terça-feira, 4 de junho de 2013

O desassossego de Leididi

Distraído como sou, já não fui a tempo de apanhar o grosso dos protestos contra a piada feita pela Leididi acerca da Bibá Pita. Para os que não se lembram, foi levemente sugerido que a filha que exibe mais parecenças com a Bibá é precisamente a que tem trissomia. Percebo que haja dois tipos de pessoas que se sentem ofendidas com isto: aquelas que lidam com o problema todos os dias e ainda não conseguem ter um distanciamento suficiente para conseguir brincar com isso e os desprovidos de sentido de humor. Para mim, não ter sentido de humor é, em si, uma deficiência. Tenho a leve suspeita de que a Bibá, caso tenha sabido disto, não tenha sido nem de perto nem de longe a alma que mais sono perdeu à conta disto, podendo até ter-se rido mais do que eu.

Ter sentido de humor não implica que uma pessoa rompa a braguilha sem querer por se rir de qualquer piada mais esquisita, ou que seja o próprio a contá-las. Uma das suas dimensões é precisamente a capacidade de uma pessoa perceber a lógica (ou de criar uma lógica) de uma frase humorística.

Por exemplo (esta eu gostava que se tornasse clássica):

Um pai chega a casa e apanha a filha em flagrante a masturbar-se com um pepino.

- Oh Isabel, eu não te tinha dito para não fazeres isso? É que eu ia comer isso logo à noite e agora vai ficar tudo a saber a salada!

Esta piada é boa. Não fará rir toda a gente, mas quem a perceber já terá sentido de humor. O resto vai achar que o seu autor devia ser preso porque o incesto é uma coisa séria. Claro que é sério. Se não fosse, não teria piada.

Acho que já o disse aqui uma vez, mas é impossível fazer humor sem ser às custas de alguém. Repito: é impossível. A única coisa que muda é o grau da desgraça. Caso a polícia da moral e dos bons costumes queira estabelecer um limite para o respeitinho e a sensibilidade, vai ter de abolir completamente a ironia, o sarcasmo, e a gargalhada inteligente da vida no planeta. Prefiro sujeitar-me a ser alvo de chacota do que ver instaurada uma censura plena. Eu nem sequer lido muito bem com a coisa quando alguém goza comigo, mas o problema é meu e não do humor. Não há limites de assunto para o humor; é sim necessário um sentido de humor muito mais apurado quanto mais melindrosa for a situação.

É provável que alguns dos que tentaram crucificar a Leididi sejam precisamente alguns dos que acharam muito conseguida aquela publicidade do "Acredita, eu consigo", em que se sugere (quer queiram, quer não) que pessoas com trissomia nunca poderão alcançar mais na vida do que ser tratador de cavalos, auxiliar educativa ou aprendiz de marceneiro. Eu acho esta publicidade de um mau gosto incrível, especialmente quando até houve uma série na RTP, a "Liberdade XXI" que mostra como até advogados conseguem ser. Contra esses ninguém se insurge. Toda a gente elogia a campanha e ninguém se questiona se haverá ou não ali um sentido pejorativo evidente. Mas não, a Leididi é que é a má.

Nem tudo é negativo. Esta polémica conseguiu fazer com que a autora do catálogo da La Redoute, a Pipoca Mais Doce, provasse que ainda não está senil e que ainda sabe escrever coisas de jeito como nos antigamentes. Nem tudo está perdido.

14 comentários:

S* disse...

Perdi essa polémica, não li a piada em causa, mas acho a Bibá Pitta (não sei se é assim que se escreve) uma mulher gira, extrovertida e relaxada. E a filha, mesmo com trissomia 21, é toda gira. Portanto, se a piada era suposto ofender, não ofende. Vai daí, não vejo mal nenhum nisso.

Pedro M. disse...

Eu também acho que não era suposto ofender. Aliás, nem acho sequer que se qualifique como humor negro. Quando muito é humor cinzento, de tão leve que é. Daí a alguém querer sangue por causa disto, vai um passo gigantesco.

S* disse...

Pedro M., sabes que a blogosfera tem aquele lado mau que até assusta... não podes dizer uma coisa menos boa que te caem em cima. ;)

Teresa disse...

