sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Experiência de quase-morte

Pensava que a sensação que melhor emulava os nossos últimos momentos presos à vida seria qualquer coisa como estar deitado no sofá a ver "My Big Fat Gipsy Wedding" no TLC (o programa não se podia chamar só "My Gipsy Wedding"? Que complicação, caramba), mas não. Não tem nada a ver. Sei porque o senti na pele esta madrugada.

De repente, não reconheço o sítio onde estou. Sinto-me cansado, muito cansado. Olho para todos os lados, sei que estou a ver pessoas mas não consigo distinguir bem quem é. Há alguém que se aproxima e me pergunta "Você está me ouvindo?" Aliás, nem sei bem se é isso que estou a ouvir ou se é o meu cérebro a tentar descodificar os sons para aquilo que me parece mais próximo do raciocínio. Não, afinal não. Estou a ouvir mesmo muito mal e a maior parte das palavras parecem ser proferidas numa língua estranha, praticamente ininteligível.

Mal me consigo mexer. Se o fizer, de repente não consigo ver ninguém e isso dá uma sensação de medo maior do que não conseguir reconhecer mais do que vultos, formas, cores.

Devo estar mesmo em péssimas condições, já que todas as pessoas estão acima de mim, a olhar para baixo, a apontar na minha direcção, com vozes preocupadas. A pouca luz que ainda me servia de guia desaparece e ficam apenas as vozes, cada vez mais alvoraçadas. Um clarão repentino. As vozes, meu deus, as vozes. É isto o fim? Não tenho direito a uma segunda oportunidade? Fiz tão pouco... tão pouco de que me orgulhasse.


Afinal é só um amigo nosso que emigrou para o Brasil e faz anos. Estamos em contacto através de Skype num iPad, pousados na mesa dos salgadinhos, ao nível da cintura de toda a gente. De toda a gente não. A mãe do amigo está a olhar para nós, à mesma altura. Viraram um tablet para o outro e lá tivemos de soprar para as velas do bolo. Tinha o emblema do Benfica. O facto de ser adepto de outro clube (os simpatizantes que me desculpem) levou-me a soprar com a máxima força, de modo a que valentes perdigotos se alojassem na cobertura.

Daqui a bocado já limpo o monitor.

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