segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Paradoxos

Tatuam citações baratas nas costelas, mas depois parece que nunca leram um livro na vida até ao fim. E logo nas costelas, que deve ser um dos sítios onde dói mais. Bem, parece que não dói tanto como passar da página setenta.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Quem vê cus não vê corações

Tem de se mostrar muito interessado e ser muito educado. São estes os critérios de Indianara Carvalho, Miss Bumbum 2014, para eleger o homem perfeito. Portanto, se o Emplastro se conseguir refrear e não gritar a toda a hora que Pinto da Costa é seu pai, temos um excelente candidato ao título. Aliás, Indianara Carvalho e Emplastro poderiam fazer um par romântico muito bonito. Mas para que precisa ela do homem perfeito? Para perder a virgindade pela segunda vez. Caso contrário, não o fará.

Sim, pela segunda vez. Indianara reconstruiu o hímen porque recebeu um convite para posar nua numa revista. Ela achou que devia inovar. Posar nua é uma coisa séria e ela queria aliar a nudez à pureza, numa tentativa de se mostrar como veio ao mundo. Da minha parte, acho importante acrescentar que, quando vimos ao mundo pela primeira vez, as nossas capacidades cognitivas são uma pálida amostra daquilo que irão revelar no seu máximo potencial; apesar deste pormenor não estar na ideia original da modelo, tenho de considerar o objectivo final cumprido na sua plenitude.

Temo que não seja desta que o Emplastro vá perder a virgindade (no caso dele, a primeira, a verdadeira), visto que Indianara já encontrou o homem perfeito, para quem se entregou num momento mágico. E quanto tempo durou a magia desta segunda virgindade? Quase... quase um mês, revela Indianara. Chiça, que foi rápido. Não se sabe quem é o gajo; Ana Lúcia Matos* bem tentou saber quem tirou a virgindade (por estes termos, que não há como lhes fugir) à moça, mas sem êxito. Não acho que a apresentadora do Flash Vidas tenha estado mal neste pequeno insucesso, já que só pelo facto de não se ter borrado a rir ao longo dos vários minutos de entrevista, já merece todo o meu respeito.

Imagino que, se este novo namorado se revelar um animal, como todo o bom homem, no fundo, faça uma nova operação. À terceira virgindade é de vez. Mais algum tempo de persistência, tipo, vá, uns quatro ou cinco dias, e encontrará o derradeiro. Talvez ainda não seja o Emplastro mas, todos os dados apontam para que haverá outras oportunidades. Não tenham pena do moço do norte.

De repente, rirmo-nos daquelas raparigas que dão apenas o rabo para poderem continuar a gritar com firmeza que são virgens, não me parece tão correcto. Cristo, na sua infinita bondade, aprovou a prática das primeiras (eu continuo a achar que é batota, mas ele saberá mais do que eu), mas resta saberá se também estará do lado de Indianara.

Quando confrontada com a possiblidade de ter sido sujeita a alguma intervenção estética na zona das nalgas, Indianara rejeita a premissa. Basicamente, na cabeça dela e na minha, uma peida natural na mão vale mais do que duas artificiais a voar. No entanto, meteu mamas novas porque não se sentia mulher o suficiente. Coerente.

Caso tenham lavado a loiça toda (homens e mulheres, que o prato não sabe quem o está a lavar) e tenha sobrado um tempito até à próxima tarefa, deixo-vos aqui o vídeo:

Miss Bumbum 2014 fala sobre operação para recuperar a virgindade


*Caso em Portugal queiram organizar uma variante masculina deste concurso do bumbum, há que dar crédito à própria Ana Lúcia pela descoberta de alguns possíveis talentos. É que, a julgar pelas vencedoras, os pandeiros variam um bocado, o que me faz desconfiar que não será necessariamente o cu o principal requisito. O que é transversal a todas, isso sim, é serem meio surdas da cabeça. Puras como vieram ao mundo, portanto. Transcrevendo um comentário de um admirador a uma foto da apresentadora, pode-se ler "es muita boa a doro de ver esse teu corpinho secki gostava-te de te conheser-te pessoal mente amorosa muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitos beijinhosssssssssssssssssssssss". Eu não punha as coisas nesta forma, embora esteja de acordo com o propósito. Agora, mais puro do que isto, não há.

Vais conhecer a Ana Lúcia, Tiago Filipe, vais ver.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Amor a meias

        Só mesmo quando uma pessoa ergue as mãos aos céus e pede para que um elástico se alargue um pouco é que a força misteriosa que nos rege teima em não anuir. Eram as meias mais fantásticas de que há memória na história recente da minha gaveta de roupa interior, mas caralhos me fodam se aquelas marcas de falta de circulação não eram o presságio de morte por algum tipo de condição ligada a uma deficiente irrigação sanguínea. Aliás, aquilo não eram marcas; eram autênticos sulcos de um qualquer leito de rio, embora se situassem acima do tornozelo e não pelos lados de alguma terra plantada arriba tejo. Afinal, quem teria a coragem necessária para mandar fora umas meias perfeitamente intactas, que não mostravam sinais de enfraquecimento nem no dedão nem tampouco no calcanhar, logo abaixo do tendão que comprometeu o bravo Aquiles? Seria como uma família de classe média-baixa doar um filho recém-nascido para adopção só porque ambos os cônjuges tinham acabado de saltar de escalão de IRS, negando a hipótese de aceder, nesse ano, ao último terminável móvel topo de gama a prestações, com um pacote com mais minutos do que aqueles que seriam capazes de gastar se ainda tivessem amigos ou toda a família viva.

        Não se deitam fora meias que sobreviveram a casamentos, baptizados, funerais, até a vários jogos de futsal a meio da semana, só porque causam um ligeiro desconforto que nos deixa a sensação leve de que podemos morrer. Não, aprende-se a lidar com a dor, essa insaciável companheira, e tomamos para nós como certo o compromisso de que aquelas serão as luvas dos pés que nos protegerão do frio mesmo no dia do nosso próprio funeral, em si pequenitos caixões das nossas extremidades mantidas unas na caixa que será nossa morada última na breve passagem por este nobre corpo celeste. Em função do odor a que a zona obriga, este é um amor austero mas, minhas queridas meias, adorar-vos-ei até ao meu último sopro ténue de vida.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dantes é que era bom?



Ao contrário da opinião de cerca de 99% dos comentários no facebook da revista que "postou" originalmente esta foto, tenho apenas uma coisa a dizer:


Que infância mais merdosa!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ser-se de esquerda nos dias que correm

Não julguem que é por falta de solidariedade; eu próprio sou meio canhoto, já que escrevo (entre outras coisas) com a mão direita mas chuto com o pé esquerdo. Percebo que haja coisas que tenham de ser adaptadas para essa realidade, mas não consigo perceber a reivindicação de que se tenha de fazer tudo para canhotos.

Por exemplo, não há pianos para canhotos. Então, assim sendo, porque é que se faz tanta fita para que haja mais modelos de guitarras para canhotos? Estamos a aprender uma coisa nova de raíz, que exige actividades independentes às duas mãos, embora sincronizadas, o que nivela o patamar para ambas as orientações. Quanto muito, os canhotos estão em vantagem, já que se exige muito maior memória muscular e movimento fino à mão esquerda do que há direita.

 Fazendo uma pesquisa rápida, até flautas para canhotos há. O que se segue a seguir? Pilas para canhotos? Umas mais entortadas para um lado e outras para outros? Então e se o possuidor da pila canhota tiver uma namorada destra? Não se pode sentar ao lado dele para proporcionar algum auxílio em horas de necessidade? Terá obrigatoriamente de se posicionar à frente dele? É que, parecendo que não, o contacto visual pode ser desarmante para algumas pessoas em determinadas situações. Para mim não, que sou um animal.

Vejam lá isso.

sábado, 22 de novembro de 2014

E ainda não é Natal

O que terá sentido José Sócrates quando passou mais uma vez pela placa com o seu nome, revelada pela primeira vez na inauguração do Campus de Justiça?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Episódios de uma adolescência pouco desabrochada

Tocar guitarra sempre foi um catalizador para perder alguma da minha timidez natural. Quando comecei a aprender e a entusiasmar-me mais, lá para finais do secundário, tentei até participar nalgumas bandas com as poucas pessoas que se cruzaram no meu caminho, resultado da junção de uma cidade pouco musical com a minha introversão.

Ao princípio, a minha falta de destreza a minha personalidade pouco cativante e, mais tarde, a minha personalidade pouco cativante a minha falta de destreza, fizeram com que essas pessoas não me aceitassem ou que, no caso de se tentar fazer algo, o seu fim fosse quase sempre célere.

Farto da situação, e aproveitando um rasgo de estupidez, decidi que ia ser eu a montar a minha própria banda, assumindo-me como o líder que, até então, nunca tinha sido. Falei com algumas pessoas, aproveitei um conhecido ou outro que aceitou prontamente o convite (não deviam ter, provavelmente, muita coisa para fazer na altura) e coloquei um anúncio na loja de música mais frequentada da zona (ser a única, pelo menos que eu conhecesse, ajudava), aconselhado por um dos tais conhecidos.

Surpreendentemente, em poucos dias arranjei dois dos membros de que precisava. Ficou apenas a faltar um vocalista, já que eu, embora assumindo as rédeas, não queria ficar na posição desconfortável de gajo que dá a cara e sofre as consequências. No fundo, preferia arredar a hipótese de levar com lingerie feminina na cara num dia bom mas não ter também de levar com cerveja morta e tomates podres num dia mau. Aliás, sempre que eu acordava, preparava-me para ter um dia mau. Os pessimistas são as pessoas mais felizes do mundo. Quando corre mal, merecemos; quando corre bem, fantástico, vamos aproveitar ao máximo o momento. É uma espécie de "carpe diem" dos pobres.

Desta vez, embora a estratégia passasse por insistir no esquema dos anúncios, que tão bons frutos tinha dado há uns dias, achei por bem tirar aquele que já tinha e limitá-lo apenas à procura de um ou uma vocalista, solicitando expressamente a marcação de uma audição. Na altura, as minhas referências tinham todas voz, e nem imaginava que hoje em dia teria um pendor especial para a música instrumental (termo que odeio, porque a voz também é um instrumento, e é impossível fazer música que não seja instrumental).

