sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Como ir a Marrocos sem sair de Portugal

Se noutro lado qualquer me dissessem que qualquer artigo exposto numa determinada banca teria um custo associado de apenas um euro, teria desconfiado. Mas ali, não. Naquela que é carinhosamente apelidada de Feira Internacional de Carcavelos, as coisas têm mesmo um custo baixo. Baixo para a carteira; para a saúde mental, a história é um bocado diferente.

Apesar de vivermos relativamente perto do recinto, nunca tinhamos tido uma ocasião em que, à quinta-feira, sendo feriado, nos conseguíamos levantar da cama antes das duas da tarde. A namorada achava que era capaz de ser engraçado e eu assenti. Experimentar não mata, e é assim mesmo que nos envolvemos em novas experiências e desenvolvemos os nossos gostos, a menos que a nova experiência consista em meter a cabeça dentro de uma panela de pressão a funcionar.

De facto, ali as coisas só têm, na maioria dos casos, três preços diferentes: dez, cinco e um euro. Não sempre se vêem as etiquetas, mas os preços são mesmo estes. Aliás, é mais uma questão de "É TUDE A UM EURE, MÊS AMOOOOOOOOOOOOOOOORES, É SÓ ARTIGUES DE CALIDAAAAAAADE!!!", para além de outros jargões. Fiquei um pouco sem perceber se estava num país diferente ou se tinha descoberto uma potencial mina de ouro para os profissionais da terapia da fala. Talvez seja uma mistura das duas. Seja como for, uma coisa vos digo: em altura alguma fiquei tão contente por passar em sítios onde os preços anunciados eram os mais caros como naquela feira. Parece que nas ruas dos dez euros havia mais espaço para circular e a minha cabeça roçava menos nas cordas das tendas e em fatos de treino Adidas que tinham sido contrafeitos sabe-se lá onde.

Eu não sei se em alturas de crise como esta há ou não mais pessoas nas feiras do que o costume. O que eu sei é que as pessoas se estão a iludir quando pensam que é ali que vão conseguir poupar dinheiro. Aquilo que se poupa em roupa na Feira de Carcavelos acaba por ser mais tarde gasto em sessões de quimioterapia no Serviço de Oncologia do Hospital de Cascais. A mulher que compre aquele pack de "léguins" de cabedal a cinco euros, cai-lhe a cona pelas pernas abaixo, e isso não é simpático.

Tenho alguns conselhos para dar aos vendedores e sei que não vão cair em saco roto, já que vários são frequentadores da blogosfera e, particularmente, deste espaço. Se estão a apregoar que a vossa roupa é a última moda em todo o lado (eu pensava que os pontos de partida para as novas tendências seriam, sei lá, Paris, Nova Iorque, Milão, mas não, é Carcavelos), convém que a roupa mantenha a côr original, e que aquilo que a separa do chão enquanto a vendem seja mais do que um mero cartão de óleo Fula. Eu nem as cenouras e as batatas vou buscar ao chão, mas sim a uma banca no hipermercado, quanto mais "tshértes". Mais; quando gritam a plenos pulmões que aquilo é produto nacional, não estão a tornar as coisas mais apelativas. Toda a gente sabe que em Portugal, de bom a gente só tem o CR7, e nem sequer vem do continente.

Fascinou-me o sistema hierárquico que regula os vendedores de serviços. Os plebeus vendem a partir de uma caixa da fruta ou de um cartão no chão, como já vos tinha dito, depois ganha-se direito a uma pequena banca, o estatuto aumenta à medida que a nossa banca aumenta e tudo culmina em sermos reis de um determinado artigo. Há o rei dos boxers, o rei das meias, o rei das panelas e por aí fora. Sinceramente, não sei o que resta alcançar após sermos coroados reis das meias. É a mais pura das realizações profissionais.

Após termos passado por todas as ruas, fomos embora mais informados, mas sem termos comprado nada. Não sei se foi por causa do meu ar de reprovação para com a namorada  quando pegou numa mala para avaliar a extensão da sua falsidade ou se foi por medo (dela) de que apanhassemos porrada por causa de algum dos meus comentários em voz alta.

Ter-me-ia despachado mais depressa se não tivessemos, a dada altura, duas mulheres à nossa frente em cadeira de rodas, daquelas eléctricas. Com a primeira até tive paciência e não disse muitos palavrões, mas com a outra deu para olhar bem para ela e tirar-lhe a pinta. Ela, claramente, não pedacia de deficiência. Parecia ser apenas uma preguiçosa que se acha mais do que os outros para estar a tocar com os próprios pés na feira. Detesto gente preconceituosa.

4 comentários:

Limited Edition disse...

fantástico relato, só me ri!

AC disse...

Porra que riso. Mes amooooores é tão real. Ó linda venha cá é tudo a um eure.

Não consegui parar de rir.:)

Maria Bê disse...

Espectacular. Especialmente o remate!
Um sorriso!

S* disse...

Tu tens cada uma que mais parecem duas. ahahah