quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Amor a meias

        Só mesmo quando uma pessoa ergue as mãos aos céus e pede para que um elástico se alargue um pouco é que a força misteriosa que nos rege teima em não anuir. Eram as meias mais fantásticas de que há memória na história recente da minha gaveta de roupa interior, mas caralhos me fodam se aquelas marcas de falta de circulação não eram o presságio de morte por algum tipo de condição ligada a uma deficiente irrigação sanguínea. Aliás, aquilo não eram marcas; eram autênticos sulcos de um qualquer leito de rio, embora se situassem acima do tornozelo e não pelos lados de alguma terra plantada arriba tejo. Afinal, quem teria a coragem necessária para mandar fora umas meias perfeitamente intactas, que não mostravam sinais de enfraquecimento nem no dedão nem tampouco no calcanhar, logo abaixo do tendão que comprometeu o bravo Aquiles? Seria como uma família de classe média-baixa doar um filho recém-nascido para adopção só porque ambos os cônjuges tinham acabado de saltar de escalão de IRS, negando a hipótese de aceder, nesse ano, ao último terminável móvel topo de gama a prestações, com um pacote com mais minutos do que aqueles que seriam capazes de gastar se ainda tivessem amigos ou toda a família viva.

        Não se deitam fora meias que sobreviveram a casamentos, baptizados, funerais, até a vários jogos de futsal a meio da semana, só porque causam um ligeiro desconforto que nos deixa a sensação leve de que podemos morrer. Não, aprende-se a lidar com a dor, essa insaciável companheira, e tomamos para nós como certo o compromisso de que aquelas serão as luvas dos pés que nos protegerão do frio mesmo no dia do nosso próprio funeral, em si pequenitos caixões das nossas extremidades mantidas unas na caixa que será nossa morada última na breve passagem por este nobre corpo celeste. Em função do odor a que a zona obriga, este é um amor austero mas, minhas queridas meias, adorar-vos-ei até ao meu último sopro ténue de vida.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dantes é que era bom?



Ao contrário da opinião de cerca de 99% dos comentários no facebook da revista que "postou" originalmente esta foto, tenho apenas uma coisa a dizer:


Que infância mais merdosa!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ser-se de esquerda nos dias que correm

Não julguem que é por falta de solidariedade; eu próprio sou meio canhoto, já que escrevo (entre outras coisas) com a mão direita mas chuto com o pé esquerdo. Percebo que haja coisas que tenham de ser adaptadas para essa realidade, mas não consigo perceber a reivindicação de que se tenha de fazer tudo para canhotos.

Por exemplo, não há pianos para canhotos. Então, assim sendo, porque é que se faz tanta fita para que haja mais modelos de guitarras para canhotos? Estamos a aprender uma coisa nova de raíz, que exige actividades independentes às duas mãos, embora sincronizadas, o que nivela o patamar para ambas as orientações. Quanto muito, os canhotos estão em vantagem, já que se exige muito maior memória muscular e movimento fino à mão esquerda do que há direita.

 Fazendo uma pesquisa rápida, até flautas para canhotos há. O que se segue a seguir? Pilas para canhotos? Umas mais entortadas para um lado e outras para outros? Então e se o possuidor da pila canhota tiver uma namorada destra? Não se pode sentar ao lado dele para proporcionar algum auxílio em horas de necessidade? Terá obrigatoriamente de se posicionar à frente dele? É que, parecendo que não, o contacto visual pode ser desarmante para algumas pessoas em determinadas situações. Para mim não, que sou um animal.

Vejam lá isso.

sábado, 22 de novembro de 2014

E ainda não é Natal

O que terá sentido José Sócrates quando passou mais uma vez pela placa com o seu nome, revelada pela primeira vez na inauguração do Campus de Justiça?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Episódios de uma adolescência pouco desabrochada

Tocar guitarra sempre foi um catalizador para perder alguma da minha timidez natural. Quando comecei a aprender e a entusiasmar-me mais, lá para finais do secundário, tentei até participar nalgumas bandas com as poucas pessoas que se cruzaram no meu caminho, resultado da junção de uma cidade pouco musical com a minha introversão.

Ao princípio, a minha falta de destreza a minha personalidade pouco cativante e, mais tarde, a minha personalidade pouco cativante a minha falta de destreza, fizeram com que essas pessoas não me aceitassem ou que, no caso de se tentar fazer algo, o seu fim fosse quase sempre célere.

