segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Tradições, aleluias e coisos

Embora o meu jesuscristês esteja enferrujado há umas boas meias dúzias de anos, ainda tenho presente quando é que se celebra o Natal e a Páscoa. Hoje, por exemplo, não é dia nem de um, nem de outro, mas está a dar a Páscoa na televisão. Eu sei disso, mas as pessoas que trabalham na RTP Memória não sabem, e é um canal que ainda anda a transmitir jogos do Benfica contra o Salgueiros nos anos noventa. É estranho uma coisa ter memória no nome e não saber a quantas anda, mas eu folheei uma vez um livro do Gustavo Santos e lá ensinava a importância de saber perdoar. Ou aquilo não foi traduzido em mais do que duas ou três línguas, ou então israelitas e palestinianos não têm acesso aos livros dele, porque eu até aprendi num instante e lá dei um desconto quanto à relevância da emissão.

Dizia eu que estava a dar a Páscoa na televisão. Cheguei até essa conclusão um bocado antes da voz off o ter denunciado porque estava um padre e uns quantos ajudantes a entrar pelas casas das pessoas adentro, numa daquelas terras onde quase todos são Telmos e Sónias do Big Brother, só que em diferentes estados de pilosidade e envelhecimento. Os mais velhos vestiam fatos dois tamanhos acima e os mais novos iam agarrados a uns chocalhos polidos, que abanavam freneticamente enquanto gritavam aleluia a rir. Era fervor religioso, segundo o locutor.

Apesar de tudo, não parecia ser tempo de crise, já que a quantidade de doces e enchidos nas mesas era directamente proporcional à probabilidade de se apanhar herpes. Acho mal a comitiva levar uma imagem só para tanta gente; aquilo era tão rápido que a coisa nem tinha tempo de secar, de tanta saliva em forma de fio e perdigoto que levava. Também só agora com as redes sociais é que se começou a propagar mais a importância da higiene.

O escrutínio apertado do padre parecia impedir que houvesse gente a tentar falsificar os repenicos, mas uma análise mais cuidada levou-me a pensar que uma das Sónias mais velhas tinha aprendido o truque para não se lambuzar de forma indirecta na vizinha do lado, beijando outra zona que não os pés, como é habitual. Sendo que ela queria falhar propositadamente essa parte, e beijar Cristo na boca deve ser pecado, ela apontava exactamente para a zona que mediava a cabeça e os pés. Houvesse ali falta de fralda e aquilo seria o primeiro mini bobó pascal televisionado da história.

Acontece que, a certa altura, reparei que a norma era quase toda a gente beijar as partes à imagem e nunca os pés, que também são partes, mas não daquelas. Afinal não era uma questão de higiene. Podia ser o malandro do padre que punha a estatueta a jeito e depois a desviava um bocadinho para baixo, divertindo-se com as caras envergonhadas que tinham ido com a boca ao sagrado trombone. Também podiam achar todos que estavam a ser espertos e que, para além da Gracinda que esteve uns anos na América a servir e até casou por lá (a porca), mais ninguém ia beijar ali. A lâmina de occam, no entanto, obriga-nos a focar no facto da hipótese mais simples ser quase sempre a correcta, e por isso deviam era ser todos uns javardos. Afinal na televisão estavam ou não estavam a mostrar como eram as gentes do campo no período pré-Bolonha?

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