Não sabendo precisar os dias que se passaram desde a alteração dos parâmetros de pesquisa ao primeiro contacto telefónico sei, isso sim, que as únicas pessoas que ligaram foram, para minha sorte, adolescente de hormonas mais efervescentes que peta zetas, duas raparigas possuidoras de vozes adoráveis. Lembro-me do nome da segunda, Joana, mas não do nome da primeira. Chamemos-lhe, assim sendo, de Vanessa.

Pelo teor da conversa, a Vanessa estava à espera de que a tal audição fosse feita para fins um pouco mais  profissionais, e não para começar apenas mais uma típica banda de garagem (ou de sótão; prefiro banda de sótão; garagem soa-me sempre a barulho e desafinação). Não sei se foi o desespero para fazer parte de alguma coisa e poder cantar, mas a verdade é que desejou saber mais.

Vanessa - Então e onde é a audição?

Pedro (sem sequer ter pensado nisso antes) - A audição é no meu quarto.

Silêncio. Ao ouvir o eco da frase, como se não tivesse sido eu a dizer mas outro gajo qualquer, percebi logo como soava mal. Ficámos os dois calados um momento, até ter sido ela a decidir quebrar o impasse.

- Mas olha que o meu namorado é capaz de não achar bem.

É certo que a argumentação não foi a melhor mas, para todos os efeitos, eu ainda morava em casa dos meus pais e a minha vida desenrolava-se quase toda no meu quarto. Não ia marcar uma audição numa sala cheia de enciclopédias ou na cozinha. Mas pronto, não mais ouvi falar da Vanessa, fruto da minha falta de capacidade de desenrasque com o sexo oposto (bem, e com o sexo em geral).

A segunda miúda a ligar, que se chamava Joana, não devia ter namorado (ou então tinha mas não era o mesmo da Vanessa), porque eu voltei a meter a pata na poça e, mesmo assim, dias mais tarde estava com uma gaja giríssima enfiada no quarto, a quem eu só tiraria aquelas Doc Martens gigantescas e coçadas, aproveitando também, para descer o nível da maquilhagem de um onze para um três. De resto, não mudaria mais nada.

Com tantos pormenores na ponta da língua, não me consigo lembrar do que foi feito dela, já que, para além de cantar, ainda sabia tocar guitarra. Estivemos entretidos um bom bocado, o que sugeriria novas possibilidades de contacto. Mas não; não andávamos na mesma escola, os putos não costumavam ter telemóvel, e apesar dela ter o meu número de casa, não voltou a ligar e perdi-lhe completamente o rasto.

Hoje em dia, embora a minha capacidade de relacionamento com outros seres humanos tenha aumentado exponencialmente, dou graças à democratização da tecnologia. Permite-me estar a gravar a nova música que comecei hoje sem a ajuda de ninguém, sabendo que a minha namorada não se vai chatear por haver Vanessas e Joanas sentadas na minha cama com saias bem curtinha.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Jobs for the boys

Acabei de passar por uma caixa de electricidade que tinha sido vandalizada recentemente. Nela podia-se ler a frase de enorme sensibilidade "Pretos Fora". É também de grande sensibilidade o seguinte: adivinhem qual foi a criatura a quem incumbiram a tarefa de voltar a pintar a caixa.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Já não há ilusões



Lembro-me de uma vez ter visto a Sic. Já foi há muitos anos, mas ainda o recordo com um misto de mágoa e saudade. Eram tempos em que não quase ninguém tinha internet, quanto mais a perspectiva de gravações automáticas. Tínhamos de deixar a vida em suspenso se queríamos ver alguma coisa de que gostássemos, coisa que os putos agora, provavelmente, nem devem perceber.

Dizia eu que uma vez tinha visto a Sic. Talvez não o tivesse feito se não tivessem andado a anunciar exaustivamente que o guitarrista dos Guns N' Roses ia apresentar num programa português dois temas do seu primeiro álbum a solo. Salvo erro, a banda andava a atravessar um mau bocado (acho até que já se tinham separado oficialmente e tudo), após aquela tentativa falhada de álbum de covers cuja tradução em português duvidoso era "O incidente do esparguete". Por muito limitados que os Rolling Stones sejam, o mundo não precisava que outros andassem a fazer versões do Sympathy For The Devil piores que o original. Em suma, fazia sentido que houvesse uma separação e andassem a tentar lançar carreiras a solo, gerando idas a programas de televisão como forma de publicidade.

Liguei a televisão, suportei anúncios, um talk show/concurso miserável e artistas portugueses condizentes com o programa, já que nunca temos a certeza quando vai dar o bocado em que estamos interessados. Uma ida à casa de banho podia ser fatal; já muitas bexigas e/ou cuecas se estragaram à conta disso.

Finalmente, anunciaram com pompa e circunstância a tal apresentação dos novos temas do álbum a solo do guitarrista dos Guns N' Roses e lá nos aparece um americano exuberante com sua banda, daqueles tipos de exuberância que não havia em Portugal naquela altura até ter aparecido o "Ídolos" e termos achado de repente que éramos todos os artistas e que podíamos ser homens, dançar em palco como o Mick Jagger e o Axl Rose, e ainda assim ter esperança de engatar gajas (mas não, somos portugueses; boina na cabeça, pose séria e sofrida, e alternância nas mãos ora da enchada ora da rolha da garrafa de vinho verde que trouxemos com a merenda).

Só que o americano era o Gilby Clarke. O Gilby Clarke, caralho. Que eu me lembre, em todas as formações dos Guns N' Roses, houve apenas um guitarrista, e tudo o resto são apenas bandalhos agarrados a paus com cordas (facto que recordei em 2010 ou 2011 quando fui ver aquele concerto deplorável no então Pavilhão Atlântico). A Sic devia ter-me dado o Slash. Perdi uma hora e meia da minha vida, em que podia ter estado no sofá a jogar Mega Drive ou Sega Saturn (lá está, não me lembro do ano).

Passados estes anos todos já não guardo rancor à Sic, e de vez em quando até lá vejo o Telejornal. Não há rancor porque agora há a CMTV, embora seja melhor do que eu estava à espera no início (cada um que decida se eles se superaram ou se as expectativas eram mesmo baixas). Já não há ilusões. Se eles tivessem feito o mesmo anúncio, na melhor das hipóteses, ou aparecia o gajo que mudava as cordas ao Slash, ou o Paco Bandeira.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Se duas pessoas...

... que partilham casa e, convenientemente, o leito, decidirem que o seu jantar será nada mais, nada menos (ok, confesso, bem mais) do que um quilograma de castanhas assadas, quão irrespirável ficará o ar da divisão em que se encontra o supracitado leito? Pior do que uma feijoada a horas tardias? E se se empurrar tudo com Ice Tea de limão? A nocividade reduz-se ou é agravada?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Note to self

Nunca espetar com fotos da mulher e do puto recém parido na cama do hospital no facebook. É desonesto capturar os piores momentos de uma mulher e partilhá-lhos com o mundo. Há grávidas muito bonitas, dependendo da altura; ali, oito vezes em dez, vai parecer apenas uma porca cansada com o seu bacorinho enrugado acabado de nascer. Sorrir não torna as coisas melhores, nunca foi a receita mágica para a beleza. Que um ex-marido mais tarde o decida fazer como vingança, ainda é como o outro, embora qualquer juíz de mente evoluída o vá condenar por difamação, em caso de processo (devia ser um crime público, dispensando a iniciativa da visada). Na minha opinião, é pior do que partilhar o vídeo daquela sex tape que jurámos apagar do cartão de memória, onde ela ao menos ainda estava boa.

É que nós, homens, somos no dia do parto exactamente aquilo que fomos no dia anterior e o que seremos no dia a seguir. Já a vossa mulher irá deixar uma marca indelével na cabeça de quem não estiver à espera daquela visão do horror no seu mural, que se irá sobrepor na memória, inevitavelmente, à glória que ela exibia há nove meses atrás, ou que irá novamente exibir dali a mais alguns caso largue prontamente os M&M's.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ao menos não são unhas de gel com decorações estúpidas

- Vai escolhendo o filme enquanto eu limo as unhas.
 - Hmmmm.

- Agora não, que o verniz ainda não secou!
 - Hmmmm. 

- Pára com isso, ainda me vais deixar com marcas nas unhas.
 - Hmmmm. 

- Olha para este brilho. Estão lindíssimas, não estão?
 - Hmmmm. 

- Se quiseres fazemos as unhas juntos.
 - Hmmmm. 



Imagino que não seja só em minha casa que estas frases são repetidas até à exaustão. Este é aquele tipo de diálogo em que a única resposta adequada a uma frase perfeitamente banal e fútil é um murmúrio desinteressado. Nós não somos excepção, excepto num pequeno ponto: nos últimos tempos quem fala das unhas sou eu e quem não gives a fuck about that shit é ela.

Confesso, ando a meter verniz nas unhas das mãos por causa de um cabrão de um fungo. Já tinha uma ligeira descoloração numa delas há algum tempo, o que não me teria preocupado muito se nos últimos meses a condição não se tivesse propagado para outras. Isto levou-me a fazer o que qualquer pessoa preocupada com a saúde faz, que é ir googlar aquilo que aparentemente lhe aflige e correr para a farmácia mais próxima para poder proceder à automedicação.

Até agora não senti grandes efeitos secundários, tirando o facto de a minha voz estar mais aguda e fina, o meu feitio estar mais instável, e andar a raspar demasiadas vezes em caixotes do lixo e outros carros quando tento estacionar em paralelo. Às vezes até solto uma lagrimita quando reparo que a pintura está um bocadinho mais raspada do que o habitual. As flores nunca cheiraram tão bem como agora, e derreto-me toda sempre que vejo bebés. Porra, todo. Sniff.