Farto da situação, e aproveitando um rasgo de estupidez, decidi que ia ser eu a montar a minha própria banda, assumindo-me como o líder que, até então, nunca tinha sido. Falei com algumas pessoas, aproveitei um conhecido ou outro que aceitou prontamente o convite (não deviam ter, provavelmente, muita coisa para fazer na altura) e coloquei um anúncio na loja de música mais frequentada da zona (ser a única, pelo menos que eu conhecesse, ajudava), aconselhado por um dos tais conhecidos.

Surpreendentemente, em poucos dias arranjei dois dos membros de que precisava. Ficou apenas a faltar um vocalista, já que eu, embora assumindo as rédeas, não queria ficar na posição desconfortável de gajo que dá a cara e sofre as consequências. No fundo, preferia arredar a hipótese de levar com lingerie feminina na cara num dia bom mas não ter também de levar com cerveja morta e tomates podres num dia mau. Aliás, sempre que eu acordava, preparava-me para ter um dia mau. Os pessimistas são as pessoas mais felizes do mundo. Quando corre mal, merecemos; quando corre bem, fantástico, vamos aproveitar ao máximo o momento. É uma espécie de "carpe diem" dos pobres.

Desta vez, embora a estratégia passasse por insistir no esquema dos anúncios, que tão bons frutos tinha dado há uns dias, achei por bem tirar aquele que já tinha e limitá-lo apenas à procura de um ou uma vocalista, solicitando expressamente a marcação de uma audição. Na altura, as minhas referências tinham todas voz, e nem imaginava que hoje em dia teria um pendor especial para a música instrumental (termo que odeio, porque a voz também é um instrumento, e é impossível fazer música que não seja instrumental).

Não sabendo precisar os dias que se passaram desde a alteração dos parâmetros de pesquisa ao primeiro contacto telefónico sei, isso sim, que as únicas pessoas que ligaram foram, para minha sorte, adolescente de hormonas mais efervescentes que peta zetas, duas raparigas possuidoras de vozes adoráveis. Lembro-me do nome da segunda, Joana, mas não do nome da primeira. Chamemos-lhe, assim sendo, de Vanessa.

Pelo teor da conversa, a Vanessa estava à espera de que a tal audição fosse feita para fins um pouco mais  profissionais, e não para começar apenas mais uma típica banda de garagem (ou de sótão; prefiro banda de sótão; garagem soa-me sempre a barulho e desafinação). Não sei se foi o desespero para fazer parte de alguma coisa e poder cantar, mas a verdade é que desejou saber mais.

Vanessa - Então e onde é a audição?

Pedro (sem sequer ter pensado nisso antes) - A audição é no meu quarto.

Silêncio. Ao ouvir o eco da frase, como se não tivesse sido eu a dizer mas outro gajo qualquer, percebi logo como soava mal. Ficámos os dois calados um momento, até ter sido ela a decidir quebrar o impasse.

- Mas olha que o meu namorado é capaz de não achar bem.

É certo que a argumentação não foi a melhor mas, para todos os efeitos, eu ainda morava em casa dos meus pais e a minha vida desenrolava-se quase toda no meu quarto. Não ia marcar uma audição numa sala cheia de enciclopédias ou na cozinha. Mas pronto, não mais ouvi falar da Vanessa, fruto da minha falta de capacidade de desenrasque com o sexo oposto (bem, e com o sexo em geral).

A segunda miúda a ligar, que se chamava Joana, não devia ter namorado (ou então tinha mas não era o mesmo da Vanessa), porque eu voltei a meter a pata na poça e, mesmo assim, dias mais tarde estava com uma gaja giríssima enfiada no quarto, a quem eu só tiraria aquelas Doc Martens gigantescas e coçadas, aproveitando também, para descer o nível da maquilhagem de um onze para um três. De resto, não mudaria mais nada.

Com tantos pormenores na ponta da língua, não me consigo lembrar do que foi feito dela, já que, para além de cantar, ainda sabia tocar guitarra. Estivemos entretidos um bom bocado, o que sugeriria novas possibilidades de contacto. Mas não; não andávamos na mesma escola, os putos não costumavam ter telemóvel, e apesar dela ter o meu número de casa, não voltou a ligar e perdi-lhe completamente o rasto.

