quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fará sentido manter este modelo de educação?

Sou afortunado por poder dizer que tenho um trabalho que adoro. Todos os dias é-me dado o privilégio de lidar com documentos pessoais de outras pessoas e preencher papéis, para além de dar formação a essas mesmas pessoas (a última, claramente um mero complemento secundário das duas primeiras).

Ao olhar para o certificado de habilitações de um dos formandos, reparei numa situação comum, embora caricata, sobre a qual já várias pessoas escreveram (e de forma bem mais acutilante do que eu, que sou apenas um normal palerma). Chamemos-lhe Dulcineíldo. O Dulcineíldo, segundo consta nos seus dados, passou a Educação Moral e Religiosa Católica com uma boa nota (4), embora tenha tido péssimas notas a Línguas e Matemática. Nada fora do vulgar, cumprem-se as prioridades. A minha pergunta é:

O que é que significa ter um 4 a Educação Moral e Religiosa Católica? O que é que se ensina lá? Se fosse sobre a sua história, não seria preciso o prefixo de Educação Moral, e já existiria uma disciplina que, consoante o programa, aborda a temática. Chama-se "História". Será sobre Deus, Jesus, demais personagens e histórias? Poderia o Dulcineíldo, caso fosse esse o seu credo, optar por Educação Moral e Religiosa Budista? Quais são as opções disponíveis no mercado? Terão todos a mesma oportunidade de escolha?

Nesse caso, não percebo o 4. Como é que se tem 4 a uma coisa que fala de coisas que, das duas uma:

A) Não existem.

B) Existem mas ninguém sabe afirmar nada sobre o assunto com autoridade.

O que é que o Dulcineíldo passou a saber que tenha aumentado as suas competências, que não se pudesse ter ensinado num outro ambiente, um pouco menos tendencioso? Não será lógico que as únicas notas possíveis numa cadeira desta índole, sejam o 1 ou o 5? Ou ninguém sabe nada porque não há hipótese disso, ou todos sabem tudo, porque é como a astrologia e é tudo inventado à medida que a brincadeira se vai desenrolando. Nenhuma outra nota faz sentido.

É que reparem: o que é que um padre, catequista ou similar "educador" sabe sobre Deus que o Dulcineíldo ou até mesmo, pasme-se, eu? Nada? Pois, nada. Similar educador não tem dados para dizer se os fundamentos da sua religião são verdadeiros ou falsos, quanto mais existentes. Nunca nenhum padre falou com Deus. Nunca nenhuma catequista leu sequer um guardanapo de papel com uma quadra de Santo António escrita por Deus. Nunca viram nenhum filme, mudo ou não, realizado por fonte fidedigna sobre toda esta macacada. Só a Alexandra Solnado é que fala com Jesus, sendo que ela, que eu saiba, não preenche recibos verdes segundo esta categoria do CIRS.

Alexandra Solnado foi professora de Educação Moral e Religiosa Católica do Dulcineíldo? Não. Então não percebo o 4.

Gosto de pensar que os meus filhos, quando forem para a escola, irão aprender somente factos e nada mais do que factos. Opiniões parvas sobre coisas, terão muito tempo para as adquirir, à medida que a vida os for moldando, mas nunca, endoutrinando.

6 comentários:

Nandita disse...

Hmm, eu lembro-me de isso ser opcional... E não me lembro de grandes conversas sobre Jesus e família, nos anos em que os meus pais "optaram" por mim. Era mais aquela coisa do espírito de entreajuda, solidariedade, fraternidade. Não me impingiram ideias sobre quem quer que fosse (e confesso que para isso já tinha a Catequese, essa escola para a vida! :P).
Agora a outra questão que colocas, sobre a variedade... eu queria crer que nas metrópoles houvesse outras opções que não a Católica Apostólica Romana... mas nunca vi!

Inês disse...

E se a Educação Moral e Religiosa já soubesse isso tudo... e portanto está muito à frente...
E se os gajos que pensaram nessa EMR soubessem já, de antemão, que mais do que religiosa deveria haver a moral... e se no universo de 1500 meninos lisboetas, com o que de mau se pode tirar desse numero, a tal da educação moral fizesse alguma diferença...

Não a religião... mas a Moral... onde está a moral destes meninos? Pensa por favor nisso... Gosto tanto de te ler! Peço-te que visites uma escola do 2º ou 3º ciclos, fala, ouve, pergunta... depois, diz-me por favor onede está a Moral... já agora pensa no tal factor religioso...

busycat disse...

Eu tive durante uns anos (já não sei quantos mas ter furos estava fora de questão) e não me lembro de falar de Deus ou Jesus. Acho até que tinhamos livro de apoio. Qando for a casa vou procurar e depois falamos!

beijo

Pedro M. disse...

A tal moral, no meu tempo, era também abordada na disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social. Em Religião e Moral, consoante cada turma e cada professor, era abordado o que apetecia. Uns falaram de Deus, outros não, pelos vistos. Seja como for, nem que falhassem de pezinhos de coentrada, não faz sentido que se fale na parte religiosa da maneira pretendida no programa.

Mais uma vez afirmo: numa escola devem ensinar-se factos. Religião não é um facto. Além disso, para se ensinar e discutir bons valores no contexto da sociedade, continuamos a não precisar em nada da religião. Aliás, podemos de lá retirar alguns dos piores exemplos possíves...

Ricardo disse...

No meu tempo, lembro-me de um ano em que Religiãoo Moral (sempre a tratei assim) era basicamente a aula de Educação Sexual que as escolas nunca tiveram no programa. Foi aí no 6º ano, quando temos 11, 12 anos e estamos a entrar na puberdade e o nosso corpo está a mudar. Foi óptimo para tirar duvidas e para perceber e aceitar o nosso corpo.
Tirando isso, nos outros anos sempre vi RM como uma aula de encher chouriços. Era simplesmente uma aula no final do horário escolar, que íamos para estar na conversa.
Cheguei a ter um professor padre que, coitado, não estava minimamente talhado para a via ensino.
Tínhamos uns trabalhos super fáceis e básicos ao longo do ano lectivo e bastava fazer e apresentar esses trabalhos, que podiam ser feitos numa hora no dia anterior, que tínhamos automaticamente 4.

Margarida disse...

Num estado laico não faz sentido rigorosamente nenhum que, na escola pública, existam disciplinas específicas sobre religião, qualquer q seja a confissão religiosa.
Aí, o Dulcineíldo teve 4, noutra escola a Francelina tirou 16 e noutra ainda o Joselino, q está contrariado, a mãe é q o obrigou, chega sempre atrasado, falta muito e disse uma vez, "caralhosmefodam",teve 2. Só não teve 1 pq a professora está cheia de caridade!
É mais uma faceta patética cá do Tugal.