sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ao menos não são unhas de gel com decorações estúpidas

- Vai escolhendo o filme enquanto eu limo as unhas.
 - Hmmmm.

- Agora não, que o verniz ainda não secou!
 - Hmmmm. 

- Pára com isso, ainda me vais deixar com marcas nas unhas.
 - Hmmmm. 

- Olha para este brilho. Estão lindíssimas, não estão?
 - Hmmmm. 

- Se quiseres fazemos as unhas juntos.
 - Hmmmm. 



Imagino que não seja só em minha casa que estas frases são repetidas até à exaustão. Este é aquele tipo de diálogo em que a única resposta adequada a uma frase perfeitamente banal e fútil é um murmúrio desinteressado. Nós não somos excepção, excepto num pequeno ponto: nos últimos tempos quem fala das unhas sou eu e quem não gives a fuck about that shit é ela.

Confesso, ando a meter verniz nas unhas das mãos por causa de um cabrão de um fungo. Já tinha uma ligeira descoloração numa delas há algum tempo, o que não me teria preocupado muito se nos últimos meses a condição não se tivesse propagado para outras. Isto levou-me a fazer o que qualquer pessoa preocupada com a saúde faz, que é ir googlar aquilo que aparentemente lhe aflige e correr para a farmácia mais próxima para poder proceder à automedicação.

Até agora não senti grandes efeitos secundários, tirando o facto de a minha voz estar mais aguda e fina, o meu feitio estar mais instável, e andar a raspar demasiadas vezes em caixotes do lixo e outros carros quando tento estacionar em paralelo. Às vezes até solto uma lagrimita quando reparo que a pintura está um bocadinho mais raspada do que o habitual. As flores nunca cheiraram tão bem como agora, e derreto-me toda sempre que vejo bebés. Porra, todo. Sniff.

Agora já recuperei a autoestima, tendo em conta que o meu palpite diagnóstico estava correcto. Elas estão a recuperar o fulgor de outros tempos, mas na altura fiquei um bocado abalado. Quando o único elogio de que nos lembramos de receber em criança é o facto de se ter mãos de pianista, é lógico deduzir que o abismo está já ali ao lado quando perdemos aquilo que tínhamos de melhor. Aliás, eu acho até que se tentasse, teria uma excelente carreira como modelo masculino de mãos. Bem, pelo menos como modelo masculino de mãos esquerdas, já que quando tinha nove anos, um ligeiro acidente com uma farpa numa traineira a caminho das berlengas fez com que desenvolvesse um panarício precisamente no dedo que mais se utiliza à hora de ponta em Lisboa. Não fiquei a parecer um mãos de def, mas a ligeira assimetria com que fiquei na unha e no dedo acabou por virar os holofotes para a outra mão.

Foda-se, estão a ficar mesmo bonitas pá. O corpo das unhas está mais longo, forte e opaco, com uma curvatura da borda livre tão perfeita que mais parece manicure francesa feita por deus. E este brilho... ai este brilho. Começo a ficar viciado nesta porcaria. À conta da obrigatoriedade de aplicação diária, estou a ficar tão pró com o pincel que me habilito seriamente a conseguir a nacionalidade brasileira em tempo record.

Fiz a promessa a mim mesmo de que, assim que acabar o segundo frasco, não volto a consumir pintar. É que o pior efeito secundário de todos, e que está gravosamente omisso da bula do fármaco, é a cara de nojo com que a mulher olha para o seu homem depois de proferir uma daquelas maricagens do início do texto. E assim, consequentemente, quanto mais lindas ficam as de um homem, menos vontade tem uma mulher de cuidar das dela.

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