Hoje em dia, embora a minha capacidade de relacionamento com outros seres humanos tenha aumentado exponencialmente, dou graças à democratização da tecnologia. Permite-me estar a gravar a nova música que comecei hoje sem a ajuda de ninguém, sabendo que a minha namorada não se vai chatear por haver Vanessas e Joanas sentadas na minha cama com saias bem curtinha.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Jobs for the boys

Acabei de passar por uma caixa de electricidade que tinha sido vandalizada recentemente. Nela podia-se ler a frase de enorme sensibilidade "Pretos Fora". É também de grande sensibilidade o seguinte: adivinhem qual foi a criatura a quem incumbiram a tarefa de voltar a pintar a caixa.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Já não há ilusões



Lembro-me de uma vez ter visto a Sic. Já foi há muitos anos, mas ainda o recordo com um misto de mágoa e saudade. Eram tempos em que não quase ninguém tinha internet, quanto mais a perspectiva de gravações automáticas. Tínhamos de deixar a vida em suspenso se queríamos ver alguma coisa de que gostássemos, coisa que os putos agora, provavelmente, nem devem perceber.

Dizia eu que uma vez tinha visto a Sic. Talvez não o tivesse feito se não tivessem andado a anunciar exaustivamente que o guitarrista dos Guns N' Roses ia apresentar num programa português dois temas do seu primeiro álbum a solo. Salvo erro, a banda andava a atravessar um mau bocado (acho até que já se tinham separado oficialmente e tudo), após aquela tentativa falhada de álbum de covers cuja tradução em português duvidoso era "O incidente do esparguete". Por muito limitados que os Rolling Stones sejam, o mundo não precisava que outros andassem a fazer versões do Sympathy For The Devil piores que o original. Em suma, fazia sentido que houvesse uma separação e andassem a tentar lançar carreiras a solo, gerando idas a programas de televisão como forma de publicidade.

Liguei a televisão, suportei anúncios, um talk show/concurso miserável e artistas portugueses condizentes com o programa, já que nunca temos a certeza quando vai dar o bocado em que estamos interessados. Uma ida à casa de banho podia ser fatal; já muitas bexigas e/ou cuecas se estragaram à conta disso.

Finalmente, anunciaram com pompa e circunstância a tal apresentação dos novos temas do álbum a solo do guitarrista dos Guns N' Roses e lá nos aparece um americano exuberante com sua banda, daqueles tipos de exuberância que não havia em Portugal naquela altura até ter aparecido o "Ídolos" e termos achado de repente que éramos todos os artistas e que podíamos ser homens, dançar em palco como o Mick Jagger e o Axl Rose, e ainda assim ter esperança de engatar gajas (mas não, somos portugueses; boina na cabeça, pose séria e sofrida, e alternância nas mãos ora da enchada ora da rolha da garrafa de vinho verde que trouxemos com a merenda).

Só que o americano era o Gilby Clarke. O Gilby Clarke, caralho. Que eu me lembre, em todas as formações dos Guns N' Roses, houve apenas um guitarrista, e tudo o resto são apenas bandalhos agarrados a paus com cordas (facto que recordei em 2010 ou 2011 quando fui ver aquele concerto deplorável no então Pavilhão Atlântico). A Sic devia ter-me dado o Slash. Perdi uma hora e meia da minha vida, em que podia ter estado no sofá a jogar Mega Drive ou Sega Saturn (lá está, não me lembro do ano).

Passados estes anos todos já não guardo rancor à Sic, e de vez em quando até lá vejo o Telejornal. Não há rancor porque agora há a CMTV, embora seja melhor do que eu estava à espera no início (cada um que decida se eles se superaram ou se as expectativas eram mesmo baixas). Já não há ilusões. Se eles tivessem feito o mesmo anúncio, na melhor das hipóteses, ou aparecia o gajo que mudava as cordas ao Slash, ou o Paco Bandeira.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Se duas pessoas...

... que partilham casa e, convenientemente, o leito, decidirem que o seu jantar será nada mais, nada menos (ok, confesso, bem mais) do que um quilograma de castanhas assadas, quão irrespirável ficará o ar da divisão em que se encontra o supracitado leito? Pior do que uma feijoada a horas tardias? E se se empurrar tudo com Ice Tea de limão? A nocividade reduz-se ou é agravada?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Note to self

Nunca espetar com fotos da mulher e do puto recém parido na cama do hospital no facebook. É desonesto capturar os piores momentos de uma mulher e partilhá-lhos com o mundo. Há grávidas muito bonitas, dependendo da altura; ali, oito vezes em dez, vai parecer apenas uma porca cansada com o seu bacorinho enrugado acabado de nascer. Sorrir não torna as coisas melhores, nunca foi a receita mágica para a beleza. Que um ex-marido mais tarde o decida fazer como vingança, ainda é como o outro, embora qualquer juíz de mente evoluída o vá condenar por difamação, em caso de processo (devia ser um crime público, dispensando a iniciativa da visada). Na minha opinião, é pior do que partilhar o vídeo daquela sex tape que jurámos apagar do cartão de memória, onde ela ao menos ainda estava boa.