Pois eu não comungo das vossas opiniões e desde logo porque até agora a filha da Bibá tem sido identificada como "a que tem trissomia 21". Não tem nome, não tem mais qualquer especificidade para além de ser filha da Bibá e ter trissomia 21, e ao remeter para esse facto e identificando a miúda pelo síndrome a piada só pode querer aludir a uma qualquer característica própria de quem tem trissomia 21, presumo que o atraso cognitivo.
Não sei o que o Pedro quer dizer quando se refere às pessoas que "lidam com o problema todos os dias e ainda não conseguem ter um distanciamento suficiente para conseguir brincar com isso". Ora bem, tenho uma filha com trissomia 21, chama-se Clara e há 18 anos que lido com ela todos os dias mas não consigo perceber onde está o tal "problema" com que é suposto já saber lidar e qual o distanciamento que preciso ter para me poder rir. Tenho de me rir das patetices dela? Rio, tal como me rio das da irmã e tal como ela se ri dela própria mas daí a rir-me porque alguém se quis rir de mim e a usou a ela, descaracterizando-a como indivíduo, retirando-lhe as características que fazem dela a Clara e identificando-a como a que tem trissomia 21 para melhor se perceber qual o objectivo da graça vai uma enorme distância.
Não me lixem, não me tentem dar lições sobre como se lida com a diferença, eu sei, tenho uma filha diferente, tenho uma filha que começou a andar com um ano, entrou para a escola com cinco, aprendeu a escrever e a ler sem qualquer dificuldade e que se chama Francisca e é a irmã mais nova da Clara. Ela, para mim, era a filha diferente, diferente da outra, diferente da Clara, a primeira, a que me servia de bitola.
Somos três lá em casa e se alguma coisa fazemos desde sempre é rirmos umas das outras, é rirmos umas com as outras, e a Clara, ou deverei dizer a minha filha com trissomia 21?, é a que tem o sentido de humor mais apurado, mais fino, mais perspicaz.
Lidar com o problema? Não tenho um problema, tenho duas filhas diferentes uma da outra, diferentes de todas as outras. Usem qualquer uma delas para me tentarem atingir a mim, despersonalizem-nas, reduzam-nas a um qualquer denominador comum e eu garanto que não acharei qualquer graça mesmo correndo o risco de passar por ser totalmente desprovida de sentido de humor.
Li o post da Leididi, achei que tinha sido uma piada falhada, não me senti ofendida, não acho que este alarido todo tenha qualquer razão de ser. Sou de opinião que o humor não deve nem pode ter limites mas isso não implica que tenha de me rir de todas as piadas para não correr o risco de ser acusada de falta de sentido de humor. Façam uma piada sobre a Clara e até talvez eu ache graça, é bem possível que sim, há inúmeras situações por ela criadas que são hilariantes, reduzam a Clara a um cromossoma a mais e usem uma característica que é comum ao síndrome para fazerem uma piada sobre mim e eu ofendo-me. Não por mim, por ela. E não, não cai nem tenciono cair em cima de ninguém, isto não é uma cruzada, não catalogo ninguém só porque não achei graça a uma piada que fez mas agradeço também que não me ponham, a mim e a quem mais pode não se matar a rir com a graça, uma etiqueta e me reduzam a alguém que não sabe lidar com o problema... Agradecida.

Teresa disse...

E, já agora, quando "mongo" deixar de ser uma injúria comum, tal como já o foram o "preto" ou o "panasca" talvez eu comece a achar que há pano para mangas e nos podemos todos rir, até lá há um grande caminho a percorrer e pode começar por deixar de se falar em "problema" quando se fala de pessoas com trissomia 21.

Pedro M. disse...

Teresa, é claro que é um problema. Entre ter um filho com trissomia 21 e ter um filho sem trissomia 21, qual deles preferem as pessoas ter? Isso não quer é dizer que uma criança como a Clara mereça menos amor que outra, menos respeito e tenha menos direito a ser feliz. Tem o mesmo, e ainda bem que tem uma mãe assim.

De resto, e se calhar não me expliquei bem, ter sentido de humor não é necessariamente uma pessoa rir-se de uma piada. Entendo o sentido de humor na sua base como a capacidade que temos de perceber a lógica de uma piada. Portanto, por a Teresa não se ter rido, não deixa de ter sentido de humor, desde que perceba porque é que há pessoas que a podem achar engraçada. Por outro lado fazer piadas de "panascas" e no entanto ser uma pessoa que os trata como merecem na vida real não é incompatível.

Espero ter sido mais claro agora. O meu post não era contra as pessoas como a Teresa, mas sim contra os extremistas. Já agora, fico curioso por saber a sua opinião acerca da campanha "Acredita, eu consigo". Lá está, isto sim, eu acho um bocado ofensivo, mas parece que poucos o entenderam como eu.

