sábado, 27 de setembro de 2014

Spared no expense!

A minha namorada recebeu a seguinte carta:


Exma. Senhora,

A Marionnaud no seu aniversário dá-lhe a maior prova de amor!

Porque o seu aniversário é para nós uma data muito importante, queremos contribuir para que este seja inesquecível!

É com o maior prazer que lhe enviamos um cheque de 7,5€, que poderá descontar numa das nossas perfumarias, comprando o presente especial para si própria e desfrutá-lo no seu aniversário.


yadayadayada


Nesta data tão especial, dedique a si própria esta prova de amor!

Aguardamos a sua visita.
Feliz aniversário,

Marionnaud Paris,
Todos os dias provas de amor


Perante isto, preciso que me confirmem uma coisa:

Se lhe puser sete euritos e cinquenta cêntimos num envelope, já dá uma boa prenda, não dá? Queria cumprir bem o meu papel de namorado e garantir que ela tinha um aniversário perfeito com provas inequívocas do meu amor...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ditador fraquinho

Gostava de ser ditador. Juro que gostava. A ideia não era ser um homem implacável, de quem o povo tivesse medo. Seria um gajo porreiro na mesma; simplesmente queria beneficiar da margem de manobra para, de modo célere, acabar por decreto com certas coisas que me enervam. Claro que se alguém fosse apanhado a dizer mal de mim, era atá-lo com uma corda a um cavalo selvagem e disparar um tiro para o ar. No meio de silvas e pedregulhos.

Dou-vos um exemplo: acabava com a música pimba nos programas da tarde da televisão generalista. Melhor, acabava com aquele tipo de formato de vez. Logo se via qual seria o melhor substituto. Se calhar, proibir totalmente não é a melhor forma de lidar com o assunto, já que os parolos também têm o direito ao entretenimento. Pronto, mudava apenas o horário para as cinco da manhã, eliminando a possibilidade de usar a box para gravar e ver mais tarde. Quem quiser mesmo, há-de arranjar maneira de se desenrascar.
 
Hoje acordei com vontade de acabar com as selfies. Já muita gente disse mal delas mas, até há bem pouco tempo, não me faziam confusão (ao contrário daquela bardamerda das fotos das mãos em forma de coração com o caralho do sol lá dentro). No entanto, bastou-me ir ao mercado de Campo de Ourique à noite (que depois da renovação se tornou um dos locais por excelência para essa pratica fotográfica do demo) para fazer parte do grupo dos que as odeiam de morte (precisamente o tipo de ódio que não convém que haja no coração de um ditador). Estavam três fashionistas, duas magritas e uma mais lontra mas com esperanças de futuro (por acaso até das mais bem vestiditas, tadinhas, e não daquelas pindéricas com colares gola e nhonhozices que tais) a jantar numa mesa. Utilizo jantar de forma figurativa, já que as tipas sacam dos tablets e dos smartphones do coldre, que nem pequenas Steve Jobs do faroeste, e começam a tirar fotografias a elas e à comida como se a sua vida dependesse disso. E isso, quanto a mim, não é comer. Ai amiga, só mais uma assim, só mais uma assado, e por aí fora. Isto durante DEZ minutos.

A educação, por vezes, some-se do corpo, presumindo eu que tenham ouvido da minha boca pérolas como "tanta criança com fome e essa comida toda a arrefecer à conta da vossa mariquice". Bem, desta frase lembrei-me eu só agora; na realidade foram coisas que envolviam pénis e formas verbais do verbo fornicar em voz alta. Falta uma vírgula a seguir a fornicar. Não é que não se possa fazê-lo em voz alta, mas eu é que disse fornicar muitas vezes com volume superior ao socialmente aceite. Assim muitas vezes, tantas quanto as que escrevo agora ao abusar do preciosismo nos detalhes.

 Eu sei que é irracional e mesquinho preocupar-me tanto com este tipo de futilidades, ainda para mais quando aquilo que me irrita costuma ser completamente aleatório. Mas, não tendo eu poder para acabar com aquela prática, tinha esperanças de que pelo menos a gorda estivesse completamente desesperada para começar a comer e tentasse fazer ver às amigas que aquilo assim não podia ser e que era uma falta de respeito para os epilépticos que estavam a apanhar com os flashes nos olhos e que tudo o que é demais enjoa. Mas não, era a mais contente das três.

Suspeito que ela sabia o que se ia passar e que, antes de chegar ao mercado, esteve a enfardar dois palmiers cobertos e uma bola de berlim. A maquilhagem dela não tinha pupurinas, aquilo era açúcar nas beiças.

sábado, 13 de setembro de 2014

Expressão capaz de inundar de terror o mais rijo dos homens

- Amor, vamos à Vogue Fashion's Night Out?














