sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ditador fraquinho

Gostava de ser ditador. Juro que gostava. A ideia não era ser um homem implacável, de quem o povo tivesse medo. Seria um gajo porreiro na mesma; simplesmente queria beneficiar da margem de manobra para, de modo célere, acabar por decreto com certas coisas que me enervam. Claro que se alguém fosse apanhado a dizer mal de mim, era atá-lo com uma corda a um cavalo selvagem e disparar um tiro para o ar. No meio de silvas e pedregulhos.

Dou-vos um exemplo: acabava com a música pimba nos programas da tarde da televisão generalista. Melhor, acabava com aquele tipo de formato de vez. Logo se via qual seria o melhor substituto. Se calhar, proibir totalmente não é a melhor forma de lidar com o assunto, já que os parolos também têm o direito ao entretenimento. Pronto, mudava apenas o horário para as cinco da manhã, eliminando a possibilidade de usar a box para gravar e ver mais tarde. Quem quiser mesmo, há-de arranjar maneira de se desenrascar.
 
Hoje acordei com vontade de acabar com as selfies. Já muita gente disse mal delas mas, até há bem pouco tempo, não me faziam confusão (ao contrário daquela bardamerda das fotos das mãos em forma de coração com o caralho do sol lá dentro). No entanto, bastou-me ir ao mercado de Campo de Ourique à noite (que depois da renovação se tornou um dos locais por excelência para essa pratica fotográfica do demo) para fazer parte do grupo dos que as odeiam de morte (precisamente o tipo de ódio que não convém que haja no coração de um ditador). Estavam três fashionistas, duas magritas e uma mais lontra mas com esperanças de futuro (por acaso até das mais bem vestiditas, tadinhas, e não daquelas pindéricas com colares gola e nhonhozices que tais) a jantar numa mesa. Utilizo jantar de forma figurativa, já que as tipas sacam dos tablets e dos smartphones do coldre, que nem pequenas Steve Jobs do faroeste, e começam a tirar fotografias a elas e à comida como se a sua vida dependesse disso. E isso, quanto a mim, não é comer. Ai amiga, só mais uma assim, só mais uma assado, e por aí fora. Isto durante DEZ minutos.

A educação, por vezes, some-se do corpo, presumindo eu que tenham ouvido da minha boca pérolas como "tanta criança com fome e essa comida toda a arrefecer à conta da vossa mariquice". Bem, desta frase lembrei-me eu só agora; na realidade foram coisas que envolviam pénis e formas verbais do verbo fornicar em voz alta. Falta uma vírgula a seguir a fornicar. Não é que não se possa fazê-lo em voz alta, mas eu é que disse fornicar muitas vezes com volume superior ao socialmente aceite. Assim muitas vezes, tantas quanto as que escrevo agora ao abusar do preciosismo nos detalhes.

 Eu sei que é irracional e mesquinho preocupar-me tanto com este tipo de futilidades, ainda para mais quando aquilo que me irrita costuma ser completamente aleatório. Mas, não tendo eu poder para acabar com aquela prática, tinha esperanças de que pelo menos a gorda estivesse completamente desesperada para começar a comer e tentasse fazer ver às amigas que aquilo assim não podia ser e que era uma falta de respeito para os epilépticos que estavam a apanhar com os flashes nos olhos e que tudo o que é demais enjoa. Mas não, era a mais contente das três.

Suspeito que ela sabia o que se ia passar e que, antes de chegar ao mercado, esteve a enfardar dois palmiers cobertos e uma bola de berlim. A maquilhagem dela não tinha pupurinas, aquilo era açúcar nas beiças.

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