Agora já recuperei a autoestima, tendo em conta que o meu palpite diagnóstico estava correcto. Elas estão a recuperar o fulgor de outros tempos, mas na altura fiquei um bocado abalado. Quando o único elogio de que nos lembramos de receber em criança é o facto de se ter mãos de pianista, é lógico deduzir que o abismo está já ali ao lado quando perdemos aquilo que tínhamos de melhor. Aliás, eu acho até que se tentasse, teria uma excelente carreira como modelo masculino de mãos. Bem, pelo menos como modelo masculino de mãos esquerdas, já que quando tinha nove anos, um ligeiro acidente com uma farpa numa traineira a caminho das berlengas fez com que desenvolvesse um panarício precisamente no dedo que mais se utiliza à hora de ponta em Lisboa. Não fiquei a parecer um mãos de def, mas a ligeira assimetria com que fiquei na unha e no dedo acabou por virar os holofotes para a outra mão.

Foda-se, estão a ficar mesmo bonitas pá. O corpo das unhas está mais longo, forte e opaco, com uma curvatura da borda livre tão perfeita que mais parece manicure francesa feita por deus. E este brilho... ai este brilho. Começo a ficar viciado nesta porcaria. À conta da obrigatoriedade de aplicação diária, estou a ficar tão pró com o pincel que me habilito seriamente a conseguir a nacionalidade brasileira em tempo record.

Fiz a promessa a mim mesmo de que, assim que acabar o segundo frasco, não volto a consumir pintar. É que o pior efeito secundário de todos, e que está gravosamente omisso da bula do fármaco, é a cara de nojo com que a mulher olha para o seu homem depois de proferir uma daquelas maricagens do início do texto. E assim, consequentemente, quanto mais lindas ficam as de um homem, menos vontade tem uma mulher de cuidar das dela.

sábado, 27 de setembro de 2014

Spared no expense!

A minha namorada recebeu a seguinte carta:


Exma. Senhora,

A Marionnaud no seu aniversário dá-lhe a maior prova de amor!

Porque o seu aniversário é para nós uma data muito importante, queremos contribuir para que este seja inesquecível!

É com o maior prazer que lhe enviamos um cheque de 7,5€, que poderá descontar numa das nossas perfumarias, comprando o presente especial para si própria e desfrutá-lo no seu aniversário.


yadayadayada


Nesta data tão especial, dedique a si própria esta prova de amor!

Aguardamos a sua visita.
Feliz aniversário,

Marionnaud Paris,
Todos os dias provas de amor


Perante isto, preciso que me confirmem uma coisa:

Se lhe puser sete euritos e cinquenta cêntimos num envelope, já dá uma boa prenda, não dá? Queria cumprir bem o meu papel de namorado e garantir que ela tinha um aniversário perfeito com provas inequívocas do meu amor...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ditador fraquinho

Gostava de ser ditador. Juro que gostava. A ideia não era ser um homem implacável, de quem o povo tivesse medo. Seria um gajo porreiro na mesma; simplesmente queria beneficiar da margem de manobra para, de modo célere, acabar por decreto com certas coisas que me enervam. Claro que se alguém fosse apanhado a dizer mal de mim, era atá-lo com uma corda a um cavalo selvagem e disparar um tiro para o ar. No meio de silvas e pedregulhos.

Dou-vos um exemplo: acabava com a música pimba nos programas da tarde da televisão generalista. Melhor, acabava com aquele tipo de formato de vez. Logo se via qual seria o melhor substituto. Se calhar, proibir totalmente não é a melhor forma de lidar com o assunto, já que os parolos também têm o direito ao entretenimento. Pronto, mudava apenas o horário para as cinco da manhã, eliminando a possibilidade de usar a box para gravar e ver mais tarde. Quem quiser mesmo, há-de arranjar maneira de se desenrascar.
 
Hoje acordei com vontade de acabar com as selfies. Já muita gente disse mal delas mas, até há bem pouco tempo, não me faziam confusão (ao contrário daquela bardamerda das fotos das mãos em forma de coração com o caralho do sol lá dentro). No entanto, bastou-me ir ao mercado de Campo de Ourique à noite (que depois da renovação se tornou um dos locais por excelência para essa pratica fotográfica do demo) para fazer parte do grupo dos que as odeiam de morte (precisamente o tipo de ódio que não convém que haja no coração de um ditador). Estavam três fashionistas, duas magritas e uma mais lontra mas com esperanças de futuro (por acaso até das mais bem vestiditas, tadinhas, e não daquelas pindéricas com colares gola e nhonhozices que tais) a jantar numa mesa. Utilizo jantar de forma figurativa, já que as tipas sacam dos tablets e dos smartphones do coldre, que nem pequenas Steve Jobs do faroeste, e começam a tirar fotografias a elas e à comida como se a sua vida dependesse disso. E isso, quanto a mim, não é comer. Ai amiga, só mais uma assim, só mais uma assado, e por aí fora. Isto durante DEZ minutos.

A educação, por vezes, some-se do corpo, presumindo eu que tenham ouvido da minha boca pérolas como "tanta criança com fome e essa comida toda a arrefecer à conta da vossa mariquice". Bem, desta frase lembrei-me eu só agora; na realidade foram coisas que envolviam pénis e formas verbais do verbo fornicar em voz alta. Falta uma vírgula a seguir a fornicar. Não é que não se possa fazê-lo em voz alta, mas eu é que disse fornicar muitas vezes com volume superior ao socialmente aceite. Assim muitas vezes, tantas quanto as que escrevo agora ao abusar do preciosismo nos detalhes.

 Eu sei que é irracional e mesquinho preocupar-me tanto com este tipo de futilidades, ainda para mais quando aquilo que me irrita costuma ser completamente aleatório. Mas, não tendo eu poder para acabar com aquela prática, tinha esperanças de que pelo menos a gorda estivesse completamente desesperada para começar a comer e tentasse fazer ver às amigas que aquilo assim não podia ser e que era uma falta de respeito para os epilépticos que estavam a apanhar com os flashes nos olhos e que tudo o que é demais enjoa. Mas não, era a mais contente das três.

Suspeito que ela sabia o que se ia passar e que, antes de chegar ao mercado, esteve a enfardar dois palmiers cobertos e uma bola de berlim. A maquilhagem dela não tinha pupurinas, aquilo era açúcar nas beiças.

sábado, 13 de setembro de 2014

Expressão capaz de inundar de terror o mais rijo dos homens

- Amor, vamos à Vogue Fashion's Night Out?














Outra expressão do género é quando, durante as entrevistas, a entrevistada é sempre a típica tiazoca (tenha vinte ou quarenta anos) de voz afetada, que face a um pedido de avaliação do evento, diz sempre que é óptimo, que é uma noite giríssima cheia de gente gira e de glamour. Quando não é uma gaja é um tipo qualquer de pullover aos ombros, sapatos de vela e calças cremes tipo JSD/JS. A resposta é também blah blah "gente gira e glamour". Os meus intestinos estremecem de cada vez que oiço isto. É igual ano após ano após ano. Falam como se os pobres e os mal vestidos não tivessem lugar no mundo e esta fosse a melhor noite PORQUE SÓ SE VÊ GENTE GIRAAAAAAAAAAAAAAAH, TÁ A VER. Ao menos finjam que são gente decente e despreconceituosa, que é o que eu faço.

Se eu fosse repórter, não me focaria tanto no evento. Perguntaria antes qualquer coisa do género "a senhora usa o seu bidé regularmente" ou "que tipo de música gosta de ouvir quando faz cocó". Seria apenas um teste para ver o seu grau de surpresa e se saberiam reagir atempadamente. Temo que o resultado final não fosse muito diferente do observado e levasse com um "ai, adoro, só se vê gente gira com muito glamour".

Poderia alongar-me mais, mas estou atrasado. Vou passear um bocado ao Sunset Moscavide. Tchau, babes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Paralelismos improváveis

Quem conhece a famosa escultura de Auguste Rodin, conseguirá visualizar na perfeição a postura que adoptei nos últimos três dias. Para muitos, parar para pensar é uma perda de tempo; para mim, estes períodos de seclusão alcançam sempre uma finalidade prática, que me faz crescer enquanto ser humano e membro de pleno direito de uma sociedade que caminha rumo ao conhecimento pleno.

O que, numa primeira análise, poderia ser uma incompatibilidade de género, tornou-se para mim num paralelismo claro e objectivo. Álcool e papel higiénico são duas coisas que andam de mãos dadas e ninguém o sabia até hoje.

Quando queremos esquecer fases menos boas das nossas vidas, ou quando apenas precisamos de nos libertar de alguns dos nossos mais castrantes filtros, o álcool, até certo ponto, é o nosso melhor companheiro. Se o objectivo é apenas a mudança de consciência, qualquer coisa serve. Se qualquer coisa serve, faz sentido que se opte pela opção mais barata. De facto, numa semana académica, a título de exemplo, ninguém se passeia pelo recinto agarrado ao seu copinho de plástico contendo dois ou três dedos de Bushmills. Cerveja chega, não nos leva à falência, e permite até controlar o ponto de rebuçado da bebedeira com mais eficácia, sem correr o risco de ir parar às urgências do hospital mais próximo. Nem sequer é preciso uma cerveja de marca.

Porém, em momentos de excepção, seja para festejar alguma efeméride ou para saborear de vez em quando na presença de amigos, convém que haja sempre na nossa garrafeira particular uma ou duas garrafas de algo mais refinado. Não se pode atribuir um preço a momentos de felicidade, e a finalidade passa a ser o prazer de beber em si e não um mero caminho para a perda de consciência.

Do mesmo modo, quando precisamos de fazer cocó, qualquer papel higiénico serve. Sempre que no Continente passamos perto da respectiva secção, eu próprio pergunto em voz alta (às vezes alta de mais) para a minha senhora se "temos papel de cagar", nutrindo um total desprezo pelas marcas. Lá está, aquilo vai tocar na coisa mais vil que há na existência humana. Havendo recursos limitados, prefiro sempre gastar mais dinheiro numa boa alimentação do que nas matérias primas referentes ao subsequente processo da sua eliminação.

