quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Episódios de uma adolescência pouco desabrochada

Tocar guitarra sempre foi um catalizador para perder alguma da minha timidez natural. Quando comecei a aprender e a entusiasmar-me mais, lá para finais do secundário, tentei até participar nalgumas bandas com as poucas pessoas que se cruzaram no meu caminho, resultado da junção de uma cidade pouco musical com a minha introversão.

Ao princípio, a minha falta de destreza a minha personalidade pouco cativante e, mais tarde, a minha personalidade pouco cativante a minha falta de destreza, fizeram com que essas pessoas não me aceitassem ou que, no caso de se tentar fazer algo, o seu fim fosse quase sempre célere.

Farto da situação, e aproveitando um rasgo de estupidez, decidi que ia ser eu a montar a minha própria banda, assumindo-me como o líder que, até então, nunca tinha sido. Falei com algumas pessoas, aproveitei um conhecido ou outro que aceitou prontamente o convite (não deviam ter, provavelmente, muita coisa para fazer na altura) e coloquei um anúncio na loja de música mais frequentada da zona (ser a única, pelo menos que eu conhecesse, ajudava), aconselhado por um dos tais conhecidos.

Surpreendentemente, em poucos dias arranjei dois dos membros de que precisava. Ficou apenas a faltar um vocalista, já que eu, embora assumindo as rédeas, não queria ficar na posição desconfortável de gajo que dá a cara e sofre as consequências. No fundo, preferia arredar a hipótese de levar com lingerie feminina na cara num dia bom mas não ter também de levar com cerveja morta e tomates podres num dia mau. Aliás, sempre que eu acordava, preparava-me para ter um dia mau. Os pessimistas são as pessoas mais felizes do mundo. Quando corre mal, merecemos; quando corre bem, fantástico, vamos aproveitar ao máximo o momento. É uma espécie de "carpe diem" dos pobres.

Desta vez, embora a estratégia passasse por insistir no esquema dos anúncios, que tão bons frutos tinha dado há uns dias, achei por bem tirar aquele que já tinha e limitá-lo apenas à procura de um ou uma vocalista, solicitando expressamente a marcação de uma audição. Na altura, as minhas referências tinham todas voz, e nem imaginava que hoje em dia teria um pendor especial para a música instrumental (termo que odeio, porque a voz também é um instrumento, e é impossível fazer música que não seja instrumental).

Não sabendo precisar os dias que se passaram desde a alteração dos parâmetros de pesquisa ao primeiro contacto telefónico sei, isso sim, que as únicas pessoas que ligaram foram, para minha sorte, adolescente de hormonas mais efervescentes que peta zetas, duas raparigas possuidoras de vozes adoráveis. Lembro-me do nome da segunda, Joana, mas não do nome da primeira. Chamemos-lhe, assim sendo, de Vanessa.

Pelo teor da conversa, a Vanessa estava à espera de que a tal audição fosse feita para fins um pouco mais  profissionais, e não para começar apenas mais uma típica banda de garagem (ou de sótão; prefiro banda de sótão; garagem soa-me sempre a barulho e desafinação). Não sei se foi o desespero para fazer parte de alguma coisa e poder cantar, mas a verdade é que desejou saber mais.

Vanessa - Então e onde é a audição?

Pedro (sem sequer ter pensado nisso antes) - A audição é no meu quarto.

Silêncio. Ao ouvir o eco da frase, como se não tivesse sido eu a dizer mas outro gajo qualquer, percebi logo como soava mal. Ficámos os dois calados um momento, até ter sido ela a decidir quebrar o impasse.

- Mas olha que o meu namorado é capaz de não achar bem.

É certo que a argumentação não foi a melhor mas, para todos os efeitos, eu ainda morava em casa dos meus pais e a minha vida desenrolava-se quase toda no meu quarto. Não ia marcar uma audição numa sala cheia de enciclopédias ou na cozinha. Mas pronto, não mais ouvi falar da Vanessa, fruto da minha falta de capacidade de desenrasque com o sexo oposto (bem, e com o sexo em geral).

A segunda miúda a ligar, que se chamava Joana, não devia ter namorado (ou então tinha mas não era o mesmo da Vanessa), porque eu voltei a meter a pata na poça e, mesmo assim, dias mais tarde estava com uma gaja giríssima enfiada no quarto, a quem eu só tiraria aquelas Doc Martens gigantescas e coçadas, aproveitando também, para descer o nível da maquilhagem de um onze para um três. De resto, não mudaria mais nada.

Com tantos pormenores na ponta da língua, não me consigo lembrar do que foi feito dela, já que, para além de cantar, ainda sabia tocar guitarra. Estivemos entretidos um bom bocado, o que sugeriria novas possibilidades de contacto. Mas não; não andávamos na mesma escola, os putos não costumavam ter telemóvel, e apesar dela ter o meu número de casa, não voltou a ligar e perdi-lhe completamente o rasto.

Hoje em dia, embora a minha capacidade de relacionamento com outros seres humanos tenha aumentado exponencialmente, dou graças à democratização da tecnologia. Permite-me estar a gravar a nova música que comecei hoje sem a ajuda de ninguém, sabendo que a minha namorada não se vai chatear por haver Vanessas e Joanas sentadas na minha cama com saias bem curtinha.

3 comentários:

Rafael Souza disse...

:)


(filmes, tantos filmes que se podem escrever a partir deste pequeno texto)

Pedro M. disse...

Lots of porn, espero.

Rafael Souza disse...

Nah, nem por isso. Coming of age/teen angst/indie drama.


Mas com as atrizes certas arranja-se qualquer coisa. A ver se acertamos aí os direitos das coisas e ainda fazes um cameo num cena à escolha.