Cheguei a casa mais cedo do que o habitual. Só tenho de sair de novo daqui a umas duas horas.
Encho uma taça com gelatina de pêssego e ligo a televisão. Por sorte, estava mesmo a dar o programa que me apetecia ver, o Especial Fátima da Praça da Alegria.
Senhora idosa, com poucos estudos, é entrevistada acerca da razão de ser peregrina. Veio para agradecer a nossa senhora de Fátima. E porquê, pergunta Jorge Gabriel? Porque tem um marido com Parkinson, uma filha com esclerose múltipla, e ela própria tem problemas de locomoção e diabetes. Engraçado não ter abordado o problema da fraca escolaridade, de oportunidades na vida e sentido crítico. A nossa senhora é uma segunda mãe para ela, segundo conta. Olha que mãe do caralho. Se eu tivesse contactos em lugares de poder, não tinha de ir dar formação à noite, de modo a poder financiar os gostos caros da minha namorada (sim, porque não é com a minha fraca figura na cama que isto vai lá).
Como esta história, muitas outras são mostradas. A fé desta mulher, perdão, as fezes desta gente toda, são um catalisador para que eu fique emocionado durante um bom par de minutos. Tão emocionado que vou mudar de canal e repetir a dose de gelatina. Chamemos-lhe um gesto de penitência.
PS: Quem achar que não há uma forte correlação entre habilitações académicas/nível cultural e crenças religiosas, no sentido da inversa proporcionalidade, é um bidé mal lavado.