domingo, 10 de março de 2013

Solidariedade Coerciva

Correndo o risco de parecer insensível, já não sei que cara hei-de fazer à malta que está nos centros comerciais a abordar as pessoas em nome da luta contra o cancro. Se eu ajudasse de cada vez que me pedissem, especialmente numa altura de crise, quem precisaria de ir para a rua pedir ajuda seria eu. Ou era isso ou recorrer à boa vontade do Banco Alimentar Contra a Fome (no qual, por sua vez, há membros que também sabem ser bastante irritantes).

Vamos lá ver uma coisa: eu não tenho dinheiro para essas merdas. Isso não quer dizer que eu queira que as pessoas sofram da doença. Aliás, gostando da ideia e fazendo parte de um estado social (mas no meio, não tão à esquerda nem à direita quanto alguns desejam), quero acreditar que parte das contribuições são empregues precisamente nesse fim. Dar a uns e não a outros (normalmente às meninas mais bem maquilhadas e sorridentes) é que seria uma atitude hipócrita. É que são sempre os mesmos. Não há uma psoríase, não há um pé boto ou uma caspa mais crónica.

É normal que uma pessoa se torne insensível. Eles estão em todo o lado. Não há um dia em que uma pessoa não seja solicitada para uma coisa dessas. Estamos com pressa e acabámos por levar em cima com os gajos do City Bank ou do Barclays, que, quais artistas circenses, nos dizem antipaticamente na cara "mas você nem sabe o que é que eu tenho para lhe dizer". Sei, meu caralho, sei. E pronto, estamos nós a pensar se será que chegamos a horas a certo sítio e se fazemos ideia de como vamos pagar determinada conta, e estão lá mais aqueles, a pedir dinheiro para o cancro. Assim como há pessoas extremamente simpáticas, que não insistem e percebem a indisponibilidade de algumas pessoas, há gente que nos fica a olhar com cara de "parece impossível, não queres ajudar os sidosos ou cancerosos, vê lá se não te calha a ti". E quando passamos pelo mesmo sítio nem dez minutos depois, e a mesma pessoa nos volta a abordar como se nunca o tivesse feito?

Se as pessoas quisessem (ou pudessem) mesmo ajudar, sempre que o quisessem fazer, dirigir-se-iam aos postos da respectiva campanha. As letras são grandes e toda a gente sabe o que se passa ali. Aí sim, queria ver quantas pessoas é que estariam dispostas a fazer uma contibuição. A fazer com que os outros se sintam mal também eu conseguia angariar dinheiro. Sempre pensei que um "peço desculpa, mas agora não, obrigado" fosse cortesia suficiente. Não é. Também já ponderei dizer que "dinheiro não tenho, mas posso dar-lhe um abraço" ou até "ah, mas eu não tenho cancro, obrigadinho". Tenho a certeza de que a minha imagem não sairia manchada. É que eu já esgotei todas as formas de sorrir, de pedir desculpa. Sobra-me o passo acelerado, caminhar junto às paredes, e fingir que tenho a pior visão periférica do mundo.

4 comentários:

S* disse...

É ingrato. Se, por um lado, entendo perfeitamente os peditórios, por outro lado é chato estar sempre a receber pedidos de ajuda. Ou é para o cancro, ou é para as crianças, ou para os ex-drogados... e eu fico com aquela cara de "pah, eu ganho mal, não posso estar sempre a dar dinheiro".

Anónimo disse...

Para mim o pior é mesmo as meninas emproadinhas que parece que vão para uma festa e estão ali a fazer um grande frete...No lugar de investirem numa pessoa que até tenha gosto e experiência naquilo que faz.Amadorismo em tudo: é o que nos caracteriza como país!

MisS disse...

Gostei da táctica do abraço. Vou experimentar já que a sou surda muda não resultou muito bem...

I sarcastically disse...

levar óculos escuros, uma bengala e um canito ?????
normalmente uso a técnica do "já gfaço contribuições que cheguem, obrigadinha", com cara de"não-fales-mais-comigo-porque-se-não-tás-aqui-tás-ali!

Ou então, se estiver muitooooo bem disposta, pergunto-lhes porque raios usam aquale palavreado, e tento convencer os "sidosos" que não é a chamarem-se "sidosos" que convencem as pessoas a darem moedinhas, e que as meninas emproadas deveriam tentar ter um ar um nadinha menos emproado quando as pessoas lhes pergutnam porque é que estão a fazer aquilo ? se é trabalho comunitário, por alguma contra-ordenação, ou se é mesmo voluntariado.... andar em centro comerciais aborrece-em... às vezes preciso de uma acção....