Mesmo assim, e citando uma frase que os pobres costumam dizer muito, "um dia não são dias". De vez em quando temos visitas em casa, e aí nunca fica mal que sejam presenteados com a melhor colheita de Renova Vintage disponível no mercado. "Vocês devem estar bem na vida, este pack de 24 rolos custa um dinheirão, mesmo quando há 50% de desconto em cartão". Ponham o vosso melhor sorriso, façam de conta que não se passa nada, e passem a bola para o outro lado com um "o quê?! não me digam que vocês limpam o rabo com marca branca..." carregado do mais subtil pedantismo.

Não é esta, no entanto, a altura em que um bom papel higiénico pode fazer a diferença. Como já vos tinha dito, se tirarem a barba e substituírem a pedra por uma sanita, eu sou a coisa mais parecida à face da terra com a escultura supracitada. Parece que deus me andou a fazer clísteres tão violentos quanto sucessivos nos últimos dias. Parecia a miúda do exorcista, so que em vez da cabeça e do pescoço eu rodava era da cintura para baixo. É sempre por causa de alguma coisa que comi, como toda a gente diz, e não porque o cabrão, quando lhe dá para isso, é capaz de ser dos gajos mais sádicos de que há memória. Somos sempre pecadores, nunca santos. Tenho o cu todo rebentado, e nada disto teria acontecido se tivesse na minha dispensa uma pequena reserva do papel mais suave que há, reservado para ocasiões destas, em que a necessidade ocasional fala mais alto do que a funcionalidade primordial.

Um dia não são dias. Para a próxima estarei preparado.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A origem das coisas só se percebe perto do seu fim

Há já alguns meses que, indo na rua e avistando um carro que gostasse muito de ter, começo a exclamar  a expressão "é tan liiiiiiiiiiindeeee!" (variando o volume consoante a proximidade das outras pessoas), como se fosse um lelo a vender meias na feira de Carcavelos.

Demorei séculos a perceber porque o faço; espero que, sabendo a razão, consiga parar com esta mania irritante. Provavelmente não vou conseguir.

A verdade é que só o digo porque, neste momento, a única maneira de os conseguir ter era se os andasse a gamar.

domingo, 24 de agosto de 2014

Balde meio cheio ou meio vazio

Tenho um sério problema com modas; quanto mais gente se mete a cumprir o Ice Bucket Challenge, mais me torço todo de vergonha alheia. Já toda a gente o fez, só restam os "famosos" de terceira linha, chegando a um ponto em que toda a gente se tá a cagar se mais este ou aquele gravam ou não o despejo de água gelada através do seu smartphone. Aposto que se for pesquisar por "Batatinha e Companhia banhos públicos" no youtube, alguma coisa há-de aparecer.

Nem tudo é mau; não só a causa é importantíssima, como se conseguiu que algumas pessoas em Portugal que eu nunca pensei que o fizessem se pusessem a tomar banho, ainda que não passasse por mais do que uma lavagem à gato.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Como se o mundo precisasse de mais bloggers de moda, exercício, comida e afins

Acordou-me a meio da noite. Sim, sete da manhã é uma possível definição para o mais sagrado dos meus estados vegetativos.

- Lembras-te de que combinámos ir correr antes do trabalho?

- AS#$!!!DFJ««K#$%&&(/$.
Levantei-me e fui preparar o meu pequeno almoço. Neste estado grosseiro de motricidade, isso resume-se a um degradante leite magro com chocolate. Em resposta a qualquer coisa debitada por ela, em tom altamente energético, não consigo mais do que levar os dedos aos lábios, imitando a voz do Stephen Hawking, dizendo qualquer coisa genial, do género "my name is Stephen Hawking". O meu cérebro não dá para muito mais; estando já a cambalear, achei mais importante impedir o contacto dos meus cornos com o chão. Piadas inteligentes poderão sempre ficar para depois.

E assim lá fomos nós ser testemunhas de um ajuste de contas no meio da rua (a que horas acham que essas merdas acontecem?). O treino até começou bem porque dei logo pela falta de cem kilocalorias ao escorregar com os meus ténis gastos na calçada em direcção ao local da corrida, mais à conta do susto que do esforço físico. Chamemos-lhe apenas de aquecimento.

A vista a partir daquela zona do Parque das Nações é particularmente inspiradora. A luz é perfeita e o cheiro é calmante; o vento àquela temperatura faz-me festinhas no lombo, como se voltasse ao conforto da minha cama. O problema é que, apesar da hora, há várias pessoas a correr, com aquele ar de felicidade meramente por se estar vivo e ser-se saudável, todos muito mais bem vestidos do que eu. Detesto gente com ar feliz, especialmente se não tiverem tido a mesma ideia de pegar numa t-shirt velha. Recuso-me a comprar roupa pipi e um Iphone quando o objectivo é apenas suar que nem um porco, deixando nesse processo, curiosamente, de ter ar de porco para enchidos.

Alguns quilómetros depois, chegamos a casa com o sentido de um dever comprido. Devia lembrar-me de que quanto mais me afasto, mais tenho de andar para conseguir voltar. Eventualmente poderei sempre chamar um táxi. Mesmo estando suado, não há que ter vergonha. Na maioria dos casos ainda estamos a cheirar melhor do que quem nos leva.

E pensar que nada disto teria acontecido se eu não estivesse constantemente ao espelho a dizer-lhe que estou gorda.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

É parecido, mas não é bem inveja

Gostava de ter trezentos euros soltos a fazer comichão no bolso e ir fazer aquele curso. Pegava numa mão cheia de gente, como a minha namorada, a Pipoca mais picante, a Filipa , a Salsicha, o Maradona, o Tolan e outros que tais, e matriculavamo-nos todos. A oportunidade de divertimento é dupla, já que há perspectivas de que os restantes formandos sejam tão inspiradores como os formadores.

Acontece que não tenho trezentos euros orfãos de obrigações. Embora a certeza de que conseguiria fazer um trabalho tão bom como o seu promotor seja quase absoluta (após apreciação dos módulos e tendo em conta o seu próprio trabalho), não acho que seja qualificado para tal, não tenho lata, e não acredito que o assunto seja assim tão relevante. Mas lá está, é por isso que eu sou um miserável e não tenho os tais trezentos euros.

sábado, 9 de agosto de 2014

Um conselho de borla a todas as marcas

Não invistam em textos publicitários em blogs.

Não devia ser preciso desenvolver, mas eu ajudo. Esta plataforma sempre se pautou pela partilha de experiências pessoais, mais no feminino do que no masculino. Eu comecei o meu porque tinha vontade de partilhar com o mundo os variadíssimos traumas que tenho com o acto de fazer cocó, lidar com gajas e comida. Hoje em dia o objectivo é outro, mas não deixa de ter uma forte componente pessoal. Com as mulheres é a mesma coisa, só que o assunto era mais ligado à componente das mariquices indistinguíveis, tipo bebésroupasapatosdietasjámeperdi.

Hoje percebi que toda a gente andava a falar de margarina e não conseguia perceber porquê. Parece que foi publicado um post com fofuchices, que por sua vez ia desembocar nas memórias passadas a comer Planta com os dedos, assim sem mais nem menos.

Quando começamos a ler alguma coisa e percebemos umas linhas mais abaixo que tudo aquilo não passa de publicidade encapotada, e que se submetermos uma frase até podemos ganhar uns brindes quaisquer, dá-me vontade de não voltar a comprar aquela marca. A Vaqueiro, sem saber, já ganhou pontos à custa disto (agora não me venham dizer que a Vaqueiro também é da Unilever e isto não passa de uma estratégia baseada em metagames para aumentar a procura de uma em detrimento da outra). Eu sei que a senhora tem filhos e há que os meter na universidade, mas porra.

Há uma única pessoa em Portugal que consegue safar-se por entre os pingos da chuva, no que diz respeito à publicidade no blog. Toda a gente sabe quem é, e mesmo assim desafio qualquer um a dizer que aquilo não é mais do que um fantasma do excelente blog que foi nos primeiros anos. Não há outro caminho, mais vale assumir sem grande problema que se está a promover uma marca. Tudo o resto é tempo, dinheiro e brindes desperdiçados.

domingo, 3 de agosto de 2014

Não é suposto as gajas...

...que beijam o camisola amarela no final da etapa serem sempre mais grossas do que as que beijam os outros?

sábado, 26 de julho de 2014

Os blogues...

...são, cada vez mais, uma espécie de paralímpicos da escrita, sendo que tenho um bocado mais de respeito pelos intervenientes de uns do que pelos outros. Há muito mais blogs do que havia dantes, remetendo os poucos que são bons para o limbo da qualidade. Aos velhos consagrados acabaram-se as ideias; nos novos que se põem em bicos de pés, engraxando sapatos nas caixas de comentários dos primeiros,  reconhece-se  aquela ingenuidade de quem acha que vem trazer algo de novo ao mundo, que tanto faz sorrir de ternura os mais esclarecidos.

Porque não acabam? Porque há quem viva disto, porque há quem pense que viva disto, e porque há quem pense que algum dia vai viver disto. Os outros, ou vivem na ilusão, ou olham para o seu blogue como um pequeno Schumacher. Nunca se desiste dele e honra-se a sua memória, ainda que se saiba que nunca mais vai voltar a ser o que era no início.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Bateram nos mininos!

Os judeus podem parar de se queixar. Este holocausto está a ser muito pior.

sábado, 5 de julho de 2014

Por terras de El-Rei D. Cavaco...

Num palco pequeno improvisado no largo da igreja, há um velhote que anima um arraial de bairro com o seu orgão electrónico. Felizmente, o instrumento já tem os ritmos programados, visto que o velho, sentido de ritmo, não tem nenhum. Toca toscamente as melodias principais das músicas por cima, cantando em seguida ainda mais toscamente.

A melhor música do reportório, até agora, foi a "Ternura dos Quarenta". A palavra quarenta foi estrategicamente susbtituída pela palavra sessenta, já que, tirando meia dúzia de putos que nunca farão mais do que o nono ano, essa parece ser a idade mínima da populaça que assiste ao espectáculo.

