quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Eu também quero ter uma secção de moda numa revista.

Entrei na Primark e nunca mais fui o mesmo.

Bem me esforcei para não olhar e não tocar em nada, mas aquela loja maldita submeteu-me ao seu jugo. Em primeiro lugar, toquei sem querer num top dourado e apanhei lepra. Uma amiga minha uma vez disse-me que o segredo para comprar na Primark era saber escolher bem as peças. Eu até acredito que sim, mas tinha-me esquecido de levar comigo o laboratório de bolso com que ando atrás, sempre que entro num espaço em que há o perigo de apanhar febre tifóide. A minha namorada ainda pegou numas calças, mas cedo a desencorajei. Olha que isso mesmo com roupa interior de algodão bem grossa é coisa para provocar cancro na cona - disse eu, com voz sedutora mas paternalista.

A verdade é que não faltava gente. Gente, gente, gente até perder de vista. Sempre o mesmo gesto, aquele de pegar na peça com a mão direita, esticá-la para fora do cabide e mirá-la de cima abaixo. E ficar com uma inflamação na córnea, no caso da Primark. A sério, basta olhar.

Seguranças? Vi apenas um, para um espaço tão grande. Eu até acho que só o colocaram lá para disfarçar, numa tentativa de diminuir o aparente fosso de qualidade que há entre esta marca e uma Bershka ou uma Zara (isto, claro, se estivermos a pensar em peças de outlet, caso contrário é como o fosso do estádio de Alvalade, intransponível). Duvido que alguém queira roubar uma peça que seja, tendo em conta que nunca vi roupa com um ar tão barato. Ainda assim, dois euros e meio por um saia-casaco, ali, é coisa para estar inflacionada em cerca de dois euros e vinte e sete cêntimos. É que há roupa em certas lojas que um gajo ainda demora a topar que é feita com acabamentos/material de segunda. Já aquela, eu venho a sair da zona da restauração e já estou a a reparar em pormenores que fariam torcer o nariz a um mendigo em Marraquexe.

Se me propusessem correr os cem metros barreiras numa pista de pregos ao invés do habitual tartan, sendo que poderia optar por correr descalço ou usar sapatos da Primark, eu escolhia os sapatos da Primark. Não sou parvo. Não curto dor. Mas se estivesse alguém a ver, podem crer que ia descalço.

Estás a ser chato - disse a tal amiga de que falei há pouco. O bom da Primark é que aqui encontras peças pelas quais terias de dar bastante mais dinheiro, caso fossem de outras marcas - continuou ela. Pois, e num restaurante de comida japonesa gerido por chineses também há doses de sashimi a cinquenta cêntimos cada uma, e não é por isso que eu vou lá experimentar sushi pela primeira vez.

Já sabia que ia ser tempo perdido, mas mesmo assim disseram-me que havia uma secção de homem, e que eu assim sempre poderia dar também uma vista de olhos e não ser tão desagradável para as pessoas com quem ia. Eu procurei e procurei e procurei, mas só vi a secção para insolventes, a dos sem abrigo, a dos afligidos por doenças infecto-contagiosas e a secção de criança (orfã). Ah, e também dei uma passagem rápida pela secção de roupa para ciganos e a coqueluche do espaço, a zona Etiópia. Roupa para homem propriamente dito é que não, mas a verdade é que a minha miopia aumentou um bocadinho nos últimos anos, sendo que eu ainda não fui ao senhor doutor fazer a actualização da graduação.

Sempre quis ser piloto, mas a minha graduação não permitia. Deve ser porque eu acordava muito cedo ao fim de semana e ficava a ver bonecos muito perto da televisão. Acho que aos oito anos já não conseguia fazer cópias como deve ser sem me levantar e chegar mais perto do quadro.

A única hipótese da Primark ser uma ideia genial é se for apenas uma fachada para experiências farmacêuticas à revelia, ou então ser propriedade dos mesmo donos da Blanco (nome irónico dependendo do local; imagem esta loja em Telheiras num domingo à tarde). É que um gajo sai da primeira, entra na segunda, e de repente tudo parece espectacular. Aliás, gajo que passe mais de meia hora na Primark, e o fascínio pela roupa da Blanco é tão grande que até dá vontade de começar a vestir roupa de mulher, apesar de sermos dos poucos que não se mascaram no Carnaval. Felizmente, para a minha virilidade, apenas estive lá cerca de vinte e oito minutos. Maluco, mas não tanto. Com sorte, serão os primeiros e os últimos.