É que nós, homens, somos no dia do parto exactamente aquilo que fomos no dia anterior e o que seremos no dia a seguir. Já a vossa mulher irá deixar uma marca indelével na cabeça de quem não estiver à espera daquela visão do horror no seu mural, que se irá sobrepor na memória, inevitavelmente, à glória que ela exibia há nove meses atrás, ou que irá novamente exibir dali a mais alguns caso largue prontamente os M&M's.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ao menos não são unhas de gel com decorações estúpidas

- Vai escolhendo o filme enquanto eu limo as unhas.
 - Hmmmm.

- Agora não, que o verniz ainda não secou!
 - Hmmmm. 

- Pára com isso, ainda me vais deixar com marcas nas unhas.
 - Hmmmm. 

- Olha para este brilho. Estão lindíssimas, não estão?
 - Hmmmm. 

- Se quiseres fazemos as unhas juntos.
 - Hmmmm. 



Imagino que não seja só em minha casa que estas frases são repetidas até à exaustão. Este é aquele tipo de diálogo em que a única resposta adequada a uma frase perfeitamente banal e fútil é um murmúrio desinteressado. Nós não somos excepção, excepto num pequeno ponto: nos últimos tempos quem fala das unhas sou eu e quem não gives a fuck about that shit é ela.

Confesso, ando a meter verniz nas unhas das mãos por causa de um cabrão de um fungo. Já tinha uma ligeira descoloração numa delas há algum tempo, o que não me teria preocupado muito se nos últimos meses a condição não se tivesse propagado para outras. Isto levou-me a fazer o que qualquer pessoa preocupada com a saúde faz, que é ir googlar aquilo que aparentemente lhe aflige e correr para a farmácia mais próxima para poder proceder à automedicação.

Até agora não senti grandes efeitos secundários, tirando o facto de a minha voz estar mais aguda e fina, o meu feitio estar mais instável, e andar a raspar demasiadas vezes em caixotes do lixo e outros carros quando tento estacionar em paralelo. Às vezes até solto uma lagrimita quando reparo que a pintura está um bocadinho mais raspada do que o habitual. As flores nunca cheiraram tão bem como agora, e derreto-me toda sempre que vejo bebés. Porra, todo. Sniff.

Agora já recuperei a autoestima, tendo em conta que o meu palpite diagnóstico estava correcto. Elas estão a recuperar o fulgor de outros tempos, mas na altura fiquei um bocado abalado. Quando o único elogio de que nos lembramos de receber em criança é o facto de se ter mãos de pianista, é lógico deduzir que o abismo está já ali ao lado quando perdemos aquilo que tínhamos de melhor. Aliás, eu acho até que se tentasse, teria uma excelente carreira como modelo masculino de mãos. Bem, pelo menos como modelo masculino de mãos esquerdas, já que quando tinha nove anos, um ligeiro acidente com uma farpa numa traineira a caminho das berlengas fez com que desenvolvesse um panarício precisamente no dedo que mais se utiliza à hora de ponta em Lisboa. Não fiquei a parecer um mãos de def, mas a ligeira assimetria com que fiquei na unha e no dedo acabou por virar os holofotes para a outra mão.

Foda-se, estão a ficar mesmo bonitas pá. O corpo das unhas está mais longo, forte e opaco, com uma curvatura da borda livre tão perfeita que mais parece manicure francesa feita por deus. E este brilho... ai este brilho. Começo a ficar viciado nesta porcaria. À conta da obrigatoriedade de aplicação diária, estou a ficar tão pró com o pincel que me habilito seriamente a conseguir a nacionalidade brasileira em tempo record.

Fiz a promessa a mim mesmo de que, assim que acabar o segundo frasco, não volto a consumir pintar. É que o pior efeito secundário de todos, e que está gravosamente omisso da bula do fármaco, é a cara de nojo com que a mulher olha para o seu homem depois de proferir uma daquelas maricagens do início do texto. E assim, consequentemente, quanto mais lindas ficam as de um homem, menos vontade tem uma mulher de cuidar das dela.