O senhor parece mesmo estar quase a morrer. Careca, mas com a parte de trás do cabelo algo comprida e pintada de negro bem negro, mexe-se quase tão bem como a minha avó materna, Deus a tenha. Infelizmente, não passa de ameaço. Eu bem queria que ele fosse para pé dos seus entes queridos que já partiram, mas o filho da puta teima em não dar início ao ataque cardíaco que já se impõe há mais de meia hora.

Não havendo ataque cardíaco, ponho-me a pensar, em jeito sonhador, no assassinato de JFK. Acho que esta era uma das situações em que uma iniciativa destas tinha tudo para correr bem. Ainda por cima, o alvo nem sequer está em andamento. Olho para as janelas dos prédios em redor, mas não consigo vislumbrar a ponta de nenhuma espingarda pronta a disparar. Tenho de me lembrar de ver se na Sport Zone há pressões de ar à venda. Não quero ir parar à prisão, mas sinto-me na obrigação de provocar uns sustos em eventos futuros.

A meio de um "põe a mão na cabecinha, agora na cinturinha, vai acima, vai abaixo", pára de tocar, ficando apenas o orgão a debitar o ritmo e, com voz séria, lança o aviso "ATENÇÃO, ATENÇÃO, achou-se uma dentadura postiça ao pé do bar". Não só temos um excelente músico, como um boletim informativo, embora incapaz de anunciar o seu próprio (e desejado) óbito.

De forma totalmente aleatória, e sempre sem desligar o órgão, grita as seguintes pérolas:

- Isto é música a gasóleo, só pára aos cinquenta litros!

- Eu hoje estou muito feliz porque a minha sogra de oitenta e cinco anos ficou grávida.

Finda a alarvidade não anunciada, continua a sua performance. Como não podia faltar numa altura destas, passa em revista de rajada os principais sucessos de Quim Barreiros. Como se diz na gíria musical, estamos perante um merdley da mais fina categoria. Quem já não suportava o original e anda a ponderar o suicídio, tem aqui uma excelente oportunidade de ganhar a coragem necessária para dar o passo seguinte e elevar a sua vida a outra nível.

Sou só eu que acho extremamente nojento um velho desta idade cantar "ai se eu te pego, ai ai se eu te pego", enquanto miudinhas pequeninas se abanam desconjuntadamente? São estes os gajos que andam nos jardins apenas de gabardine, à caça das moças mais incautas.

Tinha esperanças de que o "apita o comboio" fosse sinal de que o concerto estivesse quase a chegar ao fim. Não está. Eu continuo a escrever, ele continua a cantar. Ele quer que a multidão dance, eu quero que o comboio descarrile mesmo e se venha enfaixar aqui pela zona da igreja. Nem todos têm o mesmo direito à vida.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Queriam empreendedorismo? Eu dou-vos empreendedorismo.

Uma característica que une os seres humanos é o facto de não sabermos aceitar um conselho vindo de alguém que percebe mais de qualquer assunto do que nós. Se juntarmos a isso um diploma pendurado na parede com uma média final acima de 12 valores, o efeito acaba por ser multiplicado.

Por isso, e como gosto de dinheiro, decidi criar um conceito inovador: A Consultoria Leiga®.

Na Consultoria Leiga® comprometemo-nos a não saber mais do que ninguém. Se alguém tiver uma dúvida acerca de um investimento, poderá ouvir de nós um "neste mercado? epá, eu não me metia nisso" , ou até um "olhe que, sendo a sua senhora tão jeitosa, e tendo de trabalhar até tão tarde numa primeira fase, arrisca-se a chegar a casa e estar ela toda espojada com outro marmanjo na cama do IKEA que você mesmo montou com esforço". Mandaremos pessoas ir ao médico imediatamente quando confrontados com fungos nos pés verdadeiramente medonhos, mas providenciaremos o conforto necessário quando nos mostrarem aquele sinal pequenino que tanto vos aflige e que, com sorte, não deve ser nada de especial.

Poderão achar que isto já existe, mas eu explico-vos porque é que não consideramos a Maya ou a "Dra" Maria Helena daquela chachada do tarot das manhãs como concorrentes válidos. Temos factores diferenciadores face a estas senhoras. Não temos ar de tolinhos, não tentamos vender santinhos nem chás nem cristais purificadores, e recebemos as pessoas num escritório com mobiliário moderno, de fato completo, oferecendo o máximo sigilo. Diria mesmo que o fato e a formalidade estão no topo das prioridades; embora, como já foi referido, ninguém goste de acatar conselhos de pessoas que, sobranceiramente, sabem mais que nós, se for um Barnabé qualquer de fato, sapato polido e barba aparada, o nosso respeito aumenta automaticamente. Mais do que ser, há que parecer, e o nosso povo sabe respeitar isso.

Por preços verdadeiramente competitivos no mercado, faremos aquilo que nem um amigo ou profissional qualificado pode fazer. Os amigos, ou nos apoiam cegamente em tudo, ou estão sempre a dar para trás porque não nos acham grande espingarda para mais do que beber uns copitos durante a bola; o profissional qualificado só quer rebaixar-nos e ficar com o nosso dinheiro. Na Consultoria Leiga® não somos vossos amigos. Percebemos umas coisitas sobre quase tudo, mas também não é assim nada de especial. Ainda nem abrimos e já contamos consigo; conte também connosco.


 PS: Só me estou a meter nisto porque a ideia das festas surpresa em tribunais não está a ter o retorno pretendido. Surpreendente, não é?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ai do moço da biciclete da Suiça é que ninguém fala e deviam falar

O Rui Costa ganhou pela 3ª vez consecutiva a volta à Suiça, mesmo na última etapa, pouco antes do desgosto que a Selecção que nos causou na única coisa da vida em que, provavelmente, somos capazes de ganhar aos EUA.

É um feito absolutamente notável e invejável, mas permitam-me respeitosamente que me esteja a cagar para o ciclismo. Aquilo é chato. Não consigo ver mais do que vinte segundos de uma transmissão sem ter vontade de me peidar.

A culpa do meu despeito nem é do Rui Costa, que faz o melhor que pode, e um melhor que dá resultados difíceis de reproduzir amiúde. A culpa é do sentimento recorrente de que não podemos ficar chateados quando aqueles por quem torcemos no nosso desporto preferido perdem, havendo sincronismo com uma vitória portuguesa noutra modalidade qualquer. Não gosto de ciclismo (a minha ignorância sobre o assunto ajuda bastante, mas também não tenho vontade de aprender), de judo, de natação, de atletismo e dessas merdas todas que perdem em espetacularidade e drama para outros desportos. Gosto de andar de bicicleta, de andar à porrada com gajos com metade do meu tamanho, de nadar e de correr em ruas onde há bolos quentinhos a sair dos fornos de boas pastelarias; daí a envolver-me na parte mais formal da coisa, vai uma distância gigante.

Portanto, reservo-me ao direito de estar fodido. Dispenso comentários de que a vida não é só bola, e de que devíamos era valorizar os outros que, coitadinhos, não têm os mesmos apoios. O mundial só acontece de quatro em quatro anos, um gajo ainda precisa de lutar para se apurar, e eu, aproximando-me perigosamente da idade última do Cristo, começo a sentir um pouco (talvez precocemente, eu sei, gente) o gostinho da incerteza de saber se estarei cá para ver o próximo ou não.

Gosto daquilo que gosto e pronto.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Viva o Mundial, que se foda o Mundial

Estou chocado com a quantidade de comentários de pessoas que estão genuinamente contentes por um jogador português se ter lesionado. Afinal de contas, ele (Rui Patrício, para quem tem morado na lua desde o princípio do campeonato) esforçou-se tanto para jogar mal como vocês para serem inteligentes.

sábado, 31 de maio de 2014

Ah-men!

Há uns dias conheci um gajo da minha idade que, tirando os mocassins excessivamente pipis de camurça, se vestia como a minha namorada queria que eu me vestisse. Não gosto lá muito de blazers, e recuso-me a vestir um se tiver cotoveleiras, mas tenho de admitir que, naquele tipo, a roupa caía toda muito bem. Um gajo magro e alto com a roupa bem adaptada ao corpo é logo outra fruta. A barba impecavelmente aparada e o sorriso maroto, ainda que de orientação sexual condizente com os sapatos (mas sem bichices exageradas) completava o bolo. Estávamos perante um paneleiro extremamente jeitoso e que, quanto a mim, deixava toda a maricagem extremamente bem representada. Se eu tivesse um filho rabilú, era provavelmente o tipo de marmanjo que eu não me importaria que ele trouxesse a casa para apresentar como namorado. Ia ficar um bocado apreensivo ao princípio, mas é uma reacção perfeitamente aceitável quando aparece um homem em nossa casa a tentar roubar a princesa dos nossos olhos. A estocada final foi quando nos disseram que ele aliava o poder de cativar as pessoas através do dom da palavra ao facto de ser um excelente dançarino. Mais um bocado e até eu queria ver se dava para esse lado.

Tudo isto sería inconsequente se não viéssemos a saber que o fulano em questão já era casado (e muito bem casado) com Jesus Cristo. Era padre. Penso que as gentes da terra não têm de temer pelas suas crianças, já que o tal sorriso maroto não dava espaço a enganos. O senhor padre gosta de pichota, sim senhor, mas de pichota graúda. Dêem-lhe todas as cores do arco-íris e aquele tipo de procissão que nós sabemos, e lá vai ele todo pimpão com (e apenas) os seus suspensórios pretos de cabedal e um boné.

Vós que sois religiosos, dizei-me uma coisa: não era suposto esta malta ser celibatária? Não é que eu ache normal um homem andar a tentar calar o fogo que sente cá dentro durante toda uma vida, mas pensava que as regras eram essas. É por estas e por outras que há padres com muitos afilhados. De resto, eu não vejo como é que um padre gay, lá por gostar do sacristão e não das beatas, haverá de ter mais dificuldade do que os outros a espalhar a mensagem do senhor.

Não vou à missa regularmente desde os meus doze anos, idade em que os meus pais deixaram de acreditar que alguma vez eu iria aderir de corpo e alma aos rituais católicos, mas fiquei curioso para saber como será uma missa daquele senhor padre. Mais animada será, com certeza. A tradicional hóstia e vinho serão susbtituídos por um ligeiro brunch de domingo e todos cantarão alegremente versões com letras modificadas de músicas dos Bee Gees. Pelo menos, é assim que imagino.