De resto, sabem se é possível encomendar roupa da Primark através da internet? É que se der, já sei o que vou oferecer às minhas tias do norte no Natal.

21 comentários:

faa disse...

Já varias pessoas me falaram dessa loja, nunca tive curiosidade de ir, e agora depois de ler o teu post, tenho a certeza que só irei obrigado ou se tiver muito mal mesmo! :)

S* disse...

Eu acho que tem um ar de feira terrível. Quando lá entrei, deu para me rir, de tão foleiro que parecia. mas, de facto, há gente que tem peças giras de lá. Deve ser preciso olhar mais do que uma vez.

Fi disse...

até estou arrepiada! não é que fui lá na 6ª feira e passados dois dias acordei com uma inflamação na córnea??? juro. reacção às lentes de contacto...pfff

Pink Poison disse...

Nunca entrei nessa loja mas parece que nem vou tentar...

CoriscaRuim disse...

Estou safa: cá não há este antro de doenças!

L.H. disse...

Nunca lá entrei, nem me sinto tentada a fazê-lo!

AC disse...

Já lá entrei, já andei por lá à procura de achados maravilhosos e só vi roupa com ar de feira, ou loja dos 300...não comprei nada, mas tenho colegas que dizem que encontram grandes pechinchas. Será que foi azar?

Ana disse...

Parabéns! Conseguiste estar lá dentro 28 minutos. Eu não aguentei nem 10...

Ana Sá disse...

AhAhAh Nunca entrei, mas suspeito que no dia em que entre vá ter a mesma reacção... já tenho essa recação em relação a muitos artigos da própria Blanco, imagino assim...

salto para a lua disse...

à descoberta de blogs inteligentes. parece que desta vez tive sorte. bom post!

Juno disse...

os meus pêsames por teres estado lá dentro mais de cinco minutos. ainda bem que o teu jeito para a escrita não ficou afectado!

Miss G. disse...

Olha que eu já lá encontrei algumas coisas giras. A parte dos pijamas por exemplo. E a qualidade é bem superior à dos chineses. Claro que há que saber escolher e ver com paciência. Existe muita porcaria mas há umas coisas que compensam.

Life is what it is disse...

Eu costumo ir lá, claro que para encontrar coisas boas e baratas convém olhar duas vezes e com paciência!
Há coisas mesmo horríveis e com muito baixa qualidade, mas também há coisas boas, e para o preço que é compensa!
Acho engraçado é que a maioria das pessoas que fala mal da loja na blogosfera, de certeza que lá vai e se não vai vai à feira procurar nos ciganos roupinhas baratas!
Mas quem sou eu para julgar!
Sim eu vou à Primark e já arranjei lá coisas boas e baratas!

Tanita disse...

Eu como gaja, nunca mas nunca poderia ter escrito melhor.
Boa semana.

Escrita Online disse...

Para quem gosta e QUER escrever.

Regulamento já disponível em

http://escrita-online.blogspot.com

Boa Sorte!

Anónimo disse...

HAHAHAHA Muito bom!
A única vez que coloquei os meus pés em tão "famosa" loja, ainda vivia na Escócia e, foram 5 minutos tãoooooooooo dolorosos que, a partir daí, cortámos relações:)

T.

Vi. disse...

Não conhecia este blog, adoro a primark, mas confesso que texto que escreveu está "delicioso". Para quando um bestseller?

Anónimo disse...

Este seu post aguçou a minha curiosidade, e é desta que eu vou entrar numa loja Primark.
Cá no NORTE temos duas, e se calhar dava a hipótese às suas tias de serem elas a escolher os trapos, perdão, os presentinhos de Natal.

A info-excluida disse...

Eh lá, já cá gente a pedir-te um bestseller. Já foste contactado pela "Fábrica de Livros"?

Ska disse...

Não sei se já idsse, mas achei este texto das melhores coisinhas que li este ano.

És o maior.

Pedro M. disse...

Vocês mimam-me demasiado.