sábado, 26 de abril de 2014

E depois da crítica gastronómica, a cultural

O "Melhor Do Que Falecer" é apenas melhor do que falecer.

Pior, mas de cara lavada

A valorização de conceitos portugueses antigos através do novo marketing veio para ficar. Desdobram-se os negócios, uns de esquina e outros de maior porte, em que os produtos e estética antiga é misturada com frases e cores fortes. A malta dantes não era tão lavada como agora, e dava mais erros, mas não éramos totalmente maus. Havia coisas que ninguém conseguia fazer da mesma forma.

Para vos dar um exemplo, acho fantástico o conceito da Padaria Portuguesa. Nem todos os produtos têm o nível de qualidade que apregoam mas, desde que continuem a melhorar, são uma marca a ter em conta. Fiquei fã do H3 e só não volto lá mais vezes porque a minha namorada descobriu o Miit. Nunca pensei que se pudesse melhorar uma coisa tão banal como um mero bife de vaca com batatas e ovo. Afinal, parece que o facto de não haver ninguém a coçar os colhões enquanto mexe na carne, as paredes e o chão estarem cheios de gordura e os funcionários serem simpáticos e atenciosos, faz mesmo diferença. Os caramelos que andam de Porsche Panamera continuarão a ir aos mesmo restaurantes de vinte e cinco (+) euros por pessoa, mas os pobres que têm fome no centro comercial de tanto andar a olhar para coisas que, provavelmente, não devem comprar, agradecem. Todos são filhos do senhor e merecem divertir-se.

Por outro lado, também há maus exemplos. Se eu abrisse uma casa de alterne e lhe pusesse o nome, sei lá, de "Os Lábios Carnudos e Gourmet da Laurinda", estava à espera que, optando pelo menu base, independentemente do preço, me fizessem um bruto de um felácio, daqueles mesmo gostosos. Bruto, mas limpo e com boa cara, que ao nos atenderem num sítio não nos estão a fazer favor nenhum, muito pelo contrário.

Um prego é uma coisa básica. Não há português com sistema digestivo intacto à nascença que não tenha comido um prego que seja na vida. Sendo assim, quando metem Gourmet à frente de Prego, eu estou à espera de que seja bastante bom.

Começa logo pela premissa. Um ritual português aperfeiçoado, dizem eles. Engraçado que nem portugueses vi a trabalhar lá àquela hora, mas pronto. O que conta é o prego, e um estrangeiro não tem, à partida, menos capacidade para ser simpático que um português. A verdade é que quem trabalhava ali parecia que estava a fazer um esforço do caralho para nos atender. Eu sei que é difícil ser-se simpático quando se está a receber uma míséria, mas quem não tem mesmo a culpa disso sou eu. No Miit, quando percebem que é a primeira vez que lá vão e não estão familiarizados com o conceito, desdobram-se em explicações para cativar o cliente, não se limitando a fazê-lo apenas ao princípio. Mais do que conseguir que uma pessoa coma num sítio pela primeira vez, convém dar-lhes motivos para lá voltar.

Mesmo assim o prego ainda podia ser bom. Mas não, era uma merda. Se comi tudo? Comi, estava varado de fome. A minha pele estava quase a ficar daquele castanhinho-etiópia que não combina nada com as tendências da estação. Ainda assim, não gostei. A carne era fraquita, o pão não era fresco, o molho era súper duvidoso, e tanto as batatas como o arroz deixavam no final um sabor a hospital na boca. Era qualquer coisa como se as fritassem numa mistura de óleo com Tide. Num lado, cozinham na hora; no Prego Gourmet, aquecem na hora.

Lembro-me de um episódio do Seinfeld em que a Elaine andou a comer umas sandes muito más só para poder ter acesso à sandes grátis ao entregar o cartão do restaurante preenchido. Neste caso, o cartão do prego vai direitinho para o lixo. A partir de agora, não basta pôr uma boina de fazenda na tola para me convencerem a consumir seja o que for.

domingo, 20 de abril de 2014

Domingo de Páscoa

Almocei numa terra chamada Vermelha. O Benfica ganhou o campeonato. Sou do Sporting.

Jesus, supostamente, ressuscitou. Sou ateu.

Existe alguma aldeia chamada Verde onde se coma uma boa dobrada?

terça-feira, 15 de abril de 2014

E agora que a Ursa voltou

O mundo divide-se entre...

...os pais que imitam o choro dos filhos quando fazem birra e os pais que os agarram pelo braço e os arrastam pelo corredor dos doces do supermercado os outros.

Não há mais opções sem ser estas, pois não, seus maricas adoradores de bebés? Óptimo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Não, agora a sério.

Existe mesmo zumba para crianças? Terei lido mal? A ser verdade, a Segurança Social não faz nada para tirar as crianças aos pais? Faço um apelo à Felícia Cabrita para investigar este submundo. Depois de tanto espalhafato com a Casa Pia, parece-me feia esta dualidade de critérios.

Adenda: ui, que também há zumba específico para a terceira idade. Caracteriza-se por movimentos mais lentos, destinados a quem quer praticar exercício físico com este tipo de música. Chamam-lhe de Zumba Gold. Eu sabia que havia um nome para isto, mas pensava que era apenas "eutanásia".

