sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Acabou!

Eu pensava que não tinha limite para o consumo de mediocridade. Quanto pior fosse a coisa, mais eu me ria e corria logo a partilhar no blog. Sempre achei que fosse saudável. E é, tanto quanto é saudável comer uma banana por dia em vez de quatrocentas, ou espancar o macaco de vez em quando em vez de perder o emprego porque se foi apanhado no escritório a bater a décima segunda punheta do dia.

O que me fez abrir os olhos foi o último vídeo que anda a ser badalado na net. Sim, o daquela que saiu da casa dos segredos e que quando abre a boca me deixa impressionado pela quantidade de asneirada que por ali sai (logo a mim, que sou capaz de invocar o espírito do pior dos camionistas), em conjunto com aquele cuja qualidade da música bate totalmente certo com a actividade cerebral que um ser com aquela alcunha tem.

Não me consegui rir sequer. Tenho pena que ela ache que é assim que a imagem dela vai passar a ser boa, e tenho pena que ele ache que os seus vídeos estão a ter boa aceitação e que quem critica não passa de um hater. Quando uma pessoa vive numa ilusão tão grande, trata-se de uma patologia, e deixa de haver tanta razão para rir.

Costuma-se dizer que, quando uma coisa é muito má, acaba por dar a volta e passa a ser boa. É uma espécie de "menos com menos" dá mais. Acontece que aquilo não é uma multiplicação, e naquele caso menos com menos só pode dar menos. Aquilo não dá a volta (ou então dá demasiadas). Tenho vergonha que haja gente a ver aquilo. Tenho vergonha que aquilo se tenha espalhado tanto que já tenha chegado ao Brasil. Pasme-se, o Brasil, que é um dos países com maior quantidade de música merdosa por metro quadrado (o que ofusca completamente a música excelente que por lá se faz) está a gozar connosco. Nós, que os criámos, para o bem e para o mal, e que lhes tentámos incutir um bocado de cultura. E, pelos vistos, com a nossa ajuda, têm razão.

Se é pelo contexto humorístico, há por aí gente a escrever tão bem, malta a fazer stand-up comedy de forma genial, séries, sitcoms, tanta coisa, que não há razão para recorrermos tanto a certos projectos de pessoa para saciarmos a fome de gargalhadas. De facto, por cada vez que vemos um vídeo daqueles, podíamos estar a ver ou a fazer uma coisa de que gostamos. Parece que a malta só partilha merda e "coitadinhos". Se és famoso pelos motivos mais ofensivos, se és famoso e perdeste o teu cão, se precisas de donativos porque tens uma doença incurável, parabéns, a tua mensagem será partilhada nas redes sociais (e os primeiros, tristemente, liderarão sempre destacadíssimos). Se tentares fazer alguma coisa de jeito, esquece.

Não se esqueçam de que há malta no youtube e afins a fazer bom dinheiro (começa por ser peanuts, mas os grandes números ajudam a tornar as coisas pequenas enormes) à conta de fazer merda. Nem que seja pelo despeito, pensem que o vosso tempo é demasiado precioso para levar ao colo toda a deficiência cultural de que padecemos. Se não for, óptimo, continuem. Palminhas.

Tentar livrar-me daquilo que foi um vício tão grande é tão difícil que vou adoptar uma das regras da Dr. Ágata Roquette e reservar um dos dias da semana para a asneira. Neste caso, a asneira não serão bolas de berlim e croissants de chocolate, mas sim gaffes de ex-presidentes da República e demais políticos (a sério, Mário?), raparigas a tentar ver quantos marshmallows conseguem meter de uma só vez na boca sem vomitar, rapazinhos obesos a cair de bicicleta das mais variadas maneiras, e gente que acha que percebe um caralho de música. Nos outros dias, vade retro.

O ser que mais facilmente se atrai pela bosta são as moscas (vá, se considerarmos apenas os que são visíveis ao olhos humano). Queremos tão desesperadamente ser moscas?

3 comentários:

Rafael S. disse...

O problema é que esses que lhes dão tempo de antena não te vão ouvir (ler) e mesmo que ouvissem, nada mudaria porque a sociedade sempre foi uma de aparências, cada conta de Facebook, Twitter e afins é de um Dâmaso Salcede, balofos repugnantes que fazem o que é bem visto aos olhos dos outros Dâmasos desta vida.

Pensar por si próprio? Que é isso? Sempre fomos ensinados a ser ovelhinhas, ser um bicho independente é complicado para quem nunca o foi.

Utopias...

A Mais Picante disse...

Pedrinho, eu não vi o vídeo. Vê? Nunca o desiludo.

São João disse...

Um post muito bom :)