Outra expressão do género é quando, durante as entrevistas, a entrevistada é sempre a típica tiazoca (tenha vinte ou quarenta anos) de voz afetada, que face a um pedido de avaliação do evento, diz sempre que é óptimo, que é uma noite giríssima cheia de gente gira e de glamour. Quando não é uma gaja é um tipo qualquer de pullover aos ombros, sapatos de vela e calças cremes tipo JSD/JS. A resposta é também blah blah "gente gira e glamour". Os meus intestinos estremecem de cada vez que oiço isto. É igual ano após ano após ano. Falam como se os pobres e os mal vestidos não tivessem lugar no mundo e esta fosse a melhor noite PORQUE SÓ SE VÊ GENTE GIRAAAAAAAAAAAAAAAH, TÁ A VER. Ao menos finjam que são gente decente e despreconceituosa, que é o que eu faço.

Se eu fosse repórter, não me focaria tanto no evento. Perguntaria antes qualquer coisa do género "a senhora usa o seu bidé regularmente" ou "que tipo de música gosta de ouvir quando faz cocó". Seria apenas um teste para ver o seu grau de surpresa e se saberiam reagir atempadamente. Temo que o resultado final não fosse muito diferente do observado e levasse com um "ai, adoro, só se vê gente gira com muito glamour".

Poderia alongar-me mais, mas estou atrasado. Vou passear um bocado ao Sunset Moscavide. Tchau, babes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Paralelismos improváveis

Quem conhece a famosa escultura de Auguste Rodin, conseguirá visualizar na perfeição a postura que adoptei nos últimos três dias. Para muitos, parar para pensar é uma perda de tempo; para mim, estes períodos de seclusão alcançam sempre uma finalidade prática, que me faz crescer enquanto ser humano e membro de pleno direito de uma sociedade que caminha rumo ao conhecimento pleno.

O que, numa primeira análise, poderia ser uma incompatibilidade de género, tornou-se para mim num paralelismo claro e objectivo. Álcool e papel higiénico são duas coisas que andam de mãos dadas e ninguém o sabia até hoje.

Quando queremos esquecer fases menos boas das nossas vidas, ou quando apenas precisamos de nos libertar de alguns dos nossos mais castrantes filtros, o álcool, até certo ponto, é o nosso melhor companheiro. Se o objectivo é apenas a mudança de consciência, qualquer coisa serve. Se qualquer coisa serve, faz sentido que se opte pela opção mais barata. De facto, numa semana académica, a título de exemplo, ninguém se passeia pelo recinto agarrado ao seu copinho de plástico contendo dois ou três dedos de Bushmills. Cerveja chega, não nos leva à falência, e permite até controlar o ponto de rebuçado da bebedeira com mais eficácia, sem correr o risco de ir parar às urgências do hospital mais próximo. Nem sequer é preciso uma cerveja de marca.

Porém, em momentos de excepção, seja para festejar alguma efeméride ou para saborear de vez em quando na presença de amigos, convém que haja sempre na nossa garrafeira particular uma ou duas garrafas de algo mais refinado. Não se pode atribuir um preço a momentos de felicidade, e a finalidade passa a ser o prazer de beber em si e não um mero caminho para a perda de consciência.

Do mesmo modo, quando precisamos de fazer cocó, qualquer papel higiénico serve. Sempre que no Continente passamos perto da respectiva secção, eu próprio pergunto em voz alta (às vezes alta de mais) para a minha senhora se "temos papel de cagar", nutrindo um total desprezo pelas marcas. Lá está, aquilo vai tocar na coisa mais vil que há na existência humana. Havendo recursos limitados, prefiro sempre gastar mais dinheiro numa boa alimentação do que nas matérias primas referentes ao subsequente processo da sua eliminação.

Mesmo assim, e citando uma frase que os pobres costumam dizer muito, "um dia não são dias". De vez em quando temos visitas em casa, e aí nunca fica mal que sejam presenteados com a melhor colheita de Renova Vintage disponível no mercado. "Vocês devem estar bem na vida, este pack de 24 rolos custa um dinheirão, mesmo quando há 50% de desconto em cartão". Ponham o vosso melhor sorriso, façam de conta que não se passa nada, e passem a bola para o outro lado com um "o quê?! não me digam que vocês limpam o rabo com marca branca..." carregado do mais subtil pedantismo.

Não é esta, no entanto, a altura em que um bom papel higiénico pode fazer a diferença. Como já vos tinha dito, se tirarem a barba e substituírem a pedra por uma sanita, eu sou a coisa mais parecida à face da terra com a escultura supracitada. Parece que deus me andou a fazer clísteres tão violentos quanto sucessivos nos últimos dias. Parecia a miúda do exorcista, so que em vez da cabeça e do pescoço eu rodava era da cintura para baixo. É sempre por causa de alguma coisa que comi, como toda a gente diz, e não porque o cabrão, quando lhe dá para isso, é capaz de ser dos gajos mais sádicos de que há memória. Somos sempre pecadores, nunca santos. Tenho o cu todo rebentado, e nada disto teria acontecido se tivesse na minha dispensa uma pequena reserva do papel mais suave que há, reservado para ocasiões destas, em que a necessidade ocasional fala mais alto do que a funcionalidade primordial.

Um dia não são dias. Para a próxima estarei preparado.