Pipoca Mais Picante disse...

Também não vi grande mal na coisa. Não achei grande piada mas aquele filme todo que se seguiu é mais um episódio à Pepa Channel ou algo que o valha.
E também não entendo qual é o problema de dizer que a miúda tem T21, eu não sei o nome de nenhuma delas, sei que a mais nova tem T21, é natural que a identifique assim. Isso não é reduzir ninguém a um cromossoma.
Tive um colega que era conhecido pelo Rui preto, da mesma maneira que havia o Rui do montijo. Eram uma série de Ruis, alguns eram identificados por aquilo que os distinguia. Qual é o drama?

(folgo em sabe-lo vivo pedrinho, qualquer dia torno a divagar sobre a esquerda e a direita, a ver se me vai lá dar um beijinho)

Teresa disse...

Tanta coisa para responder... :)

Pedro, há um provérbio português que diz que "quem tem filhos tem cadilhos" e parece-me que responde à questão dos problemas e dos filhos.
Entre ter um filho alto, lindo, inteligente, campeão olímpico, promessa de Nobel, primeiro bailarino, e ajuntemos qualificativos, ou um estropício que se balda à escola, é mal educado, tem bexigas na cara, olhos vesgos e queda para a marginalidade, qual deles as pessoas preferiam ter? "Desde que nasça perfeitinho" é a grande frase das grávidas e é também uma das maiores mentiras, ninguém quer o mínimo para um filho, todos queremos o máximo mas essa questão, queremos um filho com trissomia 21 ou um filho sem trissomia 21? coloca-se antes e até eles nascerem porque agora ser-me-ia impossível equacioná-la, a Clara é a Clara e a trissomia 21 faz parte integrante, não a consigo imaginar de outra forma. Sim, isto é óbvio mas por vezes precisa de ser lembrado. No entanto há quem, por opção, escolha ter um filho com trissomia 21, ou dois com paralisia cerebral, conheço um caso, e não estou a referir-me a estranhas manipulações genéticas mas a quem escolhe adoptar um filho carregadinho de problemas e a palavra chave, nestes casos, é mesmo "escolhe".

Teresa disse...

(sim, isto vai continuar, falo muito)

Teresa disse...

Os pretos, os panascas, os mongos.
Agora nem tanto, talvez por ela estar mais crescida, e crescida não implica maior, a gajinha é pequenina, mas is dizendo, quando a Clara era mais nova acontecia com muita frequência deparar-me com os olhares de espanto de quem, na fila do supermercado, a via tirar uma revista dos escaparates e em lugar de ver as figuras começar a ler. A ler, imaginem!...Ui!,a cotevelada, o olhar de lado, o bichanar, o dedo a apontar, a cara de espanto e a minha vontade de despejar o atum da lata e começar a recolher moedinhas que se é atracção de circo ao menos ponho-a a render.
Por muitas razões, morriam que nem tordos à nascença porque a política era que "não valia a pena", eram encondidos em casa, não tinham acesso às escolas e mais, muito mais, as pessoas com trissomia 21 não faziam parte do nosso dia a dia, eram os mongolóides, os pais eram os coitados que têm um filho assim e o desconhecimento, a ignorância, o segregacionismo, a discriminação, eram enormes e, atrevo-me a dizê-lo, ainda o são. Um exemplo vindo até de quem conhece bem a realidade? Quando a Clara foi para o 9º ano mudou de escola e de cidade e tivemos, eu e ela uma reunião com o grupo de apoio que a iria seguir, professoras do ensino especial. Eu falo muito, a reunião demorou, a Clara estava farta daquilo e eu pedi-lhe para fazer a lista das compras enquanto esperava. Solicitamente uma das professoras passou-lhe um papel e um pote com lápis mas só quando vi a Clara a olhar para os lápis com ar intrigado é que percebi que lhe tinham dado lápis de cor e não uma caneta ou lápis de carvão. Instintivamente o que aquela professora esperava que ela fizesse eram uns desenhos coloridos de umas coisas e não aquilo que lhe tinha sido pedido, uma lista, escrita, com letras, palavras que faziam sentido, uma lista de compras, porra!
Exemplos destes tenho aos montes - há menos de 15 dias e porque a turma dela do 11º ano ia fazer uma limpeza numa praia, um professor telefonou-me para saber como a Clarita - Clarita?!! Clarita??!!... Pum! Tiro no meio da testa. - reagia com a areia. Só por si isto já era ridículo mas se lhe acrescentarmos que ele tinha a informação que a Clara, apesar de estar no norte, viveu a maior parte da vida dela no Algarve é, no mínimo, surreal, ninguém imagina uma pergunta destas em relação a qualquer outro miúdo de 18 anos, portanto, e vamos lá ao ponto da questão, ainda há estereótipos, ainda se olha para a trissomia 21 sem se fazer a mais pequena ideia do que é, de quem eles são, o que esperar. Quando a Clara nasceu, e eu soube da trissomia, a imagem que me vinha à cabeça era o P., a única criança que conhecia com o síndrome, que passava o tempo com um fato de treino enfiado e que se atirava para cima das mesas para enfardar bolos na casa de uns amigos comuns e que era a única casa onde os pais não tinham vergonha de o levar. Há uns dois ou 3 anos, e na primeira vez que a Clara na escola teve amigos com trissomia, os pais dos miúdos quando os deixaram na minha casa para a festa de aniversário da Clara agradeceram-me comovidamente tê-los convidado, os gajos tinham mais de 16 anos mas nunca antes tinham ido a uma festa de um amigo. Surreal outra vez, não é? Esta, quer se goste ou não, é a realidade que ainda temos.
Quando eu trato o meu amigo por Paulo preto ou chamo bichona ao outro nem eu nem eles arrastamos qualquer carga pejorativa para o epíteto, finalmente e felizmente a cor da pele ou as preferâncias sexuais já só incomodam os patéticos do costume não havendo qualquer intenção de ofender, até por que não há qualquer razão para que possa ser ofensa, mas quando oiço chamar mongo a alguém sei, todos sabemos, que é sinónimo de estúpido e quer se queira quer não implica uma identificação com um tipo de pessoas que continuam a ser catalogadas como idiotas.

