sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mudar de vida

Mudar de casa é mudar de vida. Quando vamos à procura de um sítio novo para morar estamos, no fundo, a tentar vislumbrar a vida que vamos ter daí para a frente. Se pudermos observar pequenos excertos de várias vidas, mais clara se tornará a escolha que queremos fazer.

Reconhecida a importância de viver uma boa vida, é alarmante a quantidade de pessoas que não são experientes no processo de ir ver casas. Quando vão a um stand de automóveis, é esperado que se faça um test drive em condições. Não me passa pela cabeça aceder a um pequeno troço de autoestrada e ter de perguntar por favor se posso acelerar acima dos sessenta. Não é preciso entrar em grandes exageros, mas também há que ter uma noção representativa daquilo que vamos ter em mãos, e que não é fácil de corrigir caso a escolha saia furada.

Veja que bonito é este piso flutuante. A cozinha é espaçosa e está bem equipada.Repare na facilidade de estacionamento e de acesso às principais vias e serviços. Podem ter animais de estimação, sim. Ah, crianças não permitimos; há que limitar o número de contaminações cruzadas e defender os moradores das discussões por causa das notas no final do período. Sim, é gás natural, não há cá botijas.

Parece-me tudo em conformidade, mas será que posso ir ali cagar?

Fazer cocó é o test drive do sector imobiliário. Não há momento mais contemplativo numa casa do que aquele que passamos de calças e cuecas pelos joelhos. Momentos contemplativos destes implicam paz, serenidade, conforto, quase como que uma espécie de meditação mal cheirosa. Eu não quero estar preocupado com a possibilidade da sanita entupir constantemente porque só aguenta com cagalhões vegan ou de menina. Salpicos então é o inferno na terra. Salpico de água de sanita no rabo é tão desconfortável como termos uma pedrinha no sapato entre os dois dedos mais pequeninos e não nos podermos descalçar. Posto isto, quantos de nós é que pediram para cagar nas casas que acharam suficientemente dignas para serem as próximas?

Eu também não pedi na altura própria, que isto é mais garganta do que outra coisa. Sei que devia ser feito, mas a vergonha de pedir é igual à de qualquer um. Por isso, cheguei a estar um bocado em pânico quando senti que havia algum rebuliço intestinal, depois de já ter as mudanças feitas.

Não adiantava adiar. Alguma vez tinha de ser.

Foi agora. Foi bom. Não é a melhor sanita onde deixei obra assinada, mas é adequada às minhas necessidades (a número um e número dois). Acho que vou gostar de estar aqui.

E agora, para que lado é a sala?

1 comentário:

Rute Monteiro disse...

brutal! Fartei-me de rir... ;)