sábado, 5 de julho de 2014

Por terras de El-Rei D. Cavaco...

Num palco pequeno improvisado no largo da igreja, há um velhote que anima um arraial de bairro com o seu orgão electrónico. Felizmente, o instrumento já tem os ritmos programados, visto que o velho, sentido de ritmo, não tem nenhum. Toca toscamente as melodias principais das músicas por cima, cantando em seguida ainda mais toscamente.

A melhor música do reportório, até agora, foi a "Ternura dos Quarenta". A palavra quarenta foi estrategicamente susbtituída pela palavra sessenta, já que, tirando meia dúzia de putos que nunca farão mais do que o nono ano, essa parece ser a idade mínima da populaça que assiste ao espectáculo.

O senhor parece mesmo estar quase a morrer. Careca, mas com a parte de trás do cabelo algo comprida e pintada de negro bem negro, mexe-se quase tão bem como a minha avó materna, Deus a tenha. Infelizmente, não passa de ameaço. Eu bem queria que ele fosse para pé dos seus entes queridos que já partiram, mas o filho da puta teima em não dar início ao ataque cardíaco que já se impõe há mais de meia hora.

Não havendo ataque cardíaco, ponho-me a pensar, em jeito sonhador, no assassinato de JFK. Acho que esta era uma das situações em que uma iniciativa destas tinha tudo para correr bem. Ainda por cima, o alvo nem sequer está em andamento. Olho para as janelas dos prédios em redor, mas não consigo vislumbrar a ponta de nenhuma espingarda pronta a disparar. Tenho de me lembrar de ver se na Sport Zone há pressões de ar à venda. Não quero ir parar à prisão, mas sinto-me na obrigação de provocar uns sustos em eventos futuros.

A meio de um "põe a mão na cabecinha, agora na cinturinha, vai acima, vai abaixo", pára de tocar, ficando apenas o orgão a debitar o ritmo e, com voz séria, lança o aviso "ATENÇÃO, ATENÇÃO, achou-se uma dentadura postiça ao pé do bar". Não só temos um excelente músico, como um boletim informativo, embora incapaz de anunciar o seu próprio (e desejado) óbito.

De forma totalmente aleatória, e sempre sem desligar o órgão, grita as seguintes pérolas:

- Isto é música a gasóleo, só pára aos cinquenta litros!

- Eu hoje estou muito feliz porque a minha sogra de oitenta e cinco anos ficou grávida.

Finda a alarvidade não anunciada, continua a sua performance. Como não podia faltar numa altura destas, passa em revista de rajada os principais sucessos de Quim Barreiros. Como se diz na gíria musical, estamos perante um merdley da mais fina categoria. Quem já não suportava o original e anda a ponderar o suicídio, tem aqui uma excelente oportunidade de ganhar a coragem necessária para dar o passo seguinte e elevar a sua vida a outra nível.

Sou só eu que acho extremamente nojento um velho desta idade cantar "ai se eu te pego, ai ai se eu te pego", enquanto miudinhas pequeninas se abanam desconjuntadamente? São estes os gajos que andam nos jardins apenas de gabardine, à caça das moças mais incautas.

Tinha esperanças de que o "apita o comboio" fosse sinal de que o concerto estivesse quase a chegar ao fim. Não está. Eu continuo a escrever, ele continua a cantar. Ele quer que a multidão dance, eu quero que o comboio descarrile mesmo e se venha enfaixar aqui pela zona da igreja. Nem todos têm o mesmo direito à vida.

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