Teresa disse...

Publicidade?
Publicidade bem feita é isto - http://www.youtube.com/watch?v=hmdmfWQW4ig mas não arrepelo cabelos por causa da publicidade do Eu consigo. A maior parte das profissões desempenhadas pelos miúdos nos cartazes não implicam grandes capacidades? Talvez não, apesar de eu considerar que deve ser muito mais difícil ser tratadora de cavalos ou auxiliar numa creche que advogada, como o Pedro refere mas sejamos mais uma vez realistas, a campanha precisava de pessoas a sério, não de actores, e em Portugal ainda não encontramos muitos portadores de trissomia 21 a trabalhar independentemente do que são ou não capazes de fazer. Acredito, com grande pena minha, que para muitos pais, parentes, amigos de pessoas com trissomia 21 aqueles miúdos nos cartazes são uma fonte de esperança porque nem eles sabiam, ou sabem, do que os filhos são capazes e, eu vou mesmo dizer isto, talvez os faça sair à rua com os filhos sem porem um ar de desgraça e de quem pede desculpa por poder estar a incomodar. Para além disso, e esta é uma razão pessoal, a frase que a Clara mais diz e que toda a gente lhe conhece é, precisamente, Eu consigo. E a sacaninha consegue.

Pedro M. disse...

Não sei se teria o mesmo poder de encaixe, quer se tratasse de descriminação negativa ou positiva (que doi na mesma). Eu apanho um bocado mais de trânsito e já tou a chamar (normalmente ninguém ouve) filho da puta a toda a gente. É mais como mantra do que outra coisa, mas enfim.

No meu vocabulário diário mais trolha é comum utilizar preto, paneleiro, def, cigano, etc. Usamos tantas vezes as mesmas expressões que elas perdem um bocado a força e ganham novos contornos. Quando se chama filho da puta a alguém, ninguém está a insinuar que essa mãe recebe dinheiro por sexo, é apenas um sinónimo de idiota (ou outra coisa do género, conforme o uso). Idiotas todos somos de vez em quando, e alguns de nós todos os dias, o que nada tem a ver com doenças, deficiências ou diferenças de qualquer género. Mongo é raro usar, mas lá está, é irrelevante. Não me passa é pela cabeça tratar alguém com t21 de forma diferente. Gosto de pensar que uma coisa são as palavras, e outra os actos.

Teresa disse...

Não queremos chamar puta à mãe mas queremos, sem dúvida, chamar-lhe rasca, tal qual o eram os coitados dos filhos das putas.

(Esta discussão, ou conversa, parece aquela das cerejas)

Laura Ferreira disse...

Ai eu gostei dos comentários da Teresa.