quarta-feira, 2 de abril de 2014

Alguém com a mesma versão que eu?

Com a primavera suspensa, como se estivesse de quarentena, já não aguento esperar pelo sol. As últimas promoções do Continente e da Fnac permitiram a aquisição de uma mão cheia de livros do Saramago que ainda não tinha lido. Dito assim, parece que li muitos; na realidade, tenho vergonha suficiente na cara para admitir que ainda só tinha lido o Ensaio Sobre a Cegueira. Gosto de livros de humor, e tudo o que tenha pessoas com falta de visão a tropeçar em coisas constitui imediatamente comédia física da boa.

De todos os outros, aquele de que tinha mais vontade de ler era a Jangada de Pedra. Não gosto de dramas da vida real, e os conceitos escapistas de Saramago são perfeitos para quem lê como outros bebem: para esquecer. Tenho andado a saborear o livro, sem grandes sofreguidões, tentando apenas imaginar que faço parte daquele grupo de personagens, que partilhamos as mesmas dúvidas, que seremos atingidos pelo mesmo destino.

Dizia eu que já não aguentava mais esperar pelo sol a sério, sem ter oferecido qualquer tipo de desenvolvimento subsequente. A verdade é que, para quem já está nos trintas (mas com uma pele imaculada de dezoito anos e um cérebro jovial de doze), aquele ar paneleirote de quem se instala pretensiosamente numa esplanada a ler começa a tornar-se ligeiramente atractivo. Mais, caso se façam acompanhar da vossa parelha, o glamour envolvente aumenta de forma substancial. Se forem os dois apreciadores do mesmo autor, mais perfeito se torna o quadro. A ideia é mostrar que se lê ao ar livre, de dia, e se deixa a cama e a noite para outras actividades. De casais de ar intelectual a ler na cama já está o mundo cheio.

Na edição que estou a ler (aquelas de capa amarela) uma das personagens vê o seu apelido vilipendiado a dada altura. Num livro em que tão poucos nomes concretos são referidos, nem a minha tremenda ingenuidade e o estilo denso de escrita me conseguiu fazer acreditar que aquela referência seria a uma personagem nova e não a uma já existente. Digamos que, numa ocasião, José Anaiço passou a ser José Anal. Não me recordo ao certo da página, mas se não acreditarem, poderei até tirar uma fotografia (o problema é vasculhar isto tudo de novo). Sendo que, até agora, tenho ideia de haver sempre em Saramago algumas referências a sexo descritas de forma um tanto ou quanto austera, o engano no apelido uns capítulos mais à frente teria dado espaço para umas gargalhadas valentemente badalhocas (não é para tanto, mas lembrem-se da referência anterior à faixa etária do meu cérebro). Assim sendo, e ainda por cima num livro que começa logo com uma mulher constantemente agarrada a um pau, é apenas curioso.

Há por aí mais testemunhas deste crime? Qual foi a vossa reacção? Contem-me tudo com pormenores.

4 comentários:

Pedro P. disse...

"José Anal" é um nome digno de um personagem dos filmes do Sá Leão. :)

Nunca li a Jangada de Pedra. Já li três livros do Saramago, e o que mais gostei foi o "Ensaio sobre a Lucidez". A história do livro é muito boa.. sobretudo numa altura em que anda tanta gente descontente com aqueles que nos (des)governam!

Anónimo disse...

Troque as cores do blog, por favor! Isto faz entortar os olhos. Fundo preto com letras brancas NEVER. É que mesmo depois de fecharmos a página ficamos a ver linhas e mais linhas a correr no ecrã. :(

Anónimo disse...

É um bocadinho masoquista, não é? Ou tem avença com um oculista, não é? Se lhe faz assim tanta comichão, alergia e maleita que raio anda a fazer a passear-se por aqui? Estou até preocupada com a sua saúde, física e psicológica.

Ronhonhó disse...

Gosto de ver a ironia dos teus tópicos e ainda mais o sarcasmo dos comentários aqui escritos.
Gosto de ler nas esplanada para dar um ar de inteligente, mas não o sou em suficiente quantidade para conseguir ler José Saramago. Lamento.

Abraço,
Sam