quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Paralelismos improváveis

Quem conhece a famosa escultura de Auguste Rodin, conseguirá visualizar na perfeição a postura que adoptei nos últimos três dias. Para muitos, parar para pensar é uma perda de tempo; para mim, estes períodos de seclusão alcançam sempre uma finalidade prática, que me faz crescer enquanto ser humano e membro de pleno direito de uma sociedade que caminha rumo ao conhecimento pleno.

O que, numa primeira análise, poderia ser uma incompatibilidade de género, tornou-se para mim num paralelismo claro e objectivo. Álcool e papel higiénico são duas coisas que andam de mãos dadas e ninguém o sabia até hoje.

Quando queremos esquecer fases menos boas das nossas vidas, ou quando apenas precisamos de nos libertar de alguns dos nossos mais castrantes filtros, o álcool, até certo ponto, é o nosso melhor companheiro. Se o objectivo é apenas a mudança de consciência, qualquer coisa serve. Se qualquer coisa serve, faz sentido que se opte pela opção mais barata. De facto, numa semana académica, a título de exemplo, ninguém se passeia pelo recinto agarrado ao seu copinho de plástico contendo dois ou três dedos de Bushmills. Cerveja chega, não nos leva à falência, e permite até controlar o ponto de rebuçado da bebedeira com mais eficácia, sem correr o risco de ir parar às urgências do hospital mais próximo. Nem sequer é preciso uma cerveja de marca.

Porém, em momentos de excepção, seja para festejar alguma efeméride ou para saborear de vez em quando na presença de amigos, convém que haja sempre na nossa garrafeira particular uma ou duas garrafas de algo mais refinado. Não se pode atribuir um preço a momentos de felicidade, e a finalidade passa a ser o prazer de beber em si e não um mero caminho para a perda de consciência.

Do mesmo modo, quando precisamos de fazer cocó, qualquer papel higiénico serve. Sempre que no Continente passamos perto da respectiva secção, eu próprio pergunto em voz alta (às vezes alta de mais) para a minha senhora se "temos papel de cagar", nutrindo um total desprezo pelas marcas. Lá está, aquilo vai tocar na coisa mais vil que há na existência humana. Havendo recursos limitados, prefiro sempre gastar mais dinheiro numa boa alimentação do que nas matérias primas referentes ao subsequente processo da sua eliminação.

Mesmo assim, e citando uma frase que os pobres costumam dizer muito, "um dia não são dias". De vez em quando temos visitas em casa, e aí nunca fica mal que sejam presenteados com a melhor colheita de Renova Vintage disponível no mercado. "Vocês devem estar bem na vida, este pack de 24 rolos custa um dinheirão, mesmo quando há 50% de desconto em cartão". Ponham o vosso melhor sorriso, façam de conta que não se passa nada, e passem a bola para o outro lado com um "o quê?! não me digam que vocês limpam o rabo com marca branca..." carregado do mais subtil pedantismo.

Não é esta, no entanto, a altura em que um bom papel higiénico pode fazer a diferença. Como já vos tinha dito, se tirarem a barba e substituírem a pedra por uma sanita, eu sou a coisa mais parecida à face da terra com a escultura supracitada. Parece que deus me andou a fazer clísteres tão violentos quanto sucessivos nos últimos dias. Parecia a miúda do exorcista, so que em vez da cabeça e do pescoço eu rodava era da cintura para baixo. É sempre por causa de alguma coisa que comi, como toda a gente diz, e não porque o cabrão, quando lhe dá para isso, é capaz de ser dos gajos mais sádicos de que há memória. Somos sempre pecadores, nunca santos. Tenho o cu todo rebentado, e nada disto teria acontecido se tivesse na minha dispensa uma pequena reserva do papel mais suave que há, reservado para ocasiões destas, em que a necessidade ocasional fala mais alto do que a funcionalidade primordial.

Um dia não são dias. Para a próxima estarei preparado.

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