Só tenho receio de uma coisa: as pessoas são muito preconceituosas. É possível que o padre seja apanhado no confessionário com um dos fiéis, sendo a minha dúvida a de estar ele sentado a dar o sermão ao arrependido prostrado, ou de ser ele o próprio a rezar em vez do pecador. Para mim, não muda nada; tenho a certeza de que é excelente a transmitir a paz por onde passa.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Pela última vez, que já não há pachorra para explicar isto

Mantendo o maior nível de objectividade que me é possível neste momento e, admitindo que das dezasseis escolhas possíveis, nenhuma é boa o suficiente para uma boa parte da população, podemos formular o seguinte:


Não votar = Estou-me nas tintas para o futuro do país; sirvam-se como se estivessem na vossa casa.

Votar em branco = Não sei qual será o mal menor mas, pelo menos, no meu cu mando eu.


PS: Cheguei até a ler comentários de pessoas que acham que devia haver a possibilidade de se poder colocar uma cruz numa última opção extra, a do voto em branco. Porra, não é muito mais fácil para todos simplesmente deixar a caneta sossegada e dobrar logo o raio do papel em quatro?

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O problema é o ovo, não a galinha

Não é o cancelamento da palestra de Alexandra Solnado no parlamento, no âmbito das Jornadas da Saúde (onde falaria, entre outras coisas, de memórias de vidas passadas e de como a sualimpeza pode ajudar ao bem-estar) que tem de ser justificado.

O que tem de ser justificado é que raio se passou no departamento de recursos humanos do parlamento para tal convite ser feito. Acho que já lá se vende banha da cobra que chegue.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Se eles podem, eu também

Não sabia que o Mimikas também já tinha uma página no facebook, com passatempos maravilhosos e fantásticos.

Acho que vou fazer uma página nas redes sociais para a minha orelha esquerda. Podíamos começar por tentar adivinhar a quantidade de cera que lá mora, através de algumas pistas simples. Parece-me relevante.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Ainda não perceberam que...

...só se poderá falar da vitória da mulher barbuda na Eurovisão como uma vitória para a diversidade e tolerância quando, numa ocasião destas, nos esquecermos sequer que a discriminação sexual ainda está em jogo? Até lá, tudo isto é apenas uma grande tolice. Ter de falar das coisas em jeito de discriminação positiva perpetua o problema.

sábado, 26 de abril de 2014

E depois da crítica gastronómica, a cultural

O "Melhor Do Que Falecer" é apenas melhor do que falecer.

Pior, mas de cara lavada

A valorização de conceitos portugueses antigos através do novo marketing veio para ficar. Desdobram-se os negócios, uns de esquina e outros de maior porte, em que os produtos e estética antiga é misturada com frases e cores fortes. A malta dantes não era tão lavada como agora, e dava mais erros, mas não éramos totalmente maus. Havia coisas que ninguém conseguia fazer da mesma forma.

Para vos dar um exemplo, acho fantástico o conceito da Padaria Portuguesa. Nem todos os produtos têm o nível de qualidade que apregoam mas, desde que continuem a melhorar, são uma marca a ter em conta. Fiquei fã do H3 e só não volto lá mais vezes porque a minha namorada descobriu o Miit. Nunca pensei que se pudesse melhorar uma coisa tão banal como um mero bife de vaca com batatas e ovo. Afinal, parece que o facto de não haver ninguém a coçar os colhões enquanto mexe na carne, as paredes e o chão estarem cheios de gordura e os funcionários serem simpáticos e atenciosos, faz mesmo diferença. Os caramelos que andam de Porsche Panamera continuarão a ir aos mesmo restaurantes de vinte e cinco (+) euros por pessoa, mas os pobres que têm fome no centro comercial de tanto andar a olhar para coisas que, provavelmente, não devem comprar, agradecem. Todos são filhos do senhor e merecem divertir-se.

Por outro lado, também há maus exemplos. Se eu abrisse uma casa de alterne e lhe pusesse o nome, sei lá, de "Os Lábios Carnudos e Gourmet da Laurinda", estava à espera que, optando pelo menu base, independentemente do preço, me fizessem um bruto de um felácio, daqueles mesmo gostosos. Bruto, mas limpo e com boa cara, que ao nos atenderem num sítio não nos estão a fazer favor nenhum, muito pelo contrário.

Um prego é uma coisa básica. Não há português com sistema digestivo intacto à nascença que não tenha comido um prego que seja na vida. Sendo assim, quando metem Gourmet à frente de Prego, eu estou à espera de que seja bastante bom.

Começa logo pela premissa. Um ritual português aperfeiçoado, dizem eles. Engraçado que nem portugueses vi a trabalhar lá àquela hora, mas pronto. O que conta é o prego, e um estrangeiro não tem, à partida, menos capacidade para ser simpático que um português. A verdade é que quem trabalhava ali parecia que estava a fazer um esforço do caralho para nos atender. Eu sei que é difícil ser-se simpático quando se está a receber uma míséria, mas quem não tem mesmo a culpa disso sou eu. No Miit, quando percebem que é a primeira vez que lá vão e não estão familiarizados com o conceito, desdobram-se em explicações para cativar o cliente, não se limitando a fazê-lo apenas ao princípio. Mais do que conseguir que uma pessoa coma num sítio pela primeira vez, convém dar-lhes motivos para lá voltar.

Mesmo assim o prego ainda podia ser bom. Mas não, era uma merda. Se comi tudo? Comi, estava varado de fome. A minha pele estava quase a ficar daquele castanhinho-etiópia que não combina nada com as tendências da estação. Ainda assim, não gostei. A carne era fraquita, o pão não era fresco, o molho era súper duvidoso, e tanto as batatas como o arroz deixavam no final um sabor a hospital na boca. Era qualquer coisa como se as fritassem numa mistura de óleo com Tide. Num lado, cozinham na hora; no Prego Gourmet, aquecem na hora.

Lembro-me de um episódio do Seinfeld em que a Elaine andou a comer umas sandes muito más só para poder ter acesso à sandes grátis ao entregar o cartão do restaurante preenchido. Neste caso, o cartão do prego vai direitinho para o lixo. A partir de agora, não basta pôr uma boina de fazenda na tola para me convencerem a consumir seja o que for.

domingo, 20 de abril de 2014

Domingo de Páscoa

Almocei numa terra chamada Vermelha. O Benfica ganhou o campeonato. Sou do Sporting.

Jesus, supostamente, ressuscitou. Sou ateu.

Existe alguma aldeia chamada Verde onde se coma uma boa dobrada?

terça-feira, 15 de abril de 2014

E agora que a Ursa voltou

O mundo divide-se entre...

...os pais que imitam o choro dos filhos quando fazem birra e os pais que os agarram pelo braço e os arrastam pelo corredor dos doces do supermercado os outros.

Não há mais opções sem ser estas, pois não, seus maricas adoradores de bebés? Óptimo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Não, agora a sério.

Existe mesmo zumba para crianças? Terei lido mal? A ser verdade, a Segurança Social não faz nada para tirar as crianças aos pais? Faço um apelo à Felícia Cabrita para investigar este submundo. Depois de tanto espalhafato com a Casa Pia, parece-me feia esta dualidade de critérios.

Adenda: ui, que também há zumba específico para a terceira idade. Caracteriza-se por movimentos mais lentos, destinados a quem quer praticar exercício físico com este tipo de música. Chamam-lhe de Zumba Gold. Eu sabia que havia um nome para isto, mas pensava que era apenas "eutanásia".

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A verdadeira dinamização dos serviços públicos

Ao contrário de certas figuras do panorama político nacional, eu passo o dia à procura de soluções que nos permitam recuperar uma melhor saúde financeira.

A minha última ideia diz respeito à área da Justiça. Albergo o sonho de a vir a expôr pessoalmente a Paula Teixeira da Cruz, a minha ministra preferida da actual legislatura (e uma das poucas que se aproveita). Não tenho dúvidas de que seria vista com bons olhos.

Imaginem que fazem anos no dia 12 de Maio. Uma semana antes recebiam uma cartinha em casa a dizer que tinham sido alvo de uma queixa-crime. Não explica muito mais do que isso, para além da informação acerca da multa no caso de não-comparência.

Tendo em conta que a maior parte das pessoas nunca esteve num julgamento, é natural que estivessem todas borradas de medo enquanto esperavam pela chamada do oficial de justiça.

Entravam na sala, fria e imponente, e os amigos saiam de trás da cortina e gritavam "SURPRESA!". Quem não gostaria de um aniversário assim?

A partir do momento em que a prática se generalizasse, tornar-se-ia de igual modo útil para apanhar bandidos daqueles dos mesmo maus. Recebiam a queixa-crime mas pensavam "sacana do Tó Zé, organizou-me um aniversário surpresa, ganda porreiraço". Chegavam lá, eram acusados de ter roubado um suporte de facas na loja do Gato Preto, tráfico de droga ou tentativa de violação da velhinha que mora isolada lá no casal do monte e pronto, ficavam logo presos que nem um golfinho apanhado numa rede ilegal para a pesca do atum.

Outra coisa porreira, caso isto não vos soe bem, era usar o tribunal para despedidas de solteiro. A malta chegava lá e, consoante as preferências sexuais, era ver uma data de gente bem tesuda a tirar as togas e becas e fardas e afins. Eram tardes bem passadas e sempre se podia inventar mais uma modalidade de taxa de justiça. Queixam-se de andar a querer fechar os tribunais e assim sempre se rentabilizavam os espaços.

Vou criar uma petição para levarmos isto para a frente. Estão todos comigo, certo?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Alguém com a mesma versão que eu?

Com a primavera suspensa, como se estivesse de quarentena, já não aguento esperar pelo sol. As últimas promoções do Continente e da Fnac permitiram a aquisição de uma mão cheia de livros do Saramago que ainda não tinha lido. Dito assim, parece que li muitos; na realidade, tenho vergonha suficiente na cara para admitir que ainda só tinha lido o Ensaio Sobre a Cegueira. Gosto de livros de humor, e tudo o que tenha pessoas com falta de visão a tropeçar em coisas constitui imediatamente comédia física da boa.

