sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mundo cruel

Fazer 30 anos é uma merda. De repente, uma pessoa vê-se privada de pequenas coisas que dava por adquiridas. E ainda dizem que os etíopes é que estão mal, com a sua baixa esperança média de vida. A maior parte devia era dar graças por nunca chegar a ter esta sensação de velhice, uma das mais horríveis do mundo (quiçá a pior).

A primeira coisa a ir é a audácia. Uma pessoa quer descer o castelo de Óbidos de bicicleta a abrir, mas já sabe que há perigo de derrapar no empedrado; em vez de pedalar cada vez mais depressa como dantes, só se trava. Qualquer dia terei de comprar um capacete e umas cotoveleiras. Que vergonha.

Depois é todo um manancial de expertises (ler à portuguesa) que se vai desvanecendo. No mês passado? Fodia, fodia, fodia, fodia. Aguentava praí umas quatro horas sempre sem parar. Pumba pumba pumba, a marcar passo. Agora não passa da horita e meia. A partir daí tenho de me pôr direito, por causa das costas, até ganhar coragem para a segunda berlaitada. Vale-me, felizmente, o velho ensinamento do pai de um amigo meu: a homem com língua e dedo, não há mulher que meta medo.

Dantes ia para entrar na segunda circular, e se não me deixavam entrar logo, começava logo a insultar "ó meu ganda filho de um cabresto, a tua mãe foi enxertada em corno de cabra". Agora já não me arrelio. Deixo passar os senhores e até lhes desejo uma boa viagem. Agora que me lembro, hoje ainda só disse umas três ou quatro caralhadas. Adeus, virilidade. Ainda há bocado, dei por mim a lavar roupa à mão, enquanto via o Masterchef australiano. Depois fiz o jantar e fui passar uma camisa. Com tudo isto, tenho medo de, qualquer dia, ir a meter a mão no meio das pernas para coçar os colhões e descobrir que tenho uma cona no lugar do orgão original.

Aconselho toda a gente a nunca fazer trinta anos. A minha namorada diz para eu não me preocupar, que os trinta são os novos vinte. No fundo, ela só diz isso porque ainda acredita que eu tenho dinheiro e que vai dar o golpe do baú num velho rico. Em vez disso, optem por outras actividades. Vão ao México, por exemplo. Come-se bem e parecemos muita finos, quando comparados com os locais. Adiem a efeméride uns tempinhos, sei lá, mais lá prós cinquenta. Isso, façam trinta quando chegarem aos cinquenta.

Perdido por cem, perdido por trinta.

8 comentários:

A Chata disse...

Terceiro parágrafo. Lindo...

AC disse...

Vês a idade já te trouxe tanta sabedoria..... E sabedoria é o que chamamos a trinta anos de erros.

Fi disse...

Acho que ainda tenho tempo para me ir preparando psicologicamente.

Ana disse...

Oi Pedro!
Adorei o seu blog e a maneira como você escreve! Voltarei sempre...

Até mais,

Ana
www.ananumdiadaqueles.blogspot.com

Anónimo disse...

daqui a pouco casas... e nao é comigo :(

hierra disse...

por acaso, acho que há algo de exagero e um toque de bom senso tipico dos trinta, refilar menos nas estradas, até porque é escusado!

Lyn disse...

"a homem com língua e dedo, não há mulher que meta medo"

Eu não digo que falas bem? ;)
Kiss*

Dias Cães disse...

E só por isto fiquei fá deste blog logo à chegada.
Acredita, a neura dos 30 passa não tarda nada... mas não te vou enganar... o vigor nas quecas nunca mais será o mesmo.