sábado, 26 de julho de 2014

Os blogues...

...são, cada vez mais, uma espécie de paralímpicos da escrita, sendo que tenho um bocado mais de respeito pelos intervenientes de uns do que pelos outros. Há muito mais blogs do que havia dantes, remetendo os poucos que são bons para o limbo da qualidade. Aos velhos consagrados acabaram-se as ideias; nos novos que se põem em bicos de pés, engraxando sapatos nas caixas de comentários dos primeiros,  reconhece-se  aquela ingenuidade de quem acha que vem trazer algo de novo ao mundo, que tanto faz sorrir de ternura os mais esclarecidos.

Porque não acabam? Porque há quem viva disto, porque há quem pense que viva disto, e porque há quem pense que algum dia vai viver disto. Os outros, ou vivem na ilusão, ou olham para o seu blogue como um pequeno Schumacher. Nunca se desiste dele e honra-se a sua memória, ainda que se saiba que nunca mais vai voltar a ser o que era no início.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Bateram nos mininos!

Os judeus podem parar de se queixar. Este holocausto está a ser muito pior.

sábado, 5 de julho de 2014

Por terras de El-Rei D. Cavaco...

Num palco pequeno improvisado no largo da igreja, há um velhote que anima um arraial de bairro com o seu orgão electrónico. Felizmente, o instrumento já tem os ritmos programados, visto que o velho, sentido de ritmo, não tem nenhum. Toca toscamente as melodias principais das músicas por cima, cantando em seguida ainda mais toscamente.

A melhor música do reportório, até agora, foi a "Ternura dos Quarenta". A palavra quarenta foi estrategicamente susbtituída pela palavra sessenta, já que, tirando meia dúzia de putos que nunca farão mais do que o nono ano, essa parece ser a idade mínima da populaça que assiste ao espectáculo.

O senhor parece mesmo estar quase a morrer. Careca, mas com a parte de trás do cabelo algo comprida e pintada de negro bem negro, mexe-se quase tão bem como a minha avó materna, Deus a tenha. Infelizmente, não passa de ameaço. Eu bem queria que ele fosse para pé dos seus entes queridos que já partiram, mas o filho da puta teima em não dar início ao ataque cardíaco que já se impõe há mais de meia hora.

Não havendo ataque cardíaco, ponho-me a pensar, em jeito sonhador, no assassinato de JFK. Acho que esta era uma das situações em que uma iniciativa destas tinha tudo para correr bem. Ainda por cima, o alvo nem sequer está em andamento. Olho para as janelas dos prédios em redor, mas não consigo vislumbrar a ponta de nenhuma espingarda pronta a disparar. Tenho de me lembrar de ver se na Sport Zone há pressões de ar à venda. Não quero ir parar à prisão, mas sinto-me na obrigação de provocar uns sustos em eventos futuros.

A meio de um "põe a mão na cabecinha, agora na cinturinha, vai acima, vai abaixo", pára de tocar, ficando apenas o orgão a debitar o ritmo e, com voz séria, lança o aviso "ATENÇÃO, ATENÇÃO, achou-se uma dentadura postiça ao pé do bar". Não só temos um excelente músico, como um boletim informativo, embora incapaz de anunciar o seu próprio (e desejado) óbito.

De forma totalmente aleatória, e sempre sem desligar o órgão, grita as seguintes pérolas:

- Isto é música a gasóleo, só pára aos cinquenta litros!

- Eu hoje estou muito feliz porque a minha sogra de oitenta e cinco anos ficou grávida.

Finda a alarvidade não anunciada, continua a sua performance. Como não podia faltar numa altura destas, passa em revista de rajada os principais sucessos de Quim Barreiros. Como se diz na gíria musical, estamos perante um merdley da mais fina categoria. Quem já não suportava o original e anda a ponderar o suicídio, tem aqui uma excelente oportunidade de ganhar a coragem necessária para dar o passo seguinte e elevar a sua vida a outra nível.

Sou só eu que acho extremamente nojento um velho desta idade cantar "ai se eu te pego, ai ai se eu te pego", enquanto miudinhas pequeninas se abanam desconjuntadamente? São estes os gajos que andam nos jardins apenas de gabardine, à caça das moças mais incautas.

Tinha esperanças de que o "apita o comboio" fosse sinal de que o concerto estivesse quase a chegar ao fim. Não está. Eu continuo a escrever, ele continua a cantar. Ele quer que a multidão dance, eu quero que o comboio descarrile mesmo e se venha enfaixar aqui pela zona da igreja. Nem todos têm o mesmo direito à vida.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Queriam empreendedorismo? Eu dou-vos empreendedorismo.

Uma característica que une os seres humanos é o facto de não sabermos aceitar um conselho vindo de alguém que percebe mais de qualquer assunto do que nós. Se juntarmos a isso um diploma pendurado na parede com uma média final acima de 12 valores, o efeito acaba por ser multiplicado.

Por isso, e como gosto de dinheiro, decidi criar um conceito inovador: A Consultoria Leiga®.

Na Consultoria Leiga® comprometemo-nos a não saber mais do que ninguém. Se alguém tiver uma dúvida acerca de um investimento, poderá ouvir de nós um "neste mercado? epá, eu não me metia nisso" , ou até um "olhe que, sendo a sua senhora tão jeitosa, e tendo de trabalhar até tão tarde numa primeira fase, arrisca-se a chegar a casa e estar ela toda espojada com outro marmanjo na cama do IKEA que você mesmo montou com esforço". Mandaremos pessoas ir ao médico imediatamente quando confrontados com fungos nos pés verdadeiramente medonhos, mas providenciaremos o conforto necessário quando nos mostrarem aquele sinal pequenino que tanto vos aflige e que, com sorte, não deve ser nada de especial.

Poderão achar que isto já existe, mas eu explico-vos porque é que não consideramos a Maya ou a "Dra" Maria Helena daquela chachada do tarot das manhãs como concorrentes válidos. Temos factores diferenciadores face a estas senhoras. Não temos ar de tolinhos, não tentamos vender santinhos nem chás nem cristais purificadores, e recebemos as pessoas num escritório com mobiliário moderno, de fato completo, oferecendo o máximo sigilo. Diria mesmo que o fato e a formalidade estão no topo das prioridades; embora, como já foi referido, ninguém goste de acatar conselhos de pessoas que, sobranceiramente, sabem mais que nós, se for um Barnabé qualquer de fato, sapato polido e barba aparada, o nosso respeito aumenta automaticamente. Mais do que ser, há que parecer, e o nosso povo sabe respeitar isso.

Por preços verdadeiramente competitivos no mercado, faremos aquilo que nem um amigo ou profissional qualificado pode fazer. Os amigos, ou nos apoiam cegamente em tudo, ou estão sempre a dar para trás porque não nos acham grande espingarda para mais do que beber uns copitos durante a bola; o profissional qualificado só quer rebaixar-nos e ficar com o nosso dinheiro. Na Consultoria Leiga® não somos vossos amigos. Percebemos umas coisitas sobre quase tudo, mas também não é assim nada de especial. Ainda nem abrimos e já contamos consigo; conte também connosco.


 PS: Só me estou a meter nisto porque a ideia das festas surpresa em tribunais não está a ter o retorno pretendido. Surpreendente, não é?