sexta-feira, 2 de março de 2012

Macho latino, uma raça em vias de extinção

Ficou determinado que seria ela a tratar da roupa. Ficou determinado no momento em que se tornou visível que eu não estava muito preocupado com o facto da roupa lavada se estar a acabar. De resto, quem cozinha aqui em casa sou eu. Ficou determinado na altura em que percebi que o risco de ela me pôr veneno na comida por eu não me preocupar com a roupa aumentaria com o passar das semanas.

De repente, vejo os papéis totalmente invertidos. Eu estou em casa a fazer caretas de nojo com o vídeo das orgias do José Castelo Branco (que, curiosamente, curte mais gajas do que eu pensava), depois de ter sabido através do Vidas do Correio da Manhã online que o vídeo estava disponível na net. Ela está a trabalhar. Alguém tem de trazer o toucinho (ai...) para casa.

Recebo uma chamada. Ela esqueceu-se de tirar a roupa da máquina e pede-me para a estender. Nada mais fácil - pensei eu. Também era só o que faltava ser sempre ela a fazer a mesma coisa. Assenti, deixando-a mais descansada.

Errado. Não se deixa de ser machista de um momento para o outro. Que eu apanhe porrada depois de ter dito "vai mas é fazer-me uma sandes"* após uma crítica qualquer dela, ninguém vê, estamos dentro de portas. Agora, estender a roupa? Tenho vizinhos e uma escola por trás. Há uma loja de tintas e outra de animais por perto. O que é que vão pensar de mim se me virem a estender cuequinhas e collants? Que sou frouxo? Que não consigo manter o sardão levantado e que, por isso, só sirvo para dono de casa?

Tracei um plano. Separei a roupa por grupos (isso ela vai gostar, a colocação das molas não tanto; talvez diga que eu nunca mais tenho de fazer isto, em nome do perfeccionismo caseiro recentemente adquirido) e elaborei um horário com as tarefas. Em momentos separados e muito rápidos, fiz várias incursões ao estendal, de maneira incisiva e furtiva, como se estivesse em missão no Afeganistão (a analogia não é das melhores, já que espetar balázios em árabes é capaz de ser bem mais divertido e viril).

Acho que não fui visto. Vou é apanhar logo à noite por ter escrito este post. Apanhar, como quem diz: desta vez vou estar bem preparado. Assim que sofrer o primeiro ataque, vou atacar com cócegas nas axilas, enquanto ela fica sem respiração e solta um misto de risinhos e gritinhos que se traduzem em qualquer coisa como "NÃO PODES FAZER ISSO, EU SOU UMA MENINA".


*Ficou ofendidíssima. Disse que eu não podia brincar com aquilo e ser machista porque havia mulheres obrigadas a usar burca que, quando comiam um gelado, apanhavam porrada se ao levantarem o pulso o tecido descaisse e deixasse à mostra um bocado de pele. Eu podia ter respondido de várias formas, mas optei pela via diplomática. Fingi que também estava ofendido e gritei:

O quê, mulheres de burca a comer GELADOS????!!!!!!

4 comentários:

S* disse...

De facto, mulher de burca não deve ter direito a gelado. :/

E tu és um sacaninha... o namorado também era dado à preguiça mas já aprendeu a estender a roupa. Ou mulher, já aprendeu que precisa de usar as molas, mas ainda não descobriu o sítio exacto para pôr molas. Pendura as camisolas pelos sítios mais esquisitos...

São João disse...

Se o estendal for duplo fazes assim: primeiro penduras uns lençóis no estendal exterior e depois é que penduras a roupa interior no estendal mais próximo da janela. Era o que eu fazia para evitar os olhares do meu vizinho tarado sexual.

Sam Martins Pinheiro disse...

Estás a subir na minha consideração!

Dama das Camélias disse...

Nem sequer tentes aceder ao meu blog porque não faz minimamente o teu tipo de leitura, será talvez um daqueles que faz perder o teu tempo útil de vida... mas não consegui parar de me rir desde que comecei a ler o teu. Como quero dar a imagem de um blog sério, mãe de familia não escrevo como tu, mas aqui em casa fala-se exactamente assim. Aliás ao ler o teu blog pensei que poderia muito bem ser o meu marido a escrever.

A vossa casa deve ser uma animação... tal como a minha.
Felicidades