De todos os outros, aquele de que tinha mais vontade de ler era a Jangada de Pedra. Não gosto de dramas da vida real, e os conceitos escapistas de Saramago são perfeitos para quem lê como outros bebem: para esquecer. Tenho andado a saborear o livro, sem grandes sofreguidões, tentando apenas imaginar que faço parte daquele grupo de personagens, que partilhamos as mesmas dúvidas, que seremos atingidos pelo mesmo destino.

Dizia eu que já não aguentava mais esperar pelo sol a sério, sem ter oferecido qualquer tipo de desenvolvimento subsequente. A verdade é que, para quem já está nos trintas (mas com uma pele imaculada de dezoito anos e um cérebro jovial de doze), aquele ar paneleirote de quem se instala pretensiosamente numa esplanada a ler começa a tornar-se ligeiramente atractivo. Mais, caso se façam acompanhar da vossa parelha, o glamour envolvente aumenta de forma substancial. Se forem os dois apreciadores do mesmo autor, mais perfeito se torna o quadro. A ideia é mostrar que se lê ao ar livre, de dia, e se deixa a cama e a noite para outras actividades. De casais de ar intelectual a ler na cama já está o mundo cheio.

Na edição que estou a ler (aquelas de capa amarela) uma das personagens vê o seu apelido vilipendiado a dada altura. Num livro em que tão poucos nomes concretos são referidos, nem a minha tremenda ingenuidade e o estilo denso de escrita me conseguiu fazer acreditar que aquela referência seria a uma personagem nova e não a uma já existente. Digamos que, numa ocasião, José Anaiço passou a ser José Anal. Não me recordo ao certo da página, mas se não acreditarem, poderei até tirar uma fotografia (o problema é vasculhar isto tudo de novo). Sendo que, até agora, tenho ideia de haver sempre em Saramago algumas referências a sexo descritas de forma um tanto ou quanto austera, o engano no apelido uns capítulos mais à frente teria dado espaço para umas gargalhadas valentemente badalhocas (não é para tanto, mas lembrem-se da referência anterior à faixa etária do meu cérebro). Assim sendo, e ainda por cima num livro que começa logo com uma mulher constantemente agarrada a um pau, é apenas curioso.

Há por aí mais testemunhas deste crime? Qual foi a vossa reacção? Contem-me tudo com pormenores.

segunda-feira, 31 de março de 2014

No Natal pela manhã... ♫

♫ há em todos os países
muitos milhões de velhinhas
com varizeees ♫

quinta-feira, 27 de março de 2014

Eu até gostava de ti

Habituei-me a ler o Público porque era o jornal que o meu pai mais comprava e lia. Parecia-me isento, perdia menos tempo com mariquices do que a maior parte das outras publicações e fazia-me sentir que estava a par daquilo que realmente interessava.

Motivado por isso, acabei por "laikar" a página deles no facebook há algumas semanas. Neste curto espaço de tempo aprendi que a casa dos segredos não é o único espelho daquilo que em Portugal é o estado da arte em termos de cenas que fedem a cocó.

Não há notícia do Público no facebook que não motive o aparecimento de hordas de neandertais sedentos de sangue. São incapazes de entender ironia, são violentos quando confrontados com coisas completamente inofensivas, e comentam sem saber ler ou sem ler sequer aquilo que é publicado. Como as pessoas de jeito rapidamente perdem a paciência ao tentar chamar à razão atrasados mentais, a proporção de pessoas decentes para aquelas que mereciam umas férias vitalícias nas Berlengas é cada vez mais baixa. Resistem alguns, mas o esforço é inglório.

domingo, 16 de março de 2014

Deixemo-nos ficar pelo futebol

Há coisas em que somos bons. Nisto não. No dia em que ganharmos um Festival da Eurovisão, é sinal de que a nossa identidade cultural morreu mais um bocado. Num concurso que é marcado pela labreguice, devia ser um ponto de honra ficar pelos últimos lugares.

Não sei do que tenho mais vergonha. Será pior 1) sermos representados por um inenarrável tema, "composto" pelo Emanuel e cantado pela Suzy (who?), 2) não haver uma diferença de qualidade assim tão grande por parte dos outros temas concorrentes ou 3) saber que foram "os portugueses" (hoje em dia já não sei o que significa isto, e às vezes obrigam-me a não ter muita vontade de o ser) a escolher esta coisa como representante de um país que já teve muito do que se orgulhar?

Se os outros querem primar pela mediocridade, deixem-nos. O problema não é nosso. Que o nosso lugar seja o último. Reduzirmo-nos ao mínimo denominador comum é bastante pior.

O chumbo da co-adpoção e a Suzy & friends, tudo na mesma semana, é desolador. Pelo menos o Sporting ganhou.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Verão ao virar da esquina

Ao almoço, rimo-nos bastante de uma publicidade que tem começado a passar bastante na televisão, os comprimidos brasileiros para emagrecer.

Para começar, não percebi porque é que o principal factor distintivo era o facto de serem brasileiros. Podiam ser comprimidos de caramelo, de mentol, de qualquer outro princípio activo potente, mas não, eram brasileiros. Da última vez que vi, Globo e Brasil não são sinónimos. Quando era puto pensava "sim senhor, uma brasileira é que eu gostava de ter, são todas esguias e gostosas", mas agora já sei que não há país nenhum em que se diga que a mulher média (e homem, note-se) é geralmente boa. Tirando a Somália e afins, a maior parte das pessoas tem peso a mais e arranja-se pouco. Há quem tenha a sorte de sacar uma bem cativante, mas infelizmente não é a norma, como qualquer nativo de qualquer país nos quer fazer pensar.

Após extensiva pesquisa (deus, a existir, manifesta a sua omnisciência em forma de Google), percebi que lhes chamam de brasileiros simplesmente porque o princípio activo, da família das anfetaminas, é proibído na Europa mas não lá, os seus principais produtores. Para bem dos brasileiros, espero que o estejam a exportar mais do que a consumir. Nós cá produzimos muita merda, mas não só não a sabemos exportar como ainda vamos buscar mais lá fora.

Caso tenham dúvidas, agradeçam sempre à malta do marketing. "Não está disponível em farmácias e dietéticas", ao contrário de fazer alguém correr para o telefone, é apenas um enorme aviso de que, se não está à venda precisamente nos locais devidos, por alguma razão é. E, geralmente, não é boa.

Comer adequadamente, praticar desporto regularmente, foder descomplexadamente.

De nada.

sexta-feira, 7 de março de 2014

É pena que as probabilidades do Euromilhões...

... não estejam também presas ao número de apostadores por cada concurso. Eu seria daqueles que, de certeza analítica, apostaria apenas quando o prémio fosse baixo. Ai hoje são só 12 milhões? - seria um óptimo dia para jogar.

Ganhar cem milhões deve dar uma dor de cabeça gigante. A começar nos jornalistas, que sabendo que o vencedor era português, fariam esperas na Santa Casa para ver quem iria reclamar o prémio, não haveria como não andar num estado permanente de desconfiança. Mesmo se assim não fosse, entre amigos, conhecidos, e família, alguém iria dar com a língua nos dentes. Se forem parte integrante de um casal, daqueles que dão beijinhos e fazem coisas juntos, como tratar da casa e ir ao cinema, tudo isto passa a dobrar.

Não sou uma pessoa altruísta, confesso; não me faria confusão, ainda assim, ajudar aqueles que me são mais próximos. Aliás, nem acho que seja uma ajuda, que até soa demasiado a pobre; seria o reconhecimento merecido da importância que tiveram ou têm na minha vida. Conheço algumas pessoas que guardariam escrupulosamente segredo (nada que cem mil euros e um contrato com uma cláusula de confidencialidade não consigam), mas isto é como tentar usar as mãos como taça para beber água. Bitches gonna tell, sista.

De repente, os pedidos de ajuda seriam incessantes. O quê, só quinhentos euros? -  seria uma das respostas possíveis. Eu dou o que quero, caralho; esmiuçando as nossas interacções, apertei-te a mão um punhado de vezes e saiu-me ao preço de vários finais felizes.

Iam descobrir onde eles estudavam e iam-me raptar os putos à porta da escola. Não, não moro no Brasil, mas porra, são uma catrefada de milhões. Resta-me o consolo de que pudessem andar a ter más notas, sempre era um castigo para ver se aprendiam a fazer o que os papás dizem.

Com cinco milhões um gajo empata aquilo numa casa boa, mais uns apartamentos para arrendar, investimentos em empresa própria e tá a andar, não há muito mais para sacar.

Ganhando, no entanto, uma quantia de nove dígitos, e já que vocês, por este parágrafo já devem estar aterrorizados e eu não me importo de me sacrificar em vosso nome que nem o Jesus fez, o meu plano de acção já está estipulado. Comprava um Seat Ibiza branquinho com jantes em liga leve e escusava-me a dar a minha verdadeira morada. Nada de Porsches e cenas do género que chama demasiado a atenção. Se alguém me desse boleia, dizia que morava num sítio e, que nem uma adolescente namorando com alguém de classe bem mais abonada, esperava à porta até o carro se ir embora, dirigindo-me depois ao meu verdadeiro poiso. Não hão-de perceber nada. Já o recheio, mais coincidente com o meu recém adquirido estatuto, seria um segredo só meu.

Mesmo comprando um bocado acima das minhas actuais posses (portanto, em vez de salsichas da marca Continente compro da Isidoro, ou até, loucura, da Nobre, que são as minhas preferidas), apenas poderiam ficar desconfiados. Alguns iam pensar que ando a gamar, ou até a vender o cú, mas deixa-os pensar. Contar é que é mau negócio.

Porra, contei o meu plano.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscares = ...

... gajas com buço e sobrancelhas mal amanhadas, de pijama, a comer leite creme, enquanto criticam vestidos que custam mais do que todo o seu guarda-roupa.

Estou assim tão enganado? Já agora, foi só impressão minha ou aquela malta dos filmes beija-se demasiado e sem olhar a quem?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Eu não tinha coragem...

... para fazer aquilo que a Dora fez.

Também não tinha coragem para fazer aquilo que a Ana Malhoa fez.

PS: Alguém aqui é fã de Altos e Baixos?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

E o vencedor do Prós e Contras de ontem...

... foi Ricardo Morgado, presidente da Associação Académica de Coimbra. Apesar de dúvidas na imparcialidade da equipa de arbitragem, é impossível retirar o mérito à sua capacidade de retórica e de concentração. Nem mesmo o golo cedido pela menina do absinto e da color run foi capaz de prejudicar o caudal ofensivo do líder estudantil.

A jogar fora de casa, a equipa visitante deixou-se intimidar pela claque hostil e teve imensas dificuldades na circulação de bola ao longo de toda a partida. Não fomos felizes na finalização - referiu sucintamente a jornalista Fernanda Câncio.

Esperemos que Ricardo Morgado continue a demonstrar o mesmo nível e que, no futuro, depois de lhe passar a pancada dos amigos do Pudim Danone, use toda a sua qualidade técnica ao serviço de coisas que, enfim, não sejam parvas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Eu nem queria falar disto, mas também quero ser cá da malta

Se alguém, por estes dias, disser que a praxe é uma estupidez, aparece logo meia dúzia de miúdos a dizer que as pessoas não percebem é nada disto e que se deviam informar melhor antes de poder falar.

Ó meus sherlockezinhos de trazer por casa, acham mesmo que ninguém antes de vocês andou no ensino superior? Acham que a capa por um lado, e a tshirt do caloiro, por outro, vos torna invisíveis e que ninguém vos vê na rua a fazer as figuras tristes do costume? Sim, porque não é por meterem um betinho de pullover num debate na tv a afirmar convictamente que a praxe é só ali durante aquele bocadinho no princípio do ano e que nunca se sai do campus que alguém vai acreditar.

Que putos se divirtam a fazer merda, é perfeitamente normal. Uma pessoa não deixa de ser parva de um dia para o outro. Assumam é as coisas por aquilo que são verdadeiramente, e não venham dizer que a praxe é uma maravilha e que integra e o caralho. Por exemplo, quando a minha namorada me apresentou aos amigos dela, vejam lá que bastou serem simpáticos comigo para eu me sentir integrado. Caramba, hã, quem diria que simpatia funciona? Não me lembro de nenhum me ter mandado meter de quatro. Pode-me estar a escapar alguma coisa, se calhar. Subjugar alguém não incute valores em quem já não os trazia antes de casa.

Muitos dizem que, ao contrário do que é sugerido em inúmeros artigos de opinião, nunca foram humilhados quando foram praxados. Vamos pegar num exemplo tão simples como o de pintar um caloiro, meter-lhe farinha no cabelo e mandá-lo colocar-se de joelhos. Se eu fizesse isso no meio da rua a uma pessoa qualquer, o mais provável era apanhar na boca. Não percebo qual é o interruptor que apaga o sentido crítico de uma pessoa ao ponto de achar isso divertido a partir do momento em que entra numa universidade. Aliás, são raros os caloiros que vejo com ar divertido. A maior parte ou tá borrada de medo ou no mínimo ansiosa para que aquilo acabe depressa. Que haja outros que estejam mesmo ansiosos por aquilo e não se sintam ofendidos, eu até percebo. Mas reparem, imaginemos que eu chamo de puta à Marlene e ela não só não se sente ofendida como até se ri. Isso torna o acto de chamar puta a alguém uma coisa positiva? Não, só diz é que a Marlene tem um problema cognitivo.

Uma das maiores desonestidades intelectuais é afirmar que a praxe é facultativa, que só vai quem quer e que ninguém sofre represálias por isso. Quando vemos uma data de malta trajada a cair em cima de cada caloiro novo que entra pelo portão, literalmente como se fosse carne fresca, torna-se difícil de perceber onde está a democracia da prática. Não mintam, é assim em todo o lado; pode é ser mais exagerado nuns sítios do que noutros. Um caloiro não devia sequer ter de dizer que não, já que a maior parte vai-se acanhar e seguir o rebanho. Façam o seguinte: deixem-se estar a um canto, bem sinalizados, e em vez de serem os caloiros a dizer que não querem que gritem com eles enquanto andam todos porcos, deixem que sejam eles a ir ter convosco e a dizer abertamente que querem passar por tudo isso. Garanto-vos a maior parte não pensa duas vezes e nem se aproxima. Descansem, vai continuar a haver malta que vai querer. Serão menos, mas aproveitem.

A imagem romântica do verdadeiro espírito académico está-se a perder completamente por causa disto. O acesso ao ensino superior está tão mais facilitado agora que todos vão precisar de ser muito mais inteligentes se quiserem que se mantenha. Há gente que ainda hoje se emociona quando se lembra das serenatas, por exemplo (gente, como quem diz, que é demasiado genérico, é mais uma cena de gaja). E isso, mais uma vez, é espírito académico, não é praxe.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Post para gajos - quantos fazem o mesmo do que eu?

A cada nova versão do Fifa, tenho um ritual que já dura quase desde a primeira Bola de Ouro do Ronaldo:

1º Ponho o disco na Playstation (senão a coisa não se dá, obviamente) e procuro pela modo de carreira.

2º Pego no bilhete de identidade (mesmo agora, vou sempre ao antigo, que a foto vê-se melhor), coloco-o em cima do joelho, bem visível, e crio o jogador mais fiel possível à minha pessoa (o deste ano então é quase fotocópia do criador). Desde a altura e densidade pilosa das sobrancelhas ao tamanho das orelhas, nada é deixado ao acaso.

3º Começo no clube do coração (no meu caso, o Sporting) e fico fodido por me tentarem emprestar no primeiro ano, por alegada inexperiência, quer seja o melhor marcador da equipa ou não. É a única altura em que consigo amaldiçoar o emblema.

4º Vou saltando de equipa europeia até ir parar ao Real Madrid. Já perdi muito dinheiro à conta disto, recusando ofertas melhores.

5º Sempre que marco golo ou faço uma assistência para o Cristiano, vou festejar o golo com ele. Acabamos sempre às cavalitas ou abraçados; enfim, uma paneleirada pegada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Acabou!

Eu pensava que não tinha limite para o consumo de mediocridade. Quanto pior fosse a coisa, mais eu me ria e corria logo a partilhar no blog. Sempre achei que fosse saudável. E é, tanto quanto é saudável comer uma banana por dia em vez de quatrocentas, ou espancar o macaco de vez em quando em vez de perder o emprego porque se foi apanhado no escritório a bater a décima segunda punheta do dia.

O que me fez abrir os olhos foi o último vídeo que anda a ser badalado na net. Sim, o daquela que saiu da casa dos segredos e que quando abre a boca me deixa impressionado pela quantidade de asneirada que por ali sai (logo a mim, que sou capaz de invocar o espírito do pior dos camionistas), em conjunto com aquele cuja qualidade da música bate totalmente certo com a actividade cerebral que um ser com aquela alcunha tem.

Não me consegui rir sequer. Tenho pena que ela ache que é assim que a imagem dela vai passar a ser boa, e tenho pena que ele ache que os seus vídeos estão a ter boa aceitação e que quem critica não passa de um hater. Quando uma pessoa vive numa ilusão tão grande, trata-se de uma patologia, e deixa de haver tanta razão para rir.

Costuma-se dizer que, quando uma coisa é muito má, acaba por dar a volta e passa a ser boa. É uma espécie de "menos com menos" dá mais. Acontece que aquilo não é uma multiplicação, e naquele caso menos com menos só pode dar menos. Aquilo não dá a volta (ou então dá demasiadas). Tenho vergonha que haja gente a ver aquilo. Tenho vergonha que aquilo se tenha espalhado tanto que já tenha chegado ao Brasil. Pasme-se, o Brasil, que é um dos países com maior quantidade de música merdosa por metro quadrado (o que ofusca completamente a música excelente que por lá se faz) está a gozar connosco. Nós, que os criámos, para o bem e para o mal, e que lhes tentámos incutir um bocado de cultura. E, pelos vistos, com a nossa ajuda, têm razão.

Se é pelo contexto humorístico, há por aí gente a escrever tão bem, malta a fazer stand-up comedy de forma genial, séries, sitcoms, tanta coisa, que não há razão para recorrermos tanto a certos projectos de pessoa para saciarmos a fome de gargalhadas. De facto, por cada vez que vemos um vídeo daqueles, podíamos estar a ver ou a fazer uma coisa de que gostamos. Parece que a malta só partilha merda e "coitadinhos". Se és famoso pelos motivos mais ofensivos, se és famoso e perdeste o teu cão, se precisas de donativos porque tens uma doença incurável, parabéns, a tua mensagem será partilhada nas redes sociais (e os primeiros, tristemente, liderarão sempre destacadíssimos). Se tentares fazer alguma coisa de jeito, esquece.

Não se esqueçam de que há malta no youtube e afins a fazer bom dinheiro (começa por ser peanuts, mas os grandes números ajudam a tornar as coisas pequenas enormes) à conta de fazer merda. Nem que seja pelo despeito, pensem que o vosso tempo é demasiado precioso para levar ao colo toda a deficiência cultural de que padecemos. Se não for, óptimo, continuem. Palminhas.

Tentar livrar-me daquilo que foi um vício tão grande é tão difícil que vou adoptar uma das regras da Dr. Ágata Roquette e reservar um dos dias da semana para a asneira. Neste caso, a asneira não serão bolas de berlim e croissants de chocolate, mas sim gaffes de ex-presidentes da República e demais políticos (a sério, Mário?), raparigas a tentar ver quantos marshmallows conseguem meter de uma só vez na boca sem vomitar, rapazinhos obesos a cair de bicicleta das mais variadas maneiras, e gente que acha que percebe um caralho de música. Nos outros dias, vade retro.

O ser que mais facilmente se atrai pela bosta são as moscas (vá, se considerarmos apenas os que são visíveis ao olhos humano). Queremos tão desesperadamente ser moscas?