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A verdadeira dinamização dos serviços públicos

Ao contrário de certas figuras do panorama político nacional, eu passo o dia à procura de soluções que nos permitam recuperar uma melhor saúde financeira.

A minha última ideia diz respeito à área da Justiça. Albergo o sonho de a vir a expôr pessoalmente a Paula Teixeira da Cruz, a minha ministra preferida da actual legislatura (e uma das poucas que se aproveita). Não tenho dúvidas de que seria vista com bons olhos.

Imaginem que fazem anos no dia 12 de Maio. Uma semana antes recebiam uma cartinha em casa a dizer que tinham sido alvo de uma queixa-crime. Não explica muito mais do que isso, para além da informação acerca da multa no caso de não-comparência.

Tendo em conta que a maior parte das pessoas nunca esteve num julgamento, é natural que estivessem todas borradas de medo enquanto esperavam pela chamada do oficial de justiça.

Entravam na sala, fria e imponente, e os amigos saiam de trás da cortina e gritavam "SURPRESA!". Quem não gostaria de um aniversário assim?

A partir do momento em que a prática se generalizasse, tornar-se-ia de igual modo útil para apanhar bandidos daqueles dos mesmo maus. Recebiam a queixa-crime mas pensavam "sacana do Tó Zé, organizou-me um aniversário surpresa, ganda porreiraço". Chegavam lá, eram acusados de ter roubado um suporte de facas na loja do Gato Preto, tráfico de droga ou tentativa de violação da velhinha que mora isolada lá no casal do monte e pronto, ficavam logo presos que nem um golfinho apanhado numa rede ilegal para a pesca do atum.

Outra coisa porreira, caso isto não vos soe bem, era usar o tribunal para despedidas de solteiro. A malta chegava lá e, consoante as preferências sexuais, era ver uma data de gente bem tesuda a tirar as togas e becas e fardas e afins. Eram tardes bem passadas e sempre se podia inventar mais uma modalidade de taxa de justiça. Queixam-se de andar a querer fechar os tribunais e assim sempre se rentabilizavam os espaços.

Vou criar uma petição para levarmos isto para a frente. Estão todos comigo, certo?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Alguém com a mesma versão que eu?

Com a primavera suspensa, como se estivesse de quarentena, já não aguento esperar pelo sol. As últimas promoções do Continente e da Fnac permitiram a aquisição de uma mão cheia de livros do Saramago que ainda não tinha lido. Dito assim, parece que li muitos; na realidade, tenho vergonha suficiente na cara para admitir que ainda só tinha lido o Ensaio Sobre a Cegueira. Gosto de livros de humor, e tudo o que tenha pessoas com falta de visão a tropeçar em coisas constitui imediatamente comédia física da boa.

De todos os outros, aquele de que tinha mais vontade de ler era a Jangada de Pedra. Não gosto de dramas da vida real, e os conceitos escapistas de Saramago são perfeitos para quem lê como outros bebem: para esquecer. Tenho andado a saborear o livro, sem grandes sofreguidões, tentando apenas imaginar que faço parte daquele grupo de personagens, que partilhamos as mesmas dúvidas, que seremos atingidos pelo mesmo destino.

Dizia eu que já não aguentava mais esperar pelo sol a sério, sem ter oferecido qualquer tipo de desenvolvimento subsequente. A verdade é que, para quem já está nos trintas (mas com uma pele imaculada de dezoito anos e um cérebro jovial de doze), aquele ar paneleirote de quem se instala pretensiosamente numa esplanada a ler começa a tornar-se ligeiramente atractivo. Mais, caso se façam acompanhar da vossa parelha, o glamour envolvente aumenta de forma substancial. Se forem os dois apreciadores do mesmo autor, mais perfeito se torna o quadro. A ideia é mostrar que se lê ao ar livre, de dia, e se deixa a cama e a noite para outras actividades. De casais de ar intelectual a ler na cama já está o mundo cheio.

Na edição que estou a ler (aquelas de capa amarela) uma das personagens vê o seu apelido vilipendiado a dada altura. Num livro em que tão poucos nomes concretos são referidos, nem a minha tremenda ingenuidade e o estilo denso de escrita me conseguiu fazer acreditar que aquela referência seria a uma personagem nova e não a uma já existente. Digamos que, numa ocasião, José Anaiço passou a ser José Anal. Não me recordo ao certo da página, mas se não acreditarem, poderei até tirar uma fotografia (o problema é vasculhar isto tudo de novo). Sendo que, até agora, tenho ideia de haver sempre em Saramago algumas referências a sexo descritas de forma um tanto ou quanto austera, o engano no apelido uns capítulos mais à frente teria dado espaço para umas gargalhadas valentemente badalhocas (não é para tanto, mas lembrem-se da referência anterior à faixa etária do meu cérebro). Assim sendo, e ainda por cima num livro que começa logo com uma mulher constantemente agarrada a um pau, é apenas curioso.

Há por aí mais testemunhas deste crime? Qual foi a vossa reacção? Contem-me tudo com pormenores.