro que depois, o resultado nunca pode ser positivo.


Epá, vamos cá tentar adaptar isto aos nossos costumes, fazer uma coisa nossa, impulsionar a identidade cultural de todo um povo. Naaaaaaa... tenho 22 anos, acabei há pouco tempo o 9º (foi no 2º andar do pavilhão dos cursos profissionalizantes, por isso já é considerado ensino superior) e vou aqui, com os meus 80 quilos e 10 centímetros de trapos, sambar com as minhas amigas para os senhores da RTP. Ah, isto afinal é prá Sic.

Nunca me mascarei na vida. Quando era puto, não o fiz na escola primária. Simplesmente queria ser diferente, sendo que numa turma de 30 mascarados de mãos dadas, dois a dois, a vaguear pela rua, com três Zorros e quatro Pierrots, para se ser diferente basta ter um aspecto mais normal. Nisso eu era bom.

Mais tarde, achei que já fazia figuras de atrasado mental durante o 1º, 2º, 3º períodos e, ocasionalmente, férias de Verão, optando novamente por gozar da recém descoberta normalidade que o Carnaval me vinha oferecer. Mas, anteontem, cometi um erro.

Estava a falar com uma amiga, querendo ela saber o que é que era preciso fazer para que eu me mascarasse. Disse-lhe que, se para o ano me arranjasse um fato com qualidade de oficial das SS, (ou de Jesus Cristo, como plano B) que eu me mascarava. Ora eu até nem sou nazi, apesar de já me terem chamado skinhead (um deles, o cabrão do anão de há uns posts atrás). Reservo-me ao direito de proferir piadas xenófobas para deleite de amigos e familiares, mas sou das pessoas mais despreconceituosas e afáveis no trato que irão encontrar (é o que dá lidar com múltiplas nacionalidades no contexto profissional e sentir a obrigação de os tratar com simpatia). Os meus amigos não irão corroborar isto, mas é a mais pura das verdades; eles nunca me viram trabalhar.

Gostava simplesmente de ver até que ponto iria a tolerância dos outros mascarados, só por eu estar vestido de braço direito do Hitler. Até pensei em preparar uma pequena rábula, em que entrava a marchar pelos bares dentro, gritando em seguida "VUERE...ARE... ZE JEWZ?!" Suspeito que meia dúzia de gajos peludos, mascarados de filha do Nené (imagem, por si só, desconcertante) fossem ficar ofendidos.

A cena do JC era só para o caso de não haver amigos suficientes que alinhassem comigo no primeiro cenário, só para poder ter as costas quentes na eventualidade de me oferecerem porrada. A ideia, muito mais suave, mas ainda assim provavelmente mal compreendida, seria a de andar a explicar às pessoas a impossibilidade lógica de existir um ser/entidade superior que é simultaneamente omnipotente, omnisciente, mas que mesmo assim nos fez conscientemente desta forma, amando-nos a todos incondicionalmente*, embora de forma não interventiva. Assim tipo "look at this ant farm gone wrong", só que eu teria um copo de Martini Rosato numa das mãos, só para o estilo.

A minha sorte, nestas merdas, é que passados três dias, já ninguém se lembra de metade das alarvices que eu digo. Restam-me, portanto, os dois habituais trajes que me acompanham nestas quadras: o de engenheiro sóbrio e o de engenheiro embriagado. Um vai ao desfile da tarde, e o outro ao da noite. Depois trocam.

*incondicionalmente, não é bem assim. Tudo bem que, mesmo se gastares dinheiro a modificar o carro, se te mascarares de Pikachu da loja do chinês ou se roubares a pensão de invalidez do marido da velhota do rés-do-chão, vais à mesma para o céu. Mas isso só acontece se, pelo menos no último instante antes de morrer, te arrependeres e afirmares que acreditas na santíssima trindade. Ah, men...

4 comentários:

Ana Duarte Faria disse...

Podes sempre mascarar-te de Sócrates. Oferecem-te porrada na mesma! ;)

suvogado disse...

Eu vou lá estar a cobrar a promessa!!! ihihihih
E não esqueças que tens de convencer os amigos a irem de mini saia e estarem prontos para te defenderem ;)

Rafa disse...

Gostei muito do teu testemunho, sim senhor. :)

Tenho trauma com o Carnaval. Mascarei-me três vezes na vida. Em criança, os meus pais nunca acharam piada à coisa e eu tinha inveja das meninas da minha turma que se mascaravam de dama antiga, princesa ou fada. Era uma boa maneira para abusar do cor-de-rosa e do tule. Ah, o tule...mal saberia que 20 anos mais tarde o usaria em lingerie.
Voltando à escola primária, a minha avó um dia teve pena de mim e aproveitando o facto de a minha mãe me ter rapado o cabelo por ter apanhado piolhos (e ter pouca paciência para os catar numa carapinha de uma menina), decidiu mascarar-me de homem. E não era um homem qualquer, era de Guarda Nacional Republicana. Acho que tinha um bigode. Mas eu fiquei de trombas o dia inteiro...mas afinal, alguém já viu um gajo da Guarda Nacional Republica a rir-se?

Aos 20 anos mascarei-me de gueixa. Foi bem, estava branca-à-Michael-Jackson, ao mesmo tempo que tinha um decote giro com um kimono gelado. Foi interessante. A ironia é que o meu namorado seguinte tinha tido uma ex-namorada japonesa e eu passei anos com o fantasma da gaja.

E a última vez foi no passado, quando fui com amigos/amigas malucos para Torres Vedras. O tema era "Invasões" e nós fomos de formigas com um amigo mascarado de pacote de açúcar da Nicola com a fabulosa frase: "Um dia elas vão papar-me. Hoje é o dia". Ainda hoje se fala em Torres desse mui nobre grupo.
Passados dois meses, tive uma infestação de formigas em casa, até na cama as cabras me apareciam.

E pronto, este ano fiquei em casa e combinei jantares inocentes com amigos. Só por causa das coisas.

Miss Mags disse...

Essa do engenheiro sóbrio e engenheiro embriagado tb uso mtas vezes, e não só no Carnaval!