segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Já não há ilusões



Lembro-me de uma vez ter visto a Sic. Já foi há muitos anos, mas ainda o recordo com um misto de mágoa e saudade. Eram tempos em que não quase ninguém tinha internet, quanto mais a perspectiva de gravações automáticas. Tínhamos de deixar a vida em suspenso se queríamos ver alguma coisa de que gostássemos, coisa que os putos agora, provavelmente, nem devem perceber.

Dizia eu que uma vez tinha visto a Sic. Talvez não o tivesse feito se não tivessem andado a anunciar exaustivamente que o guitarrista dos Guns N' Roses ia apresentar num programa português dois temas do seu primeiro álbum a solo. Salvo erro, a banda andava a atravessar um mau bocado (acho até que já se tinham separado oficialmente e tudo), após aquela tentativa falhada de álbum de covers cuja tradução em português duvidoso era "O incidente do esparguete". Por muito limitados que os Rolling Stones sejam, o mundo não precisava que outros andassem a fazer versões do Sympathy For The Devil piores que o original. Em suma, fazia sentido que houvesse uma separação e andassem a tentar lançar carreiras a solo, gerando idas a programas de televisão como forma de publicidade.

Liguei a televisão, suportei anúncios, um talk show/concurso miserável e artistas portugueses condizentes com o programa, já que nunca temos a certeza quando vai dar o bocado em que estamos interessados. Uma ida à casa de banho podia ser fatal; já muitas bexigas e/ou cuecas se estragaram à conta disso.

Finalmente, anunciaram com pompa e circunstância a tal apresentação dos novos temas do álbum a solo do guitarrista dos Guns N' Roses e lá nos aparece um americano exuberante com sua banda, daqueles tipos de exuberância que não havia em Portugal naquela altura até ter aparecido o "Ídolos" e termos achado de repente que éramos todos os artistas e que podíamos ser homens, dançar em palco como o Mick Jagger e o Axl Rose, e ainda assim ter esperança de engatar gajas (mas não, somos portugueses; boina na cabeça, pose séria e sofrida, e alternância nas mãos ora da enchada ora da rolha da garrafa de vinho verde que trouxemos com a merenda).

Só que o americano era o Gilby Clarke. O Gilby Clarke, caralho. Que eu me lembre, em todas as formações dos Guns N' Roses, houve apenas um guitarrista, e tudo o resto são apenas bandalhos agarrados a paus com cordas (facto que recordei em 2010 ou 2011 quando fui ver aquele concerto deplorável no então Pavilhão Atlântico). A Sic devia ter-me dado o Slash. Perdi uma hora e meia da minha vida, em que podia ter estado no sofá a jogar Mega Drive ou Sega Saturn (lá está, não me lembro do ano).

Passados estes anos todos já não guardo rancor à Sic, e de vez em quando até lá vejo o Telejornal. Não há rancor porque agora há a CMTV, embora seja melhor do que eu estava à espera no início (cada um que decida se eles se superaram ou se as expectativas eram mesmo baixas). Já não há ilusões. Se eles tivessem feito o mesmo anúncio, na melhor das hipóteses, ou aparecia o gajo que mudava as cordas ao Slash, ou o